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Após um investimento bilionário de mais de US$ 100 bilhões planejado para abrigar 700 mil pessoas em ilhas artificiais ao lado de Cingapura, a megacidade futurista Forest City na Malásia ficou subutilizada, completou apenas cerca de 15 % da obra e agora tenta se reinventar como zona financeira especial em meio a prédios quase vazios e desafios econômicos

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/02/2026 às 15:23
Atualizado em 10/02/2026 às 15:26
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Após um investimento bilionário de mais de US$ 100 bilhões planejado para abrigar 700 mil pessoas em ilhas artificiais ao lado de Cingapura, a megacidade futurista Forest City na Malásia ficou subutilizada, completou apenas cerca de 15 % da obra e agora tenta se reinventar como zona financeira especial em meio a prédios quase vazios e desafios econômicos
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Megacidade Forest City, na Malásia, consumiu mais de US$ 100 bilhões, ficou vazia após crise imobiliária e agora tenta se reinventar como zona financeira especial ao lado de Cingapura.

Em Iskandar Puteri, no estado de Johor, extremo sul da Malásia, a poucos quilômetros da fronteira com Cingapura, nasceu um dos projetos urbanos mais ambiciosos do século XXI. A chamada Forest City começou a ser construída oficialmente em 2016, idealizada pelo grupo imobiliário chinês Country Garden, em parceria com a estatal malaia Esplanade Danga 88. O plano previa a criação de uma cidade inteira sobre quatro ilhas artificiais, aterradas no Estreito de Johor, com capacidade para receber até 700 mil moradores, dezenas de hotéis, centros financeiros, marinas, universidades, hospitais e parques tecnológicos.

O investimento total anunciado ao longo do projeto ultrapassava US$ 50 bilhões, podendo chegar a US$ 100 bilhões ao longo de décadas, segundo materiais institucionais divulgados à época do lançamento. A Forest City foi apresentada como uma vitrine do urbanismo do futuro: edifícios cobertos por vegetação, sistemas inteligentes de energia, mobilidade elétrica, ruas sem carros convencionais e uma integração total entre moradia, trabalho e lazer. O projeto ganhou apoio político inicial e foi vendido principalmente a investidores estrangeiros, em especial compradores chineses interessados em imóveis fora da China continental.

No entanto, menos de dez anos após o início das obras, a realidade no terreno se mostrou muito diferente da maquete.

Onde tudo começou: ilhas artificiais no sul da Malásia

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A Forest City foi implantada em uma área estratégica do Sudeste Asiático. Johor é o estado malaio mais próximo de Cingapura, um dos maiores centros financeiros do mundo.

A proximidade geográfica era um dos principais argumentos do projeto: morar em uma cidade futurista, com preços inferiores aos de Cingapura, mas com acesso rápido ao mercado financeiro e às oportunidades da cidade-Estado.

Para isso, foi necessário um trabalho de engenharia colossal. Milhões de metros cúbicos de areia foram dragados para formar ilhas artificiais, processo semelhante ao utilizado em projetos como Palm Jumeirah, em Dubai. O aterramento alterou a linha costeira, exigiu contenções marítimas extensas e demandou infraestrutura portuária, viária e elétrica completamente nova.

As ilhas foram projetadas para abrigar distritos residenciais verticais, centros comerciais, hotéis de luxo e áreas verdes elevadas. Em teoria, a Forest City funcionaria como uma cidade autônoma, conectada ao continente por pontes e vias expressas.

O modelo de negócios por trás da Forest City

O coração financeiro do projeto estava na venda antecipada de apartamentos para investidores estrangeiros. A estratégia seguia um padrão já utilizado por grandes incorporadoras chinesas: levantar capital com vendas “na planta” para financiar a expansão contínua das obras.

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Grande parte das unidades foi comercializada para cidadãos chineses de classe média e alta, atraídos pela promessa de valorização imobiliária, segurança jurídica internacional e acesso indireto a mercados globais. Em alguns momentos, mais de 80 % dos compradores eram estrangeiros, segundo dados divulgados pela imprensa malaia.

Esse modelo, no entanto, tornou o projeto altamente dependente de fatores externos, como políticas de controle de capital da China, mudanças regulatórias na Malásia e o próprio ciclo econômico global.

Mudanças políticas e o início das dificuldades

Em 2018, a situação começou a mudar de forma significativa. O novo governo malaio passou a rever projetos imobiliários de grande escala voltados a estrangeiros, citando preocupações com especulação, acessibilidade habitacional e soberania territorial. Restrições adicionais foram impostas à compra de imóveis por não residentes, afetando diretamente a demanda pela Forest City.

Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário chinês começou a dar sinais de esgotamento. Grandes incorporadoras enfrentaram dificuldades financeiras, e o fluxo de compradores chineses para projetos no exterior diminuiu drasticamente.

A pandemia de COVID-19, a partir de 2020, agravou ainda mais o cenário. Fronteiras foram fechadas, viagens internacionais praticamente cessaram e o interesse por imóveis em cidades ainda em construção despencou. As obras desaceleraram, e muitos prédios já concluídos permaneceram praticamente vazios.

Uma cidade pronta, mas sem moradores

Em 2023, estimativas apontavam que menos de 10 000 pessoas viviam efetivamente na Forest City, número irrisório diante da capacidade projetada de 700 000 habitantes.

Torres residenciais completas, com centenas de apartamentos cada, apresentavam taxas de ocupação mínimas. Áreas comerciais funcionavam de forma parcial, e muitos serviços planejados jamais saíram do papel.

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Imagens aéreas da região passaram a circular em veículos internacionais, mostrando avenidas largas, edifícios modernos e infraestrutura nova, mas com pouquíssima movimentação humana. O termo “cidade fantasma” passou a ser frequentemente associado ao projeto, ainda que as autoridades locais rejeitem oficialmente essa classificação.

Do ponto de vista econômico, o impacto foi profundo. O principal desenvolvedor, a Country Garden, entrou em uma crise financeira severa a partir de 2021, refletindo o colapso mais amplo do setor imobiliário chinês. O ritmo de investimentos caiu, novas fases do projeto foram adiadas e parte da força de trabalho foi desmobilizada.

Impactos ambientais e críticas à engenharia costeira

Além dos problemas financeiros e demográficos, a Forest City também enfrentou críticas ambientais. O processo de aterramento e dragagem afetou ecossistemas costeiros, áreas de pesca artesanal e manguezais da região de Johor. Comunidades locais relataram queda na produtividade pesqueira e mudanças na dinâmica das correntes marítimas.

Esses impactos geraram debates sobre o custo ambiental de megaprojetos urbanos construídos sobre o mar, especialmente em regiões ecologicamente sensíveis.

A tentativa de reinvenção: zona financeira especial

Diante do cenário de estagnação, o governo malaio anunciou, em 2023 e 2024, uma nova estratégia para a Forest City. O projeto foi oficialmente designado como Zona Financeira Especial, com incentivos fiscais, regimes regulatórios diferenciados e facilidades para empresas estrangeiras se instalarem na área.

O objetivo passou a ser transformar a cidade em um polo de serviços financeiros, tecnologia, centros de dados e atividades digitais, aproveitando a infraestrutura já construída e a proximidade com Cingapura. Entre os incentivos anunciados estão isenções de impostos, vistos especiais para profissionais estrangeiros e estímulos à instalação de escritórios regionais de multinacionais.

Essa mudança marca uma inflexão clara no propósito original do projeto. A Forest City deixa de ser vendida como uma cidade residencial massiva e passa a ser apresentada como uma plataforma econômica estratégica, voltada mais ao capital e aos serviços do que à habitação em larga escala.

O que a Forest City revela sobre megaprojetos do século XXI

O caso da Forest City se tornou um exemplo emblemático dos riscos associados a megaprojetos urbanos concebidos a partir de projeções otimistas de crescimento contínuo.

A combinação de engenharia de grande escala, capital internacional e planejamento de longo prazo mostrou-se extremamente sensível a mudanças políticas, crises econômicas e choques globais inesperados.

Ao mesmo tempo, o projeto expõe os limites do urbanismo baseado quase exclusivamente em investimento imobiliário e especulação de ativos. Sem uma base econômica local sólida e uma população residente orgânica, mesmo a infraestrutura mais moderna pode se tornar subutilizada.

Para a Malásia, a Forest City representa um desafio estratégico: como aproveitar um investimento já realizado, minimizar perdas financeiras e transformar um símbolo de excesso em uma ferramenta de desenvolvimento econômico real. Para o mundo, o projeto funciona como um alerta sobre os custos ocultos de cidades planejadas para um futuro que nem sempre se concretiza.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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