Eles vivem sem eletricidade, carros, internet ou bancos por escolha própria. Amish, Menonitas e Hutteritas mantêm escolas, fazendas e economia própria no século XXI desafiando a vida moderna.
Em 2026, a humanidade se encontra hiperconectada, dependente de smartphones, redes elétricas, satélites, inteligência artificial e plataformas digitais para tarefas básicas como estudar, trabalhar, comprar ou comunicar-se. Nesse contexto, pode parecer impossível imaginar comunidades inteiras vivendo sem eletricidade, sem carros, sem internet, sem televisão e sem celulares, não por pobreza, mas por decisão religiosa, cultural e filosófica.
Esse é o caso dos Amish, Menonitas e Hutteritas, grupos cristãos de origem anabatista que, desde o século XVI, mantêm um modo de vida baseado na simplicidade, no trabalho manual, na vida rural, na presença familiar e na autossuficiência comunitária. Eles não se desconectaram do mundo — nunca se conectaram da forma que conhecemos.
Hoje, enquanto grandes cidades competem por energia renovável, expansão do 5G, hidrogênio verde e chips de IA, essas comunidades operam uma forma de sociedade paralela, funcional, estável, com economia própria e sem dependência do Estado, o que chama atenção de antropólogos, sociólogos, economistas e especialistas em resiliência cultural.
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Origens históricas: uma ruptura com a modernidade antes da modernidade
Os Amish, Menonitas e Hutteritas surgiram no contexto da Reforma Protestante, na Europa Central. Perseguidos por não aceitarem o batismo infantil e insistirem em comunidades independentes e igualitárias, muitos migraram entre os séculos XVII e XIX para a América do Norte, onde encontraram territórios rurais ideais para viver seu modo de vida.
Amish
- Surgiram no século XVII, na Suíça, sob liderança de Jakob Amman.
- Migraram majoritariamente para os EUA no século XVIII.
- Hoje estão concentrados em Pensilvânia, Ohio, Indiana, com população em rápido crescimento devido à alta taxa de natalidade.
Menonitas
- Derivam dos seguidores de Menno Simons (século XVI).
- São o grupo mais diverso internamente: vão de comunidades ultratradicionais a grupos moderados que usam eletricidade.
Hutteritas
- Fundados por Jakob Hutter no século XVI.
- Diferenciam-se pela vida comunal coletiva: trabalho, renda e propriedade são compartilhados.
Esses três grupos herdaram uma visão de mundo que não mede progresso pela tecnologia, e sim pela coesão social, pela disciplina religiosa e pela autonomia agrícola.
Por que eles rejeitam eletricidade, carros e internet?
A rejeição não é irracional e nem anti-científica. Para essas comunidades, tecnologia não é neutra: ela altera comportamentos, cria dependência e pode gerar desigualdade interna. A pergunta deles nunca foi “isso facilita a vida?”, mas “isso destrói a comunidade?”.
Por exemplo:
- Eletricidade conectada à rede pública pode trazer televisão, internet, celulares e entretenimento individual — o que, para eles, enfraquece a vida comunitária.
- Carros particulares permitem que jovens se afastem das comunidades, gerando dispersão familiar.
- Internet abre as portas para individualismo, consumismo e cultura externa, que entra em choque com valores religiosos e sociais do grupo.
Além disso, essas comunidades valorizam trabalho manual, autossuficiência, economia circular, proximidade familiar e vida espiritual, o que contrasta diretamente com o ritmo urbano baseado em produtividade, velocidade e consumo.
Vida sem eletricidade: como é o cotidiano de uma sociedade que rejeita o circuito elétrico

É comum imaginar que viver sem eletricidade significa miséria, mas no caso dos Amish e de parte dos Menonitas e Hutteritas ocorre o contrário: a vida sem energia moderna exige organização social, autossuficiência e engenhosidade tecnológica.
Fontes de luz
- Lampião a querosene
- Velas
- Luminárias de gás
- Janelas estrategicamente posicionadas
Refrigeração
- Gelo natural
- Casas subterrâneas
- Refrigeração por amônia (alguns grupos permitem)
Cozinha
- Fogões a lenha
- Fornos de tijolo
- Fogões a gás propelido
Comunicação
- Sem celular, sem internet, sem televisão
- Uso de cartas, mensageiros ou visita presencial
Transporte
- Carroça e cavalo para os Amish
- Bicicletas em algumas comunidades Menonitas
- Tratores sem pneus de borracha para evitar mecanização “excessiva”
Educação
O ensino é comunitário, presencial e prático. Crianças aprendem:
- Aritmética
- Leitura e escrita
- Agricultura
- Marcenaria
- Costura
- Gestão do lar
Ao contrário das escolas modernas, não há computadores, telas ou dispositivos.
Economia autossuficiente: como essas comunidades sobrevivem sem Estado e sem capitalismo de consumo
Existe um erro comum de imaginar que esses grupos vivem em “isolamento total”. Não é verdade. Eles interagem economicamente com o mundo, mas de forma estruturalmente limitada.
Amish
Têm forte economia agrícola, com produção de:
- Laticínios
- Cereais
- Hortaliças
- Carnes
- Artesanato
- Móveis
- Construção civil
Muitos Amish trabalham como carpinteiros e empreiteiros altamente qualificados. Eles aceitam dinheiro, mas raramente usam bancos.
Menonitas
Alguns grupos operam empresas, escolas e hospitais próprios. Outros vivem em colônias rurais e seguem rotinas mais rígidas.
Hutteritas
São conhecidos pela produção agrícola em larga escala graças ao modelo comunal. Eles operam com eficiência econômica alta, utilizando propriedade coletiva, divisão de trabalho e disciplinamento produtivo.
Tecnologia seletiva: eles não rejeitam tudu, mas avaliam tudo
Ao contrário do mito popular, essas comunidades não rejeitam tecnologia por completo. Elas possuem critérios rigorosos de adoção:
Fragiliza a comunidade?
Se enfraquece a vida coletiva, é recusada.
Cria desigualdade interna?
Se coloca um acima do outro, é rejeitada.
Substitui trabalho essencial?
Se elimina o valor do trabalho manual, é evitada.
Isso explica por que:
- Amish podem usar painéis solares para bombas de água, mas não internet.
- Hutteritas podem ter tratores modernos, mas não carros pessoais.
- Menonitas moderados podem ter eletricidade, mas sem televisão.
A tecnologia que salva vidas ou aumenta produtividade sem destruir coesão social é admitida.
Em pleno século XXI, essas comunidades sobrevivem por um motivo simples: funcionam
Em meio à era digital, esses grupos não desapareceram, cresceram. Há três razões centrais:
Taxa de natalidade alta
Famílias Amish costumam ter entre 5 e 8 filhos.
Baixa evasão cultural
Entre 80% e 90% dos jovens decidem ficar na comunidade após a fase de escolha (Rumspringa).
Baixa dependência externa
Eles produzem a maior parte do que consomem.
Enquanto sociedades urbanas enfrentam crises de saúde mental, solidão digital, endividamento e hiperconexão, esses grupos mostram indicadores inversos: forte coesão social, baixa criminalidade, baixa ansiedade tecnológica, autonomia econômica e forte senso de pertencimento.
O que essas comunidades revelam sobre o mundo moderno
Quando observados de fora, Amish, Menonitas e Hutteritas podem parecer “atrasados”. Mas, quando analisamos pela lente de resiliência cultural, autossuficiência e saúde comunitária, uma pergunta surge:
Quem está adaptado a quê?
Enquanto sociedades modernas dependem de:
- Redes elétricas
- Internet
- Bancos
- Supermercados
- Transporte motorizado
- Tecnologia médica
- Consumo digital
Esses grupos dependem de:
- Família
- Comunidade
- Trabalho físico
- Terra
- Habilidade manual
- Fé
- Autonomia alimentar
Eles não representam o passado, representam um outro futuro possível, necessariamente minoritário, mas funcional.


Hutterites have electricity, vehicles, cellphones and most use the internet. The same it true for most Mennonites.