Da infância desenhando carros ao protagonismo na Willys-Overland, Volkswagen e Autolatina, a trajetória de Piancastelli revela criatividade, ousadia e influência duradoura no design automotivo brasileiro contemporâneo e histórico
O Volkswagen Brasília ocupa um lugar especial na memória coletiva brasileira. Presente em garagens, estradas e histórias de família, o modelo atravessou gerações. O que muitos motoristas nunca imaginaram é que parte essencial da sua identidade nasceu das mãos de um profissional pouco celebrado fora dos círculos especializados: Márcio Lima Piancastelli.
Nascido em Belo Horizonte em 7 de setembro de 1936, Piancastelli construiu sua carreira em um dos períodos mais transformadores da indústria automobilística nacional.
Entre as décadas de 1960 e 1990, participou de projetos decisivos e deixou marcas em empresas como Willys-Overland, Volkswagen e, posteriormente, Autolatina.
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Sua trajetória se desenrolou em um ambiente onde a criatividade local convivia com diretrizes rígidas vindas das matrizes estrangeiras.

Márcio Piancastelli: um talento que começou na infância
Desde muito cedo, Piancastelli demonstrava fascínio pelo desenho. Ainda criança, preferia rabiscar carros e paisagens imaginárias durante as aulas.
A família inicialmente enxergava a arquitetura como caminho natural, mas 1962 se tornaria o ponto de virada.
Sem avisar o pai, Márcio se inscreveu no Concurso Lúcio Meira de Desenho Automotivo, considerado o primeiro e mais relevante concurso de design automotivo realizado no Brasil.
Para participar, criou o projeto de um automóvel batizado de Itapuã. Produziu vistas técnicas detalhadas e, de maneira quase clandestina, construiu um modelo em madeira utilizando a marcenaria da empresa da família.
O envio do material para São Paulo ocorreu cercado de incertezas. Meses depois, a surpresa: jornalistas bateram à sua porta anunciando que o jovem havia conquistado o segundo lugar.
Entre os jurados estava Luigi Segre, então chefe do estúdio italiano Carrozzeria Ghia. Impressionado com o trabalho, Segre ofereceu a Piancastelli um estágio em Turim.
Em 1963, Márcio mudou-se para a Itália e passou cerca de um ano imerso no epicentro do design automotivo mundial, colaborando em propostas para Ford, Jaguar, Renault, Borgward e Lamborghini.

Retorno ao Brasil e consolidação profissional
Com a crise econômica que atingiu a Itália, Piancastelli retornou ao Brasil no fim de 1964. Logo ingressou na Willys-Overland, instalada em São Bernardo do Campo.
A montadora possuía um dos estúdios de design mais avançados do país, cenário ideal para o amadurecimento do designer.
Ali, Márcio ajudou a estruturar um dos primeiros estúdios de design automotivo brasileiros e participou da criação de veículos pensados especificamente para o mercado nacional.
Em 1967, recebeu convite para integrar a Volkswagen do Brasil. Apesar de liderar uma equipe criativa, a expectativa da direção era clara: adaptar projetos vindos da Alemanha, não criar do zero.
Ainda assim, Piancastelli e seu time encontraram formas discretas de inovar. Desenhos e conceitos eram desenvolvidos nos bastidores como estratégia para preservar certa autonomia criativa.
Segundo Alessandra Iha Piancastelli Lóss, filha do designer, em entrevista ao site Autoentusiastas, o pai costumava desenhar ouvindo música clássica.
O hábito, relatou ela, auxiliava na visualização de proporções, formas e combinações de cores, um método pessoal que acompanhou momentos importantes de sua carreira.

Brasília, SP2 e Gol: assinatura brasileira de Márcio Piancastelli
Mesmo sob limitações, Márcio Piancastelli participou de alguns dos projetos mais emblemáticos da Volkswagen no Brasil.
A Brasília nasceu para responder a críticas frequentes ao Fusca. A proposta era oferecer mais espaço e funcionalidade às famílias brasileiras, mantendo a base mecânica conhecida.
Piancastelli adotou linhas retas, ampla área envidraçada e sensação de espaço interno. Ao longo dos anos, o modelo se tornaria seu favorito. O designer teve seis ou sete unidades, reflexo do vínculo afetivo com o carro.
Outro capítulo marcante envolveu o SP2. Criado para provar que a Volkswagen brasileira podia produzir um esportivo de personalidade, o projeto teve desenvolvimento artesanal, sem clay.
Gesso, arames e modelos em escala deram forma ao veículo. Na fase final, a diretoria exigiu uma frente mais longa, acrescentando dez centímetros ao desenho.
Insatisfeito, Márcio e a equipe retornaram ao estúdio na noite anterior à apresentação e redesenharam a dianteira sem autorização formal. O modelo foi aprovado no dia seguinte.
Embora o conceito original do Gol tenha sido definido na Alemanha, a equipe brasileira, liderada por Piancastelli, teve papel fundamental na adaptação ao mercado local.
Também participou da criação de derivados como Parati, Voyage e Saveiro. Nos anos 1980, comandou o departamento de Color & Trim, sendo responsável por versões como Gol GT, GTS e GTI.
Ao longo da carreira, Márcio atuou ainda como elo entre alemães e americanos durante a Autolatina, colaborou em projetos compartilhados entre Volkswagen e Ford e manteve-se criativo mesmo após a aposentadoria.
Márcio Piancastelli morreu em junho de 2015, aos 78 anos. Seu legado, silencioso para muitos, permanece vivo nas ruas, nas lembranças e no design automotivo brasileiro.
Com informações de Xataka.

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