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Malásia criou um túnel que vira estrada em dia normal e esgoto gigante de enchente quando a chuva ameaça Kuala Lumpur

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/06/2026 às 13:30
Atualizado em 15/06/2026 às 13:34
Assista o vídeoO túnel SMART de Kuala Lumpur tem 9,7 km e funciona como rodovia ou canal de drenagem gigante dependendo da chuva. Desde 2007, evitou enchentes em quase 600 eventos.
O túnel SMART de Kuala Lumpur tem 9,7 km e funciona como rodovia ou canal de drenagem gigante dependendo da chuva. Desde 2007, evitou enchentes em quase 600 eventos.
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O túnel SMART tem 9,7 quilômetros de extensão sob Kuala Lumpur e opera em quatro modos distintos dependendo da intensidade da chuva. Em dia comum, carros circulam por dentro dele. Quando a tempestade chega e o rio Klang ultrapassa certos limites, os veículos saem, as comportas abrem e a estrutura inteira vira um escoamento de emergência para a capital malaia.

Kuala Lumpur tem um problema antigo com chuva. A capital da Malásia fica numa bacia rodeada de morros, e quando as tempestades tropicais chegam com força, o centro da cidade enche rapidamente. A solução que o governo malaio encontrou não foi simplesmente construir um canal de drenagem. Foi construir um túnel que faz duas coisas ao mesmo tempo: em condições normais, serve de rodovia para quem entra e sai da cidade; quando a chuva forte ameaça provocar enchente, os carros são retirados, as comportas se abrem e o túnel inteiro vira um escoamento de emergência capaz de desviar volumes gigantescos de água em questão de horas.

Batizado de SMART, sigla em inglês para Stormwater Management and Road Tunnel, o projeto tem 9,7 quilômetros de extensão total, sendo 3 quilômetros numa seção de dupla função que combina rodovia e sistema de drenagem numa mesma estrutura. A capacidade total do sistema é de 3 milhões de metros cúbicos de armazenamento de água, distribuídos entre o túnel, reservatórios e estruturas de desvio conectadas ao rio Klang. Desde que entrou em operação em julho de 2007, o SMART evitou inundações repentinas no centro de Kuala Lumpur em quase 600 eventos de chuva, incluindo nove tempestades de grande intensidade, conforme registram as informações do próprio sistema.

O problema que levou ao túnel

O túnel SMART de Kuala Lumpur tem 9,7 km e funciona como rodovia ou canal de drenagem gigante dependendo da chuva. Desde 2007, evitou enchentes em quase 600 eventos.
Kuala Lumpur cresce desde os anos 1970 em velocidade que a infraestrutura hídrica da cidade não acompanhou.

A impermeabilização do solo urbano, causada pela expansão de asfalto, concreto e construções, reduziu a capacidade de absorção de chuva pelo terreno. Água que antes infiltrava nos morros passou a correr diretamente para os rios, acelerando o tempo em que os canais naturais atingem capacidade máxima.

O resultado foram enchentes recorrentes no centro da capital, especialmente nas regiões próximas ao rio Klang e ao rio Ampang.

As soluções convencionais, como alargar rios ou construir canais de concreto a céu aberto, esbarravam num problema óbvio: a cidade já estava construída em cima de tudo isso.

Não havia espaço para obras de superfície na escala necessária sem demolir bairros inteiros ou desapropriar áreas densamente ocupadas. Ir para baixo da terra era a única saída viável. 

O túnel subterrâneo permitiu criar um corredor de drenagem onde a cidade já estava, sem interferir no tecido urbano existente.

Como o túnel foi construído e o que ele tem dentro

O túnel SMART de Kuala Lumpur tem 9,7 km e funciona como rodovia ou canal de drenagem gigante dependendo da chuva. Desde 2007, evitou enchentes em quase 600 eventos.
A construção do SMART começou em janeiro de 2003 e foi concluída em 54 meses, uma obra que perfurou dezenas de metros abaixo do centro de Kuala Lumpur.

A seção de dupla função, os 3 quilômetros onde rodovia e sistema hídrico convivem na mesma estrutura, é a parte mais engenhosa do projeto. Ela tem dois níveis: o nível inferior é um canal permanente de drenagem, que pode ser ativado mesmo com os carros circulando no nível superior.

O nível superior é a pista de rodagem, que só é fechada quando a situação das chuvas exige o uso total da estrutura.

O sistema completo inclui uma estrutura de desvio que capta a água dos rios, um reservatório de entrada chamado Berembang, o túnel propriamente dito e um reservatório de recepção em Taman Desa, de onde a água é devolvida ao curso natural pelo rio Kerayong antes de seguir para o rio Klang.

Tudo isso está ligado a um sistema de monitoramento em tempo real que mede precipitação, vazão dos rios e nível dos reservatórios continuamente. 

São esses dados que alimentam o modelo hidrológico e determinam qual dos quatro modos de operação deve ser ativado.

Os quatro modos de operação: do asfalto ao esgoto

O funcionamento do SMART é definido por quatro estados distintos, ativados de forma progressiva conforme a chuva aumenta.

No Modo 1, que é o estado normal de operação, o rio Klang corre sem ultrapassar os limites de segurança e o túnel está completamente seco.

Os carros circulam normalmente pela rodovia, e nada indica para quem passa por ali que aquela estrada é também um canal de drenagem de emergência.

Quando a vazão do rio ultrapassa 70 metros cúbicos por segundo, o Modo 2 é ativado. A seção inferior do túnel, o canal de drenagem permanente no nível de baixo, começa a receber água da enchente.

Os carros continuam circulando no nível superior, sem perceber o que acontece embaixo de seus pneus.

Se a chuva piora e a vazão chega a 150 metros cúbicos por segundo, o Modo 3 entra em cena: o tráfego é encerrado, os veículos são retirados da rodovia e o túnel fica em standby para a fase mais crítica. 

O Modo 4 é ativado quando a tempestade persiste e exige capacidade máxima: o túnel inteiro, pista incluída, vira canal de escoamento. Nenhum carro. Só água.

A lógica por trás da decisão de fechar a estrada

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Transformar uma rodovia em escoamento de enchente exige um protocolo rígido de segurança. Não é possível simplesmente abrir comportas com veículos ainda dentro do túnel.

O sistema de detecção e monitoramento existe justamente para dar tempo suficiente de evacuar a via antes que a água entre.

As leituras em tempo real de pluviômetros, sensores de nível e medidores de vazão permitem prever com antecedência quando a situação vai exigir os Modos 3 ou 4, dando margem para fechar os acessos e retirar os usuários da rodovia com segurança.

A transição entre modos não é instantânea. Há um processo de avaliação e decisão que envolve coleta de dados, transmissão para o centro de controle, processamento pelo modelo hidrológico e análise antes de qualquer ativação. 

Esse intervalo entre a previsão e a ação é o coração operacional do sistema. Se ele falhar, a consequência não é apenas uma enchente: é uma enchente com carros dentro do túnel.

A engenharia de controle e monitoramento é tão crítica quanto o concreto e o aço da estrutura física.

Quase 600 eventos de chuva e nove tempestades grandes

Desde julho de 2007, quando entrou em operação, o SMART acumulou um histórico que justifica o investimento.

Quase 600 eventos de chuva foram gerenciados pelo sistema sem que o centro de Kuala Lumpur fosse inundado, incluindo nove tempestades classificadas como de grande intensidade.

São eventos que, antes da existência do túnel, teriam causado os mesmos danos que se repetiam com frequência nos anos anteriores: alagamentos de ruas, interrupção de tráfego, prejuízos comerciais e risco à população.

O impacto econômico das enchentes que não aconteceram é difícil de calcular com precisão, mas é real.

Cidades como Kuala Lumpur, com economia de serviços e comércio concentrada no centro urbano, sofrem perdas significativas a cada evento de alagamento: lojas fechadas, veículos danificados, custos de limpeza e reparos. 

Um túnel que evita 600 enchentes em dezessete anos é uma obra que se paga de formas que não aparecem em nenhum balanço contábil.

O que outras cidades podem aprender com isso

O modelo SMART não é simplesmente uma solução de drenagem.

É uma resposta de engenharia para um problema que quase todas as grandes cidades tropicais enfrentam: crescimento urbano acelerado sobre terrenos com histórico de cheias, sem espaço em superfície para infraestrutura hídrica convencional. Bangkok, Jacarta, Mumbai, São Paulo e dezenas de outras cidades convivem com variações do mesmo problema que Kuala Lumpur resolveu ao ir para baixo da terra.

A principal lição do SMART não é tecnológica. É de planejamento.

A obra começou em 2003, a cidade já tinha o problema há décadas, e a solução exigiu decisão política para perfurar o subsolo de uma capital populosa e cara.

Outros países estudaram o modelo malaio, mas poucos chegaram à execução. Construir um túnel que vira estrada e esgoto ao mesmo tempo é mais simples de descrever do que de aprovar, financiar e executar no mundo real. 

O SMART existe porque alguém em Kuala Lumpur decidiu que o problema era grande o suficiente para exigir uma resposta à altura.

Usar um túnel que alterna entre rodovia e canal de drenagem é um modelo que cidades brasileiras como São Paulo ou Recife deveriam estudar com mais seriedade? Ou os desafios de financiamento e planejamento urbano tornam esse tipo de obra inviável na prática? Deixe sua opinião nos comentários.

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