Aos 96 anos, servidor aposentado realiza sonho iniciado em 1970 ao receber a carteirinha da OAB no aniversário e se tornar um dos advogados mais idosos do Brasil.
Em 4 de março de 2021, uma cerimônia simples e inesperadamente emocionante realizada em Brasília ganhou espaço na imprensa nacional e nas redes sociais. Naquela manhã, Francisco de Jesus Penha, servidor público aposentado, completava 96 anos. Em vez de uma comemoração tradicional, recebeu um presente simbólico que marcou uma das mais raras histórias do universo jurídico brasileiro: sua carteirinha da OAB, entregue pela própria Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal. O caso foi amplamente divulgado pelo portal Metrópoles, que destacou não apenas a idade avançada de Francisco, mas o fato de ele ter iniciado sua formação em direito em 1970, mais de cinco décadas antes da emissão do registro profissional.
A OAB-DF confirmou que Francisco se tornou um dos advogados mais idosos já registrados pela seccional. O presidente da entidade na época, Délio Lins e Silva Júnior, fez pessoalmente a entrega do documento, reforçando o simbolismo da ocasião. Segundo ele, nunca havia entregue a carteirinha a alguém com idade tão avançada, descrevendo o ato como um momento singular na história da instituição.
Uma jornada iniciada há mais de meio século
A trajetória de Francisco de Jesus Penha contraria toda a lógica convencional sobre tempo, carreira e envelhecimento. Nascido em uma época em que estudos superiores eram privilégio raro, ele ingressou no curso de Direito ainda jovem. No entanto, a vida profissional o conduziu por outros caminhos. Mudou-se para Brasília no fim da década de 1960, onde atuou em órgãos federais e chegou a trabalhar no Banco do Brasil, construindo uma carreira sólida no serviço público.
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Embora formado em direito desde 1970, nunca havia formalizado sua atuação como advogado. As demandas profissionais e familiares ocuparam-no durante décadas. Ao longo da vida, o diploma permanecia guardado como um sonho antigo, daqueles que o tempo adia, mas não apaga. Com o avanço da idade, a família acreditava que aquele capítulo jamais seria concluído. Mas Francisco, mesmo aos 90 e poucos anos, jamais deixou de lembrar que possuía um título que ainda não tinha se transformado em registro.
O pedido da afilhada que mudou tudo
O momento decisivo dessa história não nasceu de uma iniciativa burocrática, mas de um gesto familiar. A afilhada de Francisco, que também é advogada, fez um pedido diretamente à OAB-DF: que a entrega do registro profissional fosse realizada no dia do aniversário de 96 anos dele, como forma de reconhecimento pela vida inteira dedicada ao estudo e ao serviço público. A instituição acolheu o pedido.
A entrega foi feita na casa do próprio Francisco, respeitando sua idade e limitações. Segundo matéria do Metrópoles, a emoção tomou conta da família e dos representantes da Ordem. O presidente da OAB-DF destacou que muitos jovens bacharéis desistem de obter o registro por medo, insegurança ou falta de disciplina, enquanto um homem de quase um século de vida seguia determinado a completar sua trajetória acadêmica.
Um novo advogado em plena nona década de vida
O impacto da história vai além da curiosidade. O ato reacende discussões sobre envelhecimento ativo, capacidade intelectual, longevidade produtiva e a importância da educação contínua ao longo da vida. Especialistas afirmam que o cérebro humano mantém sua plasticidade até idades muito avançadas, e que atividades intelectuais — como estudo, leitura e prática jurídica — podem retardar declínio cognitivo, melhorar a memória e proteger contra doenças neurológicas.
Aos 96 anos, receber a carteirinha da OAB não era apenas um ato formal; era a concretização de um ciclo pessoal interrompido por décadas. Francisco entrou para um grupo extremamente raro de profissionais que obtêm registro jurídico em idade tão avançada. O Brasil possui casos documentados de estudantes universitários com mais de 80 e 90 anos, mas registros profissionais ativos nessa faixa etária continuam sendo exceções que merecem registro histórico.
O simbolismo para o debate sobre envelhecimento e trabalho
No Brasil, o debate sobre o limite de idade para atividades profissionais volta e meia ressurge, especialmente nas áreas que exigem esforço intelectual intenso. A conquista de Francisco desmonta a narrativa de que envelhecimento significa perda automática de capacidade produtiva. Pelo contrário, seu caso mostra que longevidade pode se combinar com propósito, lucidez e determinação.
O episódio também toca em uma questão sensível: como a sociedade encara o envelhecimento. Muitas vezes, idosos são subestimados, tratados como incapazes de aprender, trabalhar ou se reinventar. A história de Francisco confronta essa visão e evidencia o potencial de uma geração que cresce em número e busca novos caminhos mesmo após a aposentadoria. Ao receber a carteirinha, ele não apenas realizou um sonho individual — representou milhares de brasileiros que ainda se sentem ativos, capazes e cheios de propósito, mesmo acima dos 70, 80 ou 90 anos.
Reações e impacto emocional da história
A repercussão nacional da entrega do documento se deve ao caráter humano da cena. A imagem de um homem centenário, lúcido, emocionado e orgulhoso ao segurar o registro profissional rompe qualquer barreira geracional. A reportagem do Metrópoles destacou o brilho nos olhos do novo advogado, que ergueu a carteirinha com a mesma energia de um recém-formado de 25 anos.
A história também gerou forte engajamento entre professores de cursos preparatórios, estudantes de direito e advogados jovens, que viram no caso um lembrete poderoso: nunca é tarde para concluir um ciclo, corrigir uma pausa, retomar um sonho ou fazer algo por si mesmo.
A jornada de Francisco de Jesus Penha é muito mais do que uma curiosidade. Ela é um sinal claro de que a determinação humana não envelhece, mesmo quando o corpo chega perto dos 100 anos. O sonho iniciado em 1970 só foi concretizado em 2021, mais de 50 anos depois, e se transformou em um dos episódios mais marcantes do mundo jurídico brasileiro.
E você, leitor: acredita que a sociedade deveria estimular mais histórias como a de Francisco, valorizando idosos que desejam estudar, trabalhar e realizar projetos que ficaram pelo caminho?

Acredito totalmente que nunca é tarde para se iniciar ou dar continuidade aos projetos que deixamos pelo caminho. Me aposentei em 2012 como professora da Educação básica. Em 2017, com 55 anos de idade, voltei para a faculdade, me formei em Direito aos 60 anos de idade. Em 2023 fui aprovada na prova da OAB/MG. Indescritível a emoção que senti na cerimônia de entrega da carteira!
C certeza. Eu estou c 60 anos e estou no 4 semestre de Direito.
A pergunta que fica: será que ele irá exercer a profissão?