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Após a Segunda Guerra, mais de 1,6 milhão de toneladas de munição química foram deliberadamente afundadas no Mar Báltico e recipientes corroídos já vazam mostarda e lewisita no fundo do oceano

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/01/2026 às 18:26
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Mais de 1,6 milhão de toneladas de munição química foram afundadas no Mar Báltico após a Segunda Guerra; recipientes corroem e vazamentos já preocupam cientistas.

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, a Alemanha nazista havia deixado para trás um dos maiores arsenais de armas químicas já produzidos. Bombas, projéteis de artilharia, minas e barris carregados com agentes como gás mostarda (iperita) e lewisita precisavam ser eliminados rapidamente. A solução encontrada pelos Aliados não foi a neutralização segura nem o armazenamento controlado em terra, mas algo muito mais simples — e hoje visto como um erro histórico: afundar tudo no mar.

Entre o fim dos anos 1940 e o início da década de 1950, mais de 1,6 milhão de toneladas de munição química foram deliberadamente despejadas no Mar Báltico, segundo levantamentos da HELCOM (Comissão de Proteção do Ambiente Marinho do Báltico) e da Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha (UBA). Trata-se do maior descarte químico submarino já registrado em águas europeias.

Que tipo de armas químicas foram jogadas no Mar Báltico

A maior parte do material afundado era composta por armas químicas alemãs capturadas, principalmente:

  • Gás mostarda (iperita), agente vesicante que causa queimaduras severas na pele, olhos e pulmões
  • Lewisita, um composto arsenical altamente tóxico, capaz de provocar necrose química e envenenamento sistêmico
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Essas substâncias foram acondicionadas em projéteis metálicos, bombas aéreas e barris, muitos deles produzidos ainda nos anos 1930 e 1940, sem qualquer expectativa de durabilidade a longo prazo em ambiente marinho.

Onde esse lixo químico está concentrado hoje

As principais áreas de despejo identificadas ficam:

  • Ao largo da ilha de Bornholm (Dinamarca)
  • Na Bacia de Gotland
  • Em regiões profundas do Mar Báltico central

Esses locais foram escolhidos por sua profundidade e distância relativa da costa, sob a suposição de que o material permaneceria isolado do ambiente humano. O problema é que o tempo mostrou exatamente o contrário.

Recipientes corroídos e vazamentos já documentados

Estudos científicos publicados em periódicos como a Nature e relatórios técnicos da HELCOM confirmam que os invólucros metálicos estão se corroendo após mais de 70 anos submersos.

Em vários pontos do fundo do Mar Báltico, sensores e amostras indicam a presença de resíduos químicos no sedimento.

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Casos de vazamento de gás mostarda solidificado já foram registrados. Em algumas situações, a substância — que pode assumir aspecto semelhante a cera ou resina — foi acidentalmente trazida à superfície por redes de pesca, causando queimaduras químicas em pescadores.

A BBC documentou episódios em que trabalhadores do setor pesqueiro precisaram de atendimento médico após contato direto com esses resíduos.

Por que o Mar Báltico é especialmente vulnerável

Diferentemente de oceanos abertos, o Mar Báltico é um mar quase fechado, com troca limitada de água com o Atlântico. Isso significa:

  • Baixa renovação hídrica
  • Maior tempo de permanência de contaminantes
  • Acúmulo progressivo de poluentes no sedimento

Além disso, o fundo do Báltico possui áreas com baixo teor de oxigênio, o que altera reações químicas e pode acelerar a liberação de certos compostos tóxicos.

Riscos ambientais e impacto na cadeia alimentar

O maior temor dos cientistas não é um vazamento súbito em larga escala, mas sim um vazamento contínuo e silencioso, ao longo de décadas. Pequenas quantidades de agentes químicos podem:

  • Contaminar organismos bentônicos
  • Entrar na cadeia alimentar por meio de peixes e crustáceos
  • Afetar ecossistemas inteiros de forma cumulativa

Relatórios da German Federal Environment Agency apontam que remover essas munições hoje pode ser tão arriscado quanto deixá-las onde estão, criando um dilema técnico e ambiental sem solução simples.

Por que ninguém removeu esse material até hoje

A retirada das munições químicas envolve riscos extremos. Qualquer tentativa de movimentação pode:

  • Romper recipientes fragilizados
  • Liberar grandes volumes de agentes tóxicos
  • Expor trabalhadores a substâncias letais

Por isso, a estratégia adotada até agora tem sido monitoramento contínuo, mapeamento detalhado e restrição de atividades pesqueiras em áreas críticas. Ainda assim, especialistas alertam que essa abordagem apenas ganha tempo, não resolve o problema.

Um passivo da guerra que ainda ameaça o presente

O descarte de mais de 1,6 milhão de toneladas de munição química no Mar Báltico não foi um acidente, mas uma decisão política e logística tomada em um período em que os impactos ambientais de longo prazo eram ignorados. Hoje, esse passivo retorna como uma ameaça invisível, lenta e difícil de conter.

O que está no fundo do Mar Báltico não é apenas lixo químico é uma herança tóxica da guerra, corroendo silenciosamente recipientes e testando os limites da ciência moderna.

E fica a pergunta inevitável: o mundo realmente aprendeu a lidar com os resíduos extremos que ele próprio criou ou continua empurrando esses riscos para o fundo e para o futuro?

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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