A NASA publicou nesta terça-feira (6) o panorama do amanhecer em Marte feito pela Mastcam do Curiosity às 8h30 do horário local. O tom azul aparece no chão, não no céu, e tem explicação técnica: a foto saiu sem o ajuste de cor de costume.
A NASA divulgou nesta terça-feira (6) um panorama do amanhecer em Marte feito pelo rover Curiosity no Monte Sharp. A cena foi registrada em 11 de agosto de 2026, às 8h30 do horário local marciano. Ela mostra a luz da manhã batendo em penhascos esculpidos pelo vento, com o chão em primeiro plano tingido de azul.
No comunicado oficial da NASA, a agência diz que é a visão mais detalhada já obtida desses penhascos distantes, chamados yardangs. A imagem saiu da Mastcam, a câmera instalada no mastro do rover, e junta seis fotos costuradas depois de chegarem à Terra.
O que a foto do amanhecer em Marte mostra
O panorama foi feito no 4.982º dia marciano (sol) da missão. Em primeiro plano há um terreno escuro, com areia ondulada e pedras soltas. Ao fundo, os yardangs aparecem claros, quase brancos, recortados contra um céu cor de creme.
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O Estadão destacou que a NASA também publicou a foto no perfil da agência na rede X. Lá, o texto fala em “amanhecer rompendo sobre yardangs distantes”, formações de terra irregulares esculpidas pelo vento.
O arquivo completo do panorama, baixado do site da NASA, tem 6.737 pixels de largura por 1.258 de altura. É uma faixa mais de cinco vezes mais larga do que alta, e por isso a agência também soltou um recorte ampliado só na região dos penhascos.
Por que o amanhecer em Marte aparece azulado na foto?
A resposta curta está no processamento. A NASA conta que a maior parte das imagens da Mastcam passa por balanço de branco, um ajuste que corrige as cores para parecerem como seriam vistas sob a luz da Terra. Esta foi tratada sem esse ajuste, de propósito, para preservar a aparência do começo da manhã.
Sem a correção, a luz fraca e baixa do início do dia deixa o chão frio e azulado. Os penhascos ao longe, que já recebem sol direto, ficam claros. O azul desta foto do amanhecer em Marte, portanto, mora no solo e nas sombras, e não no céu, que aparece pálido.
O céu marciano também fica azul, mas em outra situação. A prova veio numa imagem de pôr do sol feita pelo próprio Curiosity em 15 de abril de 2015. Na ocasião, a NASA explicou que a poeira fina da atmosfera deixa a luz azul atravessar o ar com mais facilidade que o amarelo e o vermelho.
Por causa disso, o azul fica concentrado na parte do céu perto do Sol, enquanto as outras cores se espalham. O efeito é mais forte com o Sol baixo, quando a luz percorre um caminho mais longo pela atmosfera. Na Terra acontece o contrário: o céu do dia é azul e o pôr do sol puxa para o laranja.
Tem um detalhe curioso nessa história. A NASA informa que a Mastcam enxerga cores de forma muito parecida com o olho humano, mas é um pouco menos sensível ao azul do que nós. Ou seja, o tom que aparece na foto não foi exagerado pela câmera.
A Mastcam, a câmera de 2 megapixels que fez o panorama
A Mastcam são, na verdade, duas câmeras lado a lado no alto do mastro do Curiosity. Elas ficam a cerca de 2 metros do chão, mais ou menos a altura dos olhos de uma pessoa. A ficha técnica da NASA aponta 25 centímetros entre elas, como um par de olhos.
Cada uma tem uma lente diferente. O “olho” esquerdo usa lente de cerca de 34 mm, mais aberta. O direito tem lente de cerca de 100 mm, uma teleobjetiva que distingue detalhes de 7,4 centímetros a 1 quilômetro de distância.
O sensor é de 2 megapixels, com fotos de cerca de 1.600 por 1.200 pixels, qualidade de cor que a NASA compara à de uma câmera digital de consumo. Um celular básico de hoje tem mais resolução que isso. A diferença está na montagem em mosaico: a Mastcam faz várias fotos e os cientistas costuram tudo aqui na Terra, como neste panorama do amanhecer em Marte.
A câmera também grava vídeo em alta definição e guarda os arquivos em uma memória de 8 gigabytes. Quem construiu e opera a Mastcam é a Malin Space Science Systems (MSSS), empresa de San Diego, na Califórnia. Por isso ela assina o crédito da foto junto com a NASA e o JPL.
Quanto custou a missão do rover Curiosity?
O projeto Mars Science Laboratory, nome oficial da missão do Curiosity, custou US$ 2,53 bilhões. O número vem do levantamento de orçamento da Planetary Society compilado por Casey Dreier, chefe de política espacial da entidade americana. Desse total, US$ 2,42 bilhões foram para desenvolver e lançar a sonda, e US$ 116 milhões pagaram as 98 semanas da missão principal.
Dividindo 2,42 por 2,53, a construção e o lançamento ficaram com cerca de 96% do dinheiro. A operação em Marte, que já dura 14 anos, é a parte barata da conta.
Desde 2014, quando começou a fase estendida, o rover custa em média US$ 62,5 milhões por ano para operar. O valor, corrigido pela inflação, está na mesma base da Planetary Society. Cada ano a mais de Curiosity em Marte equivale a cerca de 2,5% do custo original (62,5 milhões divididos por 2,53 bilhões).
O Curiosity foi construído pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, administrado pelo Caltech em Pasadena, na Califórnia. O mesmo laboratório comanda a missão no dia a dia, de Pasadena, e foi de lá que saiu o comunicado sobre a foto.
Os yardangs, a camada que parece colada no Monte Sharp
Os penhascos da foto formam a chamada camada de yardangs, que se estende por cerca de 16 quilômetros na encosta noroeste do Monte Sharp. A montanha tem 5 quilômetros de altura e fica dentro da Cratera Gale, perto da linha do equador marciano.

“A camada de yardangs parece fora do lugar. Tem a cor errada, as camadas estão inclinadas num ângulo estranho e quase parece que foi colada ali”, disse Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity no JPL. Para ele, é justamente isso que torna o destino empolgante.
Vasavada admite que ninguém sabe ao certo o que formou essa camada. Uma das hipóteses é que ela seja feita de cinzas de antigas erupções vulcânicas.
O Monte Sharp é feito de camadas empilhadas, e cada uma guarda um período da história de Marte. Estudando essas camadas, os cientistas reconstruíram lagos e rios que cobriram a região há bilhões de anos. A água secou e deixou minerais salgados. Depois que o material parou de se acumular na montanha, o vento pode ter arrancado parte dele e esculpido os yardangs.
O recorde de 1 km de subida antes da foto
O Curiosity pousou na Cratera Gale em 2012 e sobe o Monte Sharp desde 2014. Em 26 de agosto de 2026, quinze dias depois de fotografar o amanhecer em Marte, veio outro marco. O rover chegou a 1 quilômetro de ganho de altitude, a maior subida já feita por um veículo no planeta, segundo a NASA.

Para anunciar o feito, a NASA publicou um panorama de 323 fotos da Mastcam. Nele, a agência avisou que ajustou as cores para imitar o que o olho humano veria sob a luz da Terra. Junto com o comunicado do amanhecer, saiu ainda uma vista de 5 de setembro olhando de volta para o fundo da cratera, com as marcas das rodas na areia.
Comparar as imagens ajuda a entender o peso do balanço de branco. Na vista de setembro, o chão aparece ocre e alaranjado, o Marte avermelhado que o público conhece. No panorama do amanhecer, sem ajuste, o terreno sai cinza e azulado.
Quando o Curiosity chega aos penhascos
O rover está no segundo ano da sua quinta missão estendida, que começou com a exploração de cristas em forma de teia de aranha. No próximo ano, mais ou menos, ele vai rodar por camadas ricas em sulfatos e carbonatos, dois sinais de que a superfície de Marte secou no passado.
A NASA espera alcançar a base dos yardangs em algum momento de 2027. Lá, o Curiosity vai usar o braço robótico para coletar dados inéditos sobre a camada. Hoje ela só aparece de longe, no horizonte, como nesta foto do amanhecer em Marte.
Até lá, a Mastcam deve mandar imagens cada vez mais próximas dos penhascos, e a equipe da missão conta com elas para descobrir como eles se formaram. Você acha que vale a pena manter um rover de US$ 2,5 bilhões funcionando por mais de 14 anos em Marte? Conte nos comentários o que gostaria de ver o Curiosity fotografar quando chegar aos yardangs.
