Enquanto todas as concorrentes usam motor de 1 ou 2 cilindros, a Kawasaki colocou 4 cilindros em linha numa moto que entrega até 80 cv, tem chassis herdado da lendária ZX-10RR de Superbike e ainda serve pra ir trabalhar na segunda-feira
No mundo das motos de 400cc, existe uma regra não escrita. Motor monocilíndrico se quiser economia. Bicilíndrico se quiser um pouco mais de emoção. Ninguém coloca quatro cilindros numa moto dessa cilindrada. É caro demais, complexo demais, desnecessário. A Kawasaki ignorou essa regra e criou a ZX-4R.
O resultado é uma moto que não deveria existir na teoria, mas que na prática está redefinindo o que significa “média cilindrada” no Brasil e no mundo. Quatro cilindros em linha, 399 cc, até 80 cavalos de potência e uma linha de giro que passa dos 15 mil rpm. Esse número não é erro de digitação. Quinze mil rotações. Motos de rua normais giram até 10, 11 mil. Superesportivas de 1.000cc chegam a 14 mil. A ZX-4R gira mais alto que a maioria das motos que custam o triplo do preço.
O que 4 cilindros fazem que 2 não conseguem?

A diferença é visceral. Um motor bicilíndrico entrega torque em pancadas. Você sente o pulso do motor, a vibração, o empurrão irregular. Tem personalidade, tem caráter, mas tem limite.
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Um motor de 4 cilindros em linha entrega potência como um turbina. A aceleração é linear, progressiva, sem buracos. O torque não vem em socos, vem como uma onda que não para de crescer. E quando o ponteiro do conta-giros passa dos 10 mil rpm, acontece algo que nenhum mono ou bicilíndrico de 400cc consegue reproduzir: o motor acorda de verdade.
Entre 10 mil e 15 mil rpm, a ZX-4R se transforma. O som muda. A entrega de potência muda. O ronco vira um grito agudo, metálico, idêntico ao das motos de MotoGP que você vê na televisão. Não é marketing. É física. Quatro cilindros menores girando mais rápido produzem frequências mais altas do que dois cilindros maiores girando mais devagar. O resultado é um som que arrepia e uma entrega de potência que vicia.
A herança da ZX-10RR que ninguém esperava
O chassis da ZX-4R não foi desenhado do zero. Ele descende diretamente do programa de desenvolvimento da ZX-10RR, a superbike da Kawasaki que compete no Campeonato Mundial de Superbike. A treliça de aço de alta resistência usa geometria derivada das máquinas de corrida, adaptada para as dimensões menores da 400cc.
Na prática, isso significa que a moto tem uma ciclística que não combina com o preço. Ela entra em curvas com uma precisão que surpreende pilotos vindos de motos maiores. A estabilidade em velocidade é superior à de qualquer concorrente direta. E a sensação de controle é a de estar pilotando algo que foi projetado pra pista e adaptado pra rua, não o contrário.
A suspensão dianteira é uma Showa SFF-BP invertida de 37mm, componente que normalmente aparece em motos de cilindrada bem superior. Na traseira, o monoamortecedor horizontal tipo Back-link absorve imperfeições do asfalto brasileiro sem comprometer a estabilidade em curvas rápidas.
O pacote eletrônico que veio direto da competição
A ZX-4R não economizou em eletrônica. O pacote inclui:
Controle de tração KTRC que monitora a diferença de velocidade entre as rodas e corta potência em milissegundos quando detecta perda de aderência. Em dia de chuva no trânsito, isso pode ser a diferença entre chegar em casa ou não.
Modos de pilotagem que alteram a resposta do acelerador eletrônico. No modo mais suave, a moto fica dócil pra cidade. No modo mais agressivo, a resposta é imediata, seca, sem filtro.
Quickshifter bidirecional que permite trocar marchas pra cima e pra baixo sem usar a embreagem. Em pilotagem esportiva, isso elimina milissegundos entre as trocas. No dia a dia, simplesmente torna a pilotagem mais fluida e menos cansativa no trânsito.
Freios com pinças de montagem radial e discos duplos de 290mm na dianteira, configuração que normalmente só aparece em motos esportivas de alta cilindrada.
A pergunta que todo piloto faz: vale pra usar todo dia?
Sim. E essa é a maior surpresa da ZX-4R.
Apesar de toda a tecnologia de pista, a moto não é um instrumento de tortura no trânsito. A posição de pilotagem é esportiva mas não extrema. O assento permite viagens de média distância sem destruir a coluna. O motor, que vira um monstro acima de 10 mil rpm, é surpreendentemente civilizado abaixo de 6 mil. Responde bem em baixa rotação, puxa sem engasgar e não treme no semáforo.
O consumo médio gira em torno de 20 a 23 km/l, dependendo do uso, o que dá uma autonomia razoável com o tanque de 15 litros. Não é econômica como uma monocilíndrica, mas é perfeitamente aceitável pra quem usa a moto como transporte principal.
A ZX-4R é aquela moto que leva você pro trabalho de segunda a sexta sem reclamar e, no sábado, te faz sentir que está numa pista de corrida numa estrada de serra. Nenhuma concorrente de 400cc no mercado consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo com esse nível de competência.
A Kawasaki não apenas colocou tecnologia de pista numa moto pro dia a dia. Ela provou que a fronteira entre rua e circuito nunca foi tão fina quanto agora. E que quatro cilindros numa 400cc não era loucura. Era profecia.
Com informações do Monitor do Mercado e da Kawasaki Motors.

E a Kawasaki Ninja ZX-25R?
Uai. Tenho a 400 bicilindrica e já é deliciosa. 😀🤪