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Debaixo da Antártida existe o maior buraco gravitacional da Terra, onde a gravidade é fraca o suficiente para reduzir o peso de um corpo humano, e um estudo de 2025 descobriu que essa anomalia pode ter sido o mecanismo silencioso que congelou o continente há 40 milhões de anos

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 16/03/2026 às 16:51
Debaixo da Antártida existe o maior buraco gravitacional da Terra, onde a gravidade é fraca o suficiente para reduzir o peso de um corpo humano
Debaixo da Antártida existe o maior buraco gravitacional da Terra, onde a gravidade é fraca o suficiente para reduzir o peso de um corpo humano
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Cientistas identificaram o maior “buraco gravitacional” do planeta sob a Antártida. Um estudo publicado em 2025 sugere que a anomalia pode ter ajudado a congelar o continente há 40 milhões de anos.

A gravidade da Terra não é exatamente igual em todos os pontos do planeta. Pequenas variações ocorrem naturalmente por causa da distribuição desigual de massa no interior do planeta, da rotação da Terra e até da topografia da superfície. Em algumas regiões, a gravidade é ligeiramente mais forte; em outras, ligeiramente mais fraca.

Uma das maiores e mais intrigantes dessas variações ocorre sob a Antártida, onde cientistas identificaram a maior depressão gravitacional conhecida da Terra. Nessa área, a gravidade é tão levemente reduzida que um corpo humano pode pesar alguns gramas a menos do que pesaria em outras regiões do planeta.

Embora essa diferença seja imperceptível no dia a dia, ela revela processos geológicos gigantescos que ocorrem profundamente abaixo da crosta terrestre. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Scientific Reports analisou essa anomalia gravitacional com novos modelos geofísicos e sugeriu algo surpreendente: a região pode ter desempenhado um papel crucial na formação da calota de gelo antártica, iniciada há cerca de 40 milhões de anos.

As conclusões do estudo foram baseadas em dados de satélites de gravidade, modelagem do manto terrestre e reconstruções tectônicas da Antártida. Os pesquisadores envolvidos são ligados à Universidade da Flórida, além de outros centros de geofísica que estudam o interior profundo do planeta.

O que é um “buraco gravitacional” e por que ele existe

O termo “buraco gravitacional” não significa literalmente um buraco físico no solo ou no gelo. Na verdade, trata-se de uma anomalia gravitacional, ou seja, uma região onde a força gravitacional medida é ligeiramente menor do que o valor médio esperado.

Essas variações ocorrem porque a gravidade depende diretamente da quantidade de massa presente abaixo de determinado ponto da superfície. Se o material do interior da Terra for mais denso, a gravidade será um pouco mais forte; se for menos denso ou mais quente, a gravidade será ligeiramente menor.

No caso da Antártida, a anomalia está associada a estruturas profundas do manto terrestre, a camada localizada entre a crosta e o núcleo do planeta.

Segundo os modelos geofísicos analisados no estudo, sob a região do Mar de Ross, existe uma área onde rochas do manto apresentam densidade menor que a média. Esse material mais leve gera uma pequena redução na atração gravitacional da região.

Onde fica exatamente a maior anomalia gravitacional da Terra

A região mais intensa dessa anomalia está localizada sob partes da Antártida Ocidental, especialmente próximo ao Mar de Ross. O Mar de Ross é uma enorme baía localizada no setor sul do Oceano Pacífico, considerada uma das áreas mais importantes para o estudo da geologia antártica. Ali, a crosta terrestre é relativamente fina e as estruturas profundas do manto influenciam diretamente a dinâmica do continente.

Satélites especializados em medir o campo gravitacional da Terra — como as missões GRACE e GOCE — ajudaram os cientistas a mapear essas variações com enorme precisão. Esses dados mostram que a gravidade nessa região é uma das mais fracas registradas no planeta em termos relativos.

Mapa das anomalias do geoide da Terra obtidas a partir de dados do satélite GRACE, mostrando variações do campo gravitacional em relação ao elipsoide de referência e ao geoide hidrostático. A estrela indica a depressão geoidal mais profunda do planeta, enquanto as linhas marcam limites de placas tectônicas e costas atuais, com destaque para a região da Antártida.

Quanto a gravidade realmente muda nessa região

A diferença de gravidade causada por essa anomalia é extremamente pequena quando comparada à gravidade média da Terra. Mesmo assim, ela é mensurável com instrumentos modernos de alta precisão. Segundo estimativas citadas em estudos geofísicos, uma pessoa que pesa 90 kg em uma região de gravidade média poderia pesar aproximadamente 5 a 6 gramas a menos nessa área da Antártida.

Essa variação é pequena demais para ser percebida sem equipamentos científicos, mas ela fornece informações importantes sobre o que está acontecendo milhares de quilômetros abaixo da superfície.

O papel do manto terrestre na formação da anomalia

O estudo publicado em 2025 buscou entender não apenas onde essa anomalia existe, mas como ela se formou ao longo da história geológica da Terra. Para isso, os pesquisadores reconstruíram o movimento das placas tectônicas ao redor da Antártida durante dezenas de milhões de anos. A análise revelou que dois processos profundos ocorreram simultaneamente há cerca de 40 milhões de anos.

Mapas mostram a evolução das anomalias do geoide da Terra há 65 milhões, 40 milhões e no presente, com base em modelos 3D da estrutura do manto e dados de tomografia global.

O primeiro processo foi a subducção de placas tectônicas frias ao redor da Antártida. Durante a subducção, partes da crosta oceânica afundam lentamente no manto terrestre, transportando material denso para o interior do planeta.

O segundo processo foi a possível ascensão de uma pluma de material quente do manto profundo, que se eleva a partir da região próxima ao limite entre o núcleo e o manto. A interação entre essas duas forças — placas frias afundando e material quente subindo — teria criado uma área de densidade reduzida sob o continente, intensificando a anomalia gravitacional.

A ligação entre o buraco gravitacional e o congelamento da Antártida

Um dos aspectos mais intrigantes do estudo é a possível conexão entre essa anomalia gravitacional e a formação da enorme camada de gelo da Antártida. A Antártida nem sempre foi um continente congelado. Durante grande parte da história geológica da Terra, o continente possuía clima mais quente e vegetação abundante.

O gráfico mostra como a posição do ponto mais baixo do geoide da Terra mudou ao longo de até 70 milhões de anos, com base em modelos de convecção do manto.

A transição para um ambiente permanentemente congelado começou aproximadamente há 34 a 40 milhões de anos, durante o final do período Eoceno. Foi nesse momento que as primeiras grandes camadas de gelo começaram a se formar sobre o continente. De acordo com o estudo, o aprofundamento da anomalia gravitacional pode ter contribuído para esse processo de maneira indireta.

Como a gravidade pode influenciar o nível do mar

A gravidade desempenha um papel importante na distribuição da água dos oceanos. Regiões com gravidade ligeiramente maior tendem a atrair mais água, enquanto regiões com gravidade um pouco menor podem apresentar níveis do mar relativamente mais baixos. No caso da Antártida, a presença da anomalia gravitacional pode ter provocado um recuo do oceano ao redor do continente, reduzindo o nível do mar local.

Esse fenômeno teria exposto mais áreas do continente ao ar frio e ajudado a estabilizar o crescimento inicial das geleiras. Com o passar do tempo, o gelo acumulado tornou-se espesso o suficiente para formar a enorme calota polar antártica, que hoje contém cerca de 70% de toda a água doce do planeta.

A Antártida como o maior reservatório de água doce da Terra

Atualmente, a Antártida abriga a maior massa de gelo do planeta. A calota polar do continente possui aproximadamente 26 milhões de quilômetros cúbicos de gelo, tornando-se o maior reservatório de água doce da Terra.

Se todo esse gelo derretesse, o nível médio global dos oceanos poderia subir mais de 50 metros. A origem dessa enorme quantidade de gelo é um dos grandes temas da climatologia e da geologia moderna. O estudo sobre a anomalia gravitacional sugere que processos profundos do interior da Terra podem ter desempenhado um papel indireto na formação desse gigantesco reservatório natural.

Mapas mostram a evolução das anomalias do geoide da Terra há 65 milhões, 40 milhões e no presente, com base em modelos 3D da estrutura do manto e dados de tomografia global.

O que essa descoberta revela sobre o interior da Terra

A investigação da anomalia gravitacional antártica também ajuda os cientistas a compreender melhor a dinâmica do interior do planeta. O manto terrestre está em constante movimento, com material quente subindo e material frio afundando ao longo de milhões de anos. Esse processo, conhecido como convecção do manto, influencia a formação de montanhas, vulcões e placas tectônicas.

Anomalias gravitacionais como a observada sob a Antártida funcionam como pistas sobre esses movimentos profundos. Ao estudar essas variações, os geofísicos conseguem reconstruir eventos que ocorreram dezenas de milhões de anos atrás.

O campo gravitacional da Terra ainda guarda muitos mistérios

Embora a ciência tenha avançado muito no mapeamento da gravidade terrestre, muitas perguntas ainda permanecem sem resposta. O campo gravitacional do planeta é influenciado por fatores complexos, incluindo:

  • estrutura do manto
  • composição da crosta
  • movimentos tectônicos
  • redistribuição de massas na superfície

Satélites modernos continuam a monitorar essas variações com precisão cada vez maior. Essas medições não apenas ajudam a compreender o interior da Terra, mas também permitem acompanhar mudanças no nível do mar, no derretimento de geleiras e até na redistribuição de água subterrânea.

O gráfico mostra como a posição do ponto mais baixo do geoide da Terra mudou ao longo de até 70 milhões de anos, com base em modelos de convecção do manto.

Uma janela para a história profunda do planeta

A descoberta e o estudo do maior “buraco gravitacional” do planeta mostram como fenômenos invisíveis podem ter impactos gigantescos na história da Terra. Processos que ocorrem a quase 3.000 quilômetros de profundidade, na fronteira entre o manto e o núcleo, podem influenciar a formação de continentes, oceanos e até o clima global.

No caso da Antártida, o estudo sugere que a interação entre placas tectônicas e estruturas profundas do manto pode ter ajudado a criar as condições necessárias para o surgimento do maior manto de gelo da Terra. Essa hipótese reforça a ideia de que o planeta funciona como um sistema interligado, onde processos que acontecem no interior profundo podem moldar a superfície ao longo de milhões de anos.

E, à medida que novas tecnologias de observação são desenvolvidas, cientistas continuam descobrindo que mesmo as regiões aparentemente mais estáveis da Terra — como o gelo eterno da Antártida — escondem histórias complexas que começaram muito antes da humanidade existir.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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