Angra dos Reis recuou após polêmica da taxa de R$ 95 para entrar na Ilha Grande. A cobrança será reduzida, escalonada e discutida na Alerj, enquanto a prefeitura prevê arrecadar R$ 150 milhões ao ano
A taxa que prometia “organizar” o turismo em Angra dos Reis virou um dos temas mais quentes do estado do Rio. Em poucas semanas, o que começou como uma proposta silenciosa de R$ 95 por visitante ganhou repercussão nacional, virou pauta na Alerj, mobilizou associações, empresários, moradores e pressionou a prefeitura a recuar.
No centro da discussão está a Ilha Grande, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial, que recebe mais de 1,2 milhão de visitantes por ano — e que convive há décadas com problemas estruturais de saneamento e descarte de lixo.
Hoje, a Taxa de Turismo Sustentável (TTS) é vista simultaneamente como solução ambiental e ameaça econômica. E enquanto a prefeitura defende a cobrança como fonte para financiar metas como “Esgoto Zero” e “Lixo Zero” até 2028, parte do setor turístico afirma que a medida pode afastar justamente quem mantém a economia da ilha viva: os visitantes.
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A taxa de R$ 95 que acendeu o estopim da crise
O texto aprovado na Câmara Municipal previa uma cobrança fixa de R$ 95 por pessoa para entrar na Ilha Grande — em um município que movimenta 1,8 milhão de turistas por ano. A repercussão foi imediata: hotéis, pousadas, guias, barqueiros e comerciantes alegaram que o valor era “desproporcional” e não condizia com a realidade econômica de quem visita a região.
A crítica ganhou ainda mais força quando veio à tona um detalhe incômodo: um estudo da própria prefeitura recomendava taxa de apenas R$ 2,70, exclusivamente destinada à preservação ambiental. Já a versão aprovada previa que o dinheiro iria diretamente para o caixa geral do município, sem vinculação específica.
A Associação dos Meios de Hospedagem da Ilha Grande (AMHIG) chamou a cobrança de “injusta e prejudicial”. Num cálculo que rapidamente viralizou nas redes, a entidade destacou:
“Um casal com dois filhos gastará quase R$ 1.180 apenas com barco e taxa. Isso é incentivo ao turismo?”
A fala repercutiu tanto que virou combustível para protestos presenciais e online.

Alerj entra no jogo: audiência pública convocada
Com a pressão crescendo, a Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Alerj convocou uma audiência pública às 10h para discutir a Taxa de Turismo Sustentável e ouvir representantes do setor, moradores, ambientalistas e a própria prefeitura.
A agenda oficial pode ser consultada no portal da Alerj.
Deputados passaram a questionar principalmente:
- a destinação do dinheiro, já que a versão original não era vinculada à preservação
- o impacto social e econômico sobre famílias de baixa renda
- a falta de diálogo prévio com quem vive e trabalha na Ilha Grande
A discussão abriu caminho para o recuo.
Prefeitura recua e anuncia escalonamento da TTS
Após semanas de críticas, a prefeitura apresentou uma versão revisada da cobrança. A mudança reduz significativamente o valor inicial e cria um modelo progressivo:
A partir de 2026
- Visitantes vindos do continente: R$ 23,75 (5 UFIRs)
- Visitantes hospedados na Ilha Grande: R$ 47,50 (10 UFIRs)
- Diária adicional: R$ 2,37 (0,5 UFIR)
Descontos programados
- 2026: 50% de desconto
- 2027: 25%
- 2028: valor integral
A prefeitura também anunciou que a arrecadação será usada em saneamento, segurança e infraestrutura turística, com foco total em metas ambientais — uma tentativa clara de responder às críticas anteriores.
Quem fica isento da taxa
A lista de isenções inclui:
- Moradores de Angra dos Reis e familiares até 2º grau
- Prestadores de serviço que atuam na ilha
- Crianças até 12 anos
- Idosos acima de 60 anos
- Transportes cadastrados no Cadastur
- Pacotes turísticos vendidos até dezembro de 2025, com embarque até julho de 2026
Na prática, o maior impacto financeiro recai sobre o turista comum.
Por que Angra quer arrecadar R$ 150 milhões por ano?
Segundo estimativas divulgadas pela prefeitura no portal oficial de notícias do município a TTS pode render cerca de R$ 150 milhões anuais. Com esse dinheiro, o plano é:
- ampliar sistemas de tratamento de esgoto
- reduzir impactos da superlotação nos feriados
- custear limpeza, coleta e descarte de resíduos
- reforçar segurança
- investir em infraestrutura turística básica
Ambientalistas argumentam que, sem uma fonte de financiamento permanente, a Ilha Grande corre risco de deterioração progressiva. O trade turístico reconhece o problema, mas defende um valor “realista e proporcional”.
Ilha Grande: uma joia ameaçada e disputada
A Ilha Grande é considerada um dos destinos mais preservados do litoral brasileiro, com trilhas, cachoeiras, praias isoladas e uma biodiversidade reconhecida internacionalmente. Mas também enfrenta problemas crônicos: segundo levantamentos da Cedae e do Governo do Estado, parte do esgoto produzido na ilha ainda não passa por tratamento adequado, e a coleta de lixo é insuficiente nos períodos de maior fluxo.
Esse cenário reforça o discurso da prefeitura por uma taxa ambiental. Porém, o modelo escolhido — e o valor inicial — fez a ideia nascer sob forte rejeição.
A disputa que vai definir o futuro do turismo local
Os próximos meses serão decisivos para que a TTS ganhe formato definitivo. A audiência na Alerj pode resultar em ajustes profundos ou até na suspensão da cobrança conforme pressões políticas, jurídicas e econômicas.
De um lado, empresários e moradores defendem que a taxa precisa ser reduzida e transparente. Do outro, ambientalistas e a administração municipal afirmam que, sem recursos permanentes, a Ilha Grande não suportará mais décadas de turismo intenso.
Seja qual for a decisão, uma coisa é certa: a taxa virou o principal debate do verão fluminense — e deve continuar no centro das discussões sobre sustentabilidade e desenvolvimento turístico no Brasil.

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