1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Adeus aos últimos pandas do Japão: Lei Lei e Xiao Xiao deixam hoje Tóquio rumo à China, encerram 50 anos no país e expõem tensão crescente entre Pequim e Tóquio
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Adeus aos últimos pandas do Japão: Lei Lei e Xiao Xiao deixam hoje Tóquio rumo à China, encerram 50 anos no país e expõem tensão crescente entre Pequim e Tóquio

Escrito por Carla Teles
Publicado em 27/01/2026 às 18:45
Atualizado em 27/01/2026 às 18:55
Assista o vídeoAdeus aos últimos pandas do Japão Lei Lei e Xiao Xiao deixam hoje Tóquio rumo à China, encerram 50 anos no país e expõem tensão crescente entre Pequim e Tóquio (2)
No adeus aos últimos pandas do Japão, Lei Lei e Xiao Xiao deixam o zoológico de Ueno, expõem a diplomacia dos pandas e as relações bilaterais.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
5 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Lei Lei e Xiao Xiao, os últimos pandas do Japão, deixam o zoológico de Ueno e encerram um capítulo de 50 anos de “diplomacia dos pandas”, justamente quando crescem as desconfianças entre Pequim e Tóquio.

Nos portões do zoológico de Tóquio, fãs emocionados, relações bilaterais desgastadas e um caminhão sem janelas resumem o momento em que o Japão se vê, pela primeira vez em meio século, sem nenhum panda gigante em seu território. A saída dos animais é ao mesmo tempo um ato de rotina do programa chinês e um símbolo poderoso das mudanças na relação entre os dois vizinhos asiáticos.

Uma despedida que parece perda na família

Na manhã da partida, centenas de pessoas se reuniram no zoológico de Ueno para ver pela última vez os últimos pandas do Japão.

Muitos vestiam jaquetas estampadas, chapéus, broches e carregavam pelúcias, transformando a calçada em uma espécie de vigília silenciosa e carinhosa.

Lei Lei e Xiao Xiao, gêmeos de quatro anos, nasceram no próprio zoológico de Ueno, em Tóquio, e conquistaram rapidamente o público japonês. Para muitos frequentadores, eles deixaram de ser simples animais e viraram quase membros da família.

“Venho vê-los desde que nasceram”, contou Nene Hashino, na casa dos 40 anos, abraçada a um ursinho de pelúcia. “Parece que meus próprios filhos estão indo para um lugar muito distante. É triste.”

O zoológico organizou um esquema especial de despedida. No domingo anterior à viagem, 4.400 pessoas, escolhidas em uma loteria online, puderam ver os pandas pela última vez.

Dois dias depois, já no dia da partida, admiradores se espalharam pelas ruas ao redor, esperando por horas apenas para acenar, gritar seus nomes e registrar o momento em que o caminhão levava os últimos pandas do Japão rumo ao aeroporto.

“É tão triste”, desabafou o comerciante Daisaku Hirota, de 37 anos, que dizia visitar os animais sempre que podia em seus dias de folga. “Perdi uma parte do meu coração.”

Meio século de pandas e diplomacia entre China e Japão

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Os pandas gigantes de Pequim não são apenas animais carismáticos. Desde 1972, quando China e Japão normalizaram suas relações diplomáticas, eles viraram um símbolo visível de aproximação entre os dois países. Foi ali que nasceu o que ficou conhecido como “diplomacia dos pandas”.

Dentro desse programa, a China empresta pandas para zoológicos de países com os quais deseja estreitar laços. Em troca, recebe pagamento, cooperação científica e, principalmente, reforça sua imagem no exterior.

No caso japonês, a presença dos pandas sempre funcionou como um lembrete concreto de uma fase de maior diálogo e confiança entre Pequim e Tóquio.

Lei Lei e Xiao Xiao são filhos de Shin Shin, fêmea que chegou ao Japão em 2011. Ela própria já havia se tornado um ícone local antes de retornar à China em 2024, por problemas de saúde. A partir daí, o relógio começou a correr também para os gêmeos.

Embora o programa seja formalmente técnico e científico, o impacto emocional é enorme. Ao ver os últimos pandas do Japão voltarem para casa, muitos japoneses sentem que não é só o fim de um empréstimo, mas o encerramento de um ciclo de 50 anos de proximidade simbólica com a China.

Tensão política, Taiwan e o fim da “diplomacia dos pandas”

O anúncio do retorno de Lei Lei e Xiao Xiao foi feito em meio a um cenário diplomático mais tenso. A decisão veio logo após uma polêmica envolvendo a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que sugeriu a possibilidade de Tóquio intervir militarmente em caso de ataque a Taiwan.

Taiwan é vista por Pequim como parte de seu território, e qualquer comentário sobre intervenção estrangeira na ilha costuma provocar forte reação chinesa. A fala de Takaichi irritou o governo chinês e reacendeu desconfianças nas relações bilaterais.

Nesse contexto, o fim da presença dos últimos pandas do Japão acabou soando para parte da opinião pública como um gesto político, ainda que indireto.

Pelo acordo, o empréstimo dos animais se encerraria em fevereiro, e o governo metropolitano de Tóquio, responsável pelo zoológico de Ueno, confirma que a devolução respeita o calendário previsto.

Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, afirmou que os pandas “iniciaram hoje sua viagem de retorno” de acordo com o tratado entre os dois países, e reforçou que os japoneses são bem-vindos para visitar os pandas na China.

Ainda assim, o momento da partida alimenta interpretações políticas. Desde o fim do ano passado, Pequim vem desencorajando viagens de turistas chineses ao Japão, alegando piora na segurança pública e incidentes contra cidadãos chineses.

Ao mesmo tempo, há relatos de restrições chinesas à exportação de terras raras para o mercado japonês, insumos estratégicos para setores que vão de carros elétricos a mísseis.

A sociedade japonesa ainda quer pandas?

Enquanto o caminhão levava os últimos pandas do Japão, uma discussão paralela ganhava força: o país deveria ou não negociar o empréstimo de novos animais?

Segundo pesquisa do jornal Asahi Shimbun, cerca de 70% dos entrevistados não acham que o governo japonês deva negociar com a China o envio de novos pandas, enquanto 26% gostariam que isso acontecesse.

O dado revela um cenário dividido, em que o carinho popular pelos animais convive com desconfianças em relação à China.

Há relatos de que autoridades japonesas avaliam solicitar um novo casal no futuro, mas isso dependerá diretamente do clima político entre os dois países.

Para muitos analistas, a ausência dos últimos pandas do Japão funcionará como um termômetro das relações bilaterais nos próximos anos. Se a confiança voltar a crescer, os pandas também podem voltar.

Pandas, poder brando e dinheiro em jogo

Adeus aos últimos pandas do Japão: Lei Lei e Xiao Xiao deixam hoje Tóquio rumo à China, encerram 50 anos no país e expõem tensão crescente entre Pequim e Tóquio

Apesar de outros países também usarem animais como ferramentas diplomáticas, os pandas chineses ocupam um lugar único.

A Tailândia já enviou elefantes, a Austrália empresta coalas, mas nenhum desses símbolos tem o mesmo apelo global dos pandas gigantes.

De acordo com o professor Masaki Ienaga, da Universidade Cristã Feminina de Tóquio, especialista em relações internacionais do leste asiático, “os pandas são especiais”.

Eles atraem multidões aos zoológicos, movimentam turismo, licenciamento de produtos e até campanhas de marketing. Em outras palavras, são também uma poderosa máquina de geração de renda e de projeção de imagem para a China.

Isso ajuda a explicar por que a partida dos últimos pandas do Japão ganhou manchetes e emocionou tantas pessoas.

A ausência deles não é apenas um vazio nos recintos do zoológico, mas também um espaço simbólico deixado em branco nas relações entre Tóquio e Pequim.

Para o Japão, que hoje convive com uma China mais assertiva e com disputas em temas sensíveis como Taiwan e comércio, a volta dos pandas é um lembrete de que até os gestos mais fofos da diplomacia carregam implicações geopolíticas.

Quando um país perde seus últimos pandas, ele não perde só um animal carismático, mas também um canal afetivo de diálogo com quem os empresta.

No fim das contas, enquanto Lei Lei e Xiao Xiao se adaptam à nova vida na China, o Japão se adapta à ideia de não ter mais pandas em casa pela primeira vez em 50 anos.

E o mundo observa como essa ausência vai se refletir na próxima fase da relação entre os dois países.

E você, acha que o Japão deveria negociar a volta de novos pandas ou é hora de encarar a despedida dos últimos pandas do Japão como definitiva?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x