Cientistas identificaram o maior “buraco gravitacional” do planeta sob a Antártida. Um estudo publicado em 2025 sugere que a anomalia pode ter ajudado a congelar o continente há 40 milhões de anos.
A gravidade da Terra não é exatamente igual em todos os pontos do planeta. Pequenas variações ocorrem naturalmente por causa da distribuição desigual de massa no interior do planeta, da rotação da Terra e até da topografia da superfície. Em algumas regiões, a gravidade é ligeiramente mais forte; em outras, ligeiramente mais fraca.
Uma das maiores e mais intrigantes dessas variações ocorre sob a Antártida, onde cientistas identificaram a maior depressão gravitacional conhecida da Terra. Nessa área, a gravidade é tão levemente reduzida que um corpo humano pode pesar alguns gramas a menos do que pesaria em outras regiões do planeta.
Embora essa diferença seja imperceptível no dia a dia, ela revela processos geológicos gigantescos que ocorrem profundamente abaixo da crosta terrestre. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Scientific Reports analisou essa anomalia gravitacional com novos modelos geofísicos e sugeriu algo surpreendente: a região pode ter desempenhado um papel crucial na formação da calota de gelo antártica, iniciada há cerca de 40 milhões de anos.
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As conclusões do estudo foram baseadas em dados de satélites de gravidade, modelagem do manto terrestre e reconstruções tectônicas da Antártida. Os pesquisadores envolvidos são ligados à Universidade da Flórida, além de outros centros de geofísica que estudam o interior profundo do planeta.
O que é um “buraco gravitacional” e por que ele existe
O termo “buraco gravitacional” não significa literalmente um buraco físico no solo ou no gelo. Na verdade, trata-se de uma anomalia gravitacional, ou seja, uma região onde a força gravitacional medida é ligeiramente menor do que o valor médio esperado.
Essas variações ocorrem porque a gravidade depende diretamente da quantidade de massa presente abaixo de determinado ponto da superfície. Se o material do interior da Terra for mais denso, a gravidade será um pouco mais forte; se for menos denso ou mais quente, a gravidade será ligeiramente menor.
No caso da Antártida, a anomalia está associada a estruturas profundas do manto terrestre, a camada localizada entre a crosta e o núcleo do planeta.
Segundo os modelos geofísicos analisados no estudo, sob a região do Mar de Ross, existe uma área onde rochas do manto apresentam densidade menor que a média. Esse material mais leve gera uma pequena redução na atração gravitacional da região.
Onde fica exatamente a maior anomalia gravitacional da Terra
A região mais intensa dessa anomalia está localizada sob partes da Antártida Ocidental, especialmente próximo ao Mar de Ross. O Mar de Ross é uma enorme baía localizada no setor sul do Oceano Pacífico, considerada uma das áreas mais importantes para o estudo da geologia antártica. Ali, a crosta terrestre é relativamente fina e as estruturas profundas do manto influenciam diretamente a dinâmica do continente.
Satélites especializados em medir o campo gravitacional da Terra — como as missões GRACE e GOCE — ajudaram os cientistas a mapear essas variações com enorme precisão. Esses dados mostram que a gravidade nessa região é uma das mais fracas registradas no planeta em termos relativos.

Quanto a gravidade realmente muda nessa região
A diferença de gravidade causada por essa anomalia é extremamente pequena quando comparada à gravidade média da Terra. Mesmo assim, ela é mensurável com instrumentos modernos de alta precisão. Segundo estimativas citadas em estudos geofísicos, uma pessoa que pesa 90 kg em uma região de gravidade média poderia pesar aproximadamente 5 a 6 gramas a menos nessa área da Antártida.
Essa variação é pequena demais para ser percebida sem equipamentos científicos, mas ela fornece informações importantes sobre o que está acontecendo milhares de quilômetros abaixo da superfície.
O papel do manto terrestre na formação da anomalia
O estudo publicado em 2025 buscou entender não apenas onde essa anomalia existe, mas como ela se formou ao longo da história geológica da Terra. Para isso, os pesquisadores reconstruíram o movimento das placas tectônicas ao redor da Antártida durante dezenas de milhões de anos. A análise revelou que dois processos profundos ocorreram simultaneamente há cerca de 40 milhões de anos.

O primeiro processo foi a subducção de placas tectônicas frias ao redor da Antártida. Durante a subducção, partes da crosta oceânica afundam lentamente no manto terrestre, transportando material denso para o interior do planeta.
O segundo processo foi a possível ascensão de uma pluma de material quente do manto profundo, que se eleva a partir da região próxima ao limite entre o núcleo e o manto. A interação entre essas duas forças — placas frias afundando e material quente subindo — teria criado uma área de densidade reduzida sob o continente, intensificando a anomalia gravitacional.
A ligação entre o buraco gravitacional e o congelamento da Antártida
Um dos aspectos mais intrigantes do estudo é a possível conexão entre essa anomalia gravitacional e a formação da enorme camada de gelo da Antártida. A Antártida nem sempre foi um continente congelado. Durante grande parte da história geológica da Terra, o continente possuía clima mais quente e vegetação abundante.

A transição para um ambiente permanentemente congelado começou aproximadamente há 34 a 40 milhões de anos, durante o final do período Eoceno. Foi nesse momento que as primeiras grandes camadas de gelo começaram a se formar sobre o continente. De acordo com o estudo, o aprofundamento da anomalia gravitacional pode ter contribuído para esse processo de maneira indireta.
Como a gravidade pode influenciar o nível do mar
A gravidade desempenha um papel importante na distribuição da água dos oceanos. Regiões com gravidade ligeiramente maior tendem a atrair mais água, enquanto regiões com gravidade um pouco menor podem apresentar níveis do mar relativamente mais baixos. No caso da Antártida, a presença da anomalia gravitacional pode ter provocado um recuo do oceano ao redor do continente, reduzindo o nível do mar local.
Esse fenômeno teria exposto mais áreas do continente ao ar frio e ajudado a estabilizar o crescimento inicial das geleiras. Com o passar do tempo, o gelo acumulado tornou-se espesso o suficiente para formar a enorme calota polar antártica, que hoje contém cerca de 70% de toda a água doce do planeta.
A Antártida como o maior reservatório de água doce da Terra
Atualmente, a Antártida abriga a maior massa de gelo do planeta. A calota polar do continente possui aproximadamente 26 milhões de quilômetros cúbicos de gelo, tornando-se o maior reservatório de água doce da Terra.
Se todo esse gelo derretesse, o nível médio global dos oceanos poderia subir mais de 50 metros. A origem dessa enorme quantidade de gelo é um dos grandes temas da climatologia e da geologia moderna. O estudo sobre a anomalia gravitacional sugere que processos profundos do interior da Terra podem ter desempenhado um papel indireto na formação desse gigantesco reservatório natural.

O que essa descoberta revela sobre o interior da Terra
A investigação da anomalia gravitacional antártica também ajuda os cientistas a compreender melhor a dinâmica do interior do planeta. O manto terrestre está em constante movimento, com material quente subindo e material frio afundando ao longo de milhões de anos. Esse processo, conhecido como convecção do manto, influencia a formação de montanhas, vulcões e placas tectônicas.
Anomalias gravitacionais como a observada sob a Antártida funcionam como pistas sobre esses movimentos profundos. Ao estudar essas variações, os geofísicos conseguem reconstruir eventos que ocorreram dezenas de milhões de anos atrás.
O campo gravitacional da Terra ainda guarda muitos mistérios
Embora a ciência tenha avançado muito no mapeamento da gravidade terrestre, muitas perguntas ainda permanecem sem resposta. O campo gravitacional do planeta é influenciado por fatores complexos, incluindo:
- estrutura do manto
- composição da crosta
- movimentos tectônicos
- redistribuição de massas na superfície
Satélites modernos continuam a monitorar essas variações com precisão cada vez maior. Essas medições não apenas ajudam a compreender o interior da Terra, mas também permitem acompanhar mudanças no nível do mar, no derretimento de geleiras e até na redistribuição de água subterrânea.

Uma janela para a história profunda do planeta
A descoberta e o estudo do maior “buraco gravitacional” do planeta mostram como fenômenos invisíveis podem ter impactos gigantescos na história da Terra. Processos que ocorrem a quase 3.000 quilômetros de profundidade, na fronteira entre o manto e o núcleo, podem influenciar a formação de continentes, oceanos e até o clima global.
No caso da Antártida, o estudo sugere que a interação entre placas tectônicas e estruturas profundas do manto pode ter ajudado a criar as condições necessárias para o surgimento do maior manto de gelo da Terra. Essa hipótese reforça a ideia de que o planeta funciona como um sistema interligado, onde processos que acontecem no interior profundo podem moldar a superfície ao longo de milhões de anos.
E, à medida que novas tecnologias de observação são desenvolvidas, cientistas continuam descobrindo que mesmo as regiões aparentemente mais estáveis da Terra — como o gelo eterno da Antártida — escondem histórias complexas que começaram muito antes da humanidade existir.

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