Após duas décadas sem registros constantes, botos-de-Lahille voltam a dividir o Rio Araranguá com pescadores artesanais, reativam a pesca cooperativa tradicional, atraem pesquisadores da Unesc para monitoramento intensivo e levantam hipóteses sobre rotas costeiras, ruído de embarcações e mudanças ambientais no litoral catarinense ao longo do verão e do outono
A volta dos botos-de-Lahille ao Rio Araranguá, no extremo sul de Santa Catarina, recoloca em cena uma das interações mais singulares entre fauna marinha e comunidades humanas no país. Depois de cerca de 20 anos sem aparições regulares, os animais retomaram a convivência com pescadores locais e reativaram a pesca cooperativa em plena Barra do Rio Araranguá, num cenário em que a espécie é oficialmente classificada como ameaçada de extinção.
Ao mesmo tempo em que a comunidade comemora o reencontro, equipes da Universidade do Extremo Sul Catarinense acompanham cada aproximação entre botos e embarcações artesanais. Em pouco mais de um ano de observações sistemáticas, os pesquisadores somam mais de uma centena de saídas de campo, catalogam indivíduos, registram padrões de comportamento e tentam responder a uma pergunta central: o que levou esses botos-de-Lahille a voltar a ocupar um ambiente que havia sido abandonado por tanto tempo?
Tradição retomada entre botos e pescadores no extremo sul catarinense

Na Barra do Rio Araranguá, a pesca cooperativa não é lenda nem recurso folclórico para turista. Pescadores veteranos lembram que, décadas atrás, os botos-de-Lahille passavam o dia inteiro acompanhando as canoas, cercando cardumes e indicando o momento exato de lançar a rede.
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A volta dos animais, identificada pela própria comunidade a partir do verão de 2021, reativou essa memória coletiva e devolveu uma rotina que muitos acreditavam encerrada.
O relato de Osvaldo dos Passos Vieira, pescador com mais de 50 anos de experiência, sintetiza o peso simbólico da relação. Ele diz ter começado a pescar “com os botos” ainda aos 12 anos de idade e afirma que os animais eram tratados como “pessoas da família” pelos moradores da região.
Quando os botos-de-Lahille reapareceram no Rio Araranguá, a reação descrita por ele foi de “alegria pura”, uma expressão que ajuda a dimensionar o impacto social do retorno dessa cooperação no cotidiano da comunidade pesqueira.
Como funciona na prática a pesca cooperativa com botos-de-Lahille

Do ponto de vista operacional, a pesca cooperativa depende de sincronia fina entre humanos e botos. Os botos-de-Lahille cercam os cardumes, comprimem os peixes em áreas mais rasas ou próximas das margens e, nesse movimento, indicam aos pescadores o instante ideal para lançar a rede.
O que fica preso vira captura humana. O que escapa serve de alimento para os próprios animais, num arranjo em que todos parecem se beneficiar.
Essa interação exige leitura atenta dos sinais na superfície do rio. Os pescadores observam mudanças no deslocamento dos botos-de-Lahille, pequenas variações na forma como eles nadam e se posicionam em relação aos cardumes.
Já os botos parecem tolerar a proximidade das embarcações e ajustar a movimentação à presença das redes.
É um tipo de cooperação que depende de repetição, memória e reconhecimento individual entre humanos e cetáceos, e que agora volta a ser observada com frequência na região.
Monitoramento científico e identificação de indivíduos no Rio Araranguá
Desde setembro de 2024, a presença dos botos-de-Lahille no Rio Araranguá passou a ser acompanhada de maneira sistemática por equipes da Unesc.
Foram registradas mais de 100 saídas a campo, com uso de ponto fixo de observação, câmeras fotográficas de alta resolução e drones para documentar a movimentação dos animais em diferentes trechos do estuário. O objetivo é transformar um reaparecimento empírico em série histórica consistente.
A identificação dos indivíduos segue um protocolo consolidado na pesquisa com cetáceos costeiros. Cada boto-de-Lahille é reconhecido por marcas, recortes e cicatrizes na nadadeira dorsal, que funcionam como uma espécie de “digital” biológica.
A pesquisadora Nadine Saraiva de Souza, do projeto Botos do Araranguá, explica que esse mapeamento visual permite acompanhar quais animais retornam com maior frequência, quanto tempo permanecem na área e como se distribuem ao longo do curso do rio.
Esses dados ajudam a entender se o fenômeno é pontual ou parte de uma tendência de recolonização.
Hipóteses para o retorno de uma espécie ameaçada ao Araranguá
Os cientistas evitam respostas simples para fenômenos complexos, mas algumas hipóteses já orientam o trabalho de campo. Uma das principais linhas de investigação considera que os botos-de-Lahille estejam buscando áreas menos movimentadas no período de maior pressão náutica ao longo da costa, especialmente durante o verão.
Regiões com menos tráfego de embarcações costumam oferecer menor nível de ruído subaquático e menos risco de colisões.
Outra frente analisa a possível conexão entre o Rio Araranguá e outras áreas tradicionais de ocorrência da espécie, como Laguna, em Santa Catarina, e Torres, no Rio Grande do Sul.
Pesquisadores consideram plausível que alguns indivíduos se desloquem entre esses pontos, utilizando a zona costeira como corredor e o Araranguá como área de uso sazonal.
Se essa dinâmica se confirmar, os botos-de-Lahille que hoje atuam na pesca cooperativa com pescadores catarinenses podem ser parte de um mesmo contingente que transita por diferentes ambientes do litoral Sul do Brasil.
Pressão ambiental, espécie ameaçada e importância do registro contínuo
O status de ameaça dos botos-de-Lahille, reconhecidos cientificamente como Tursiops gephyreus e incluídos em listas de risco de extinção, adiciona uma camada de urgência ao monitoramento.
Cada indivíduo identificado no Rio Araranguá representa uma fração relevante de uma população que já é considerada reduzida e vulnerável a impactos cumulativos, como poluição, capturas acidentais e alterações de habitat.
Nesse contexto, registrar quando os botos chegam, quanto tempo permanecem e como se comportam deixa de ser apenas curiosidade científica e passa a ser componente central de qualquer estratégia de conservação.
O reaparecimento na Barra do Rio Araranguá ajuda a mapear rotas, preferências ambientais e pontos de interação crítica entre os botos-de-Lahille e a atividade pesqueira, fornecendo insumos para políticas de manejo que reduzam conflitos e riscos para a espécie.
Participação da comunidade na rede de cooperação e vigilância
O retorno dos botos-de-Lahille não mobiliza apenas laboratórios universitários e instituições ambientais. Pescadores, moradores, turistas, guarda-vidas e surfistas foram incorporados a uma rede informal de alerta, enviando fotos e vídeos de avistamentos na costa sul catarinense.
Esse fluxo de informações espontâneas amplia o alcance do monitoramento e compensa, em parte, as limitações de equipes pequenas em uma faixa extensa de litoral.
O coordenador do projeto, Rodrigo Machado, destaca que cada registro recebido por aplicativos de mensagem ajuda a confirmar presença, deslocamentos e horários de atividade dos animais.
O telefone de contato do projeto funciona como canal direto entre pesquisadores e comunidade, permitindo que um avistamento ocasional de botos-de-Lahille na praia se transforme rapidamente em dado georreferenciado e imagem catalogada. É uma forma de ciência aplicada que depende, de maneira explícita, do engajamento local.
Cooperação, identidade cultural e futuro da pesca artesanal
Para além dos gráficos e planilhas, a volta dos botos-de-Lahille reabre um debate sobre identidade cultural e futuro da pesca artesanal no extremo sul de Santa Catarina.
A cooperação entre animais e pescadores sempre representou um diferencial simbólico para a região, funcionando como marca local e, ao mesmo tempo, como indicador da qualidade ambiental do estuário.
Quando um pescador afirma que os botos “pescavam o dia todo para nós”, há ali uma síntese da dependência mútua entre atividade humana e presença da espécie.
A permanência dos botos-de-Lahille no Rio Araranguá tende a depender da manutenção de um ambiente minimamente preservado, de regras claras para o uso do espaço aquático e de um equilíbrio delicado entre exploração econômica dos recursos pesqueiros e conservação de uma população já classificada como ameaçada.
Que modelo de convivência o Rio Araranguá vai adotar?
O reaparecimento dos botos-de-Lahille no Rio Araranguá recoloca a região em uma encruzilhada discreta, mas decisiva.
De um lado, a pesca cooperativa reforça a importância da espécie para a renda de famílias que há décadas dependem do rio.
De outro, o fato de se tratar de uma população ameaçada impõe limites claros ao tipo de pressão que o ambiente pode suportar sem novos colapsos.
Num cenário em que pesquisadores intensificam o monitoramento e a comunidade volta a conviver diariamente com os animais, a pergunta que fica é direta: na sua opinião, o que deveria pesar mais nas decisões locais daqui para frente, a proteção dos botos-de-Lahille ou a ampliação da atividade pesqueira tradicional, e que tipo de regra concreta você considera justa para garantir as duas coisas ao mesmo tempo?
