É o que aponta a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada na última quarta-feira (10) pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), que elegeu o cartão de crédito como o maior ‘vilão’ responsável pela fragilização financeira do segmento, mas seguido de perto pelo cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa. Atualmente, oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas.
Em comum, todas essas modalidades de crédito têm a marca do aperto monetário perpetrado pelo Banco Central (BC), que hoje mantém a taxa básica de juros (Selic), no patamar olímpico de 14,50% ao ano (taxa real de 9,33% ao ano, a segunda maior do planeta), o que, além de comprometer o crescimento econômico, extingue empregos e empresas.
O ‘pódio’ do ranking das modalidades mais utilizadas pelas famílias é formado pelo cartão de crédito (84,6%), seguido pelos carnês de loja (16,1%) e crédito pessoal (13,1%). Em março do ano passado, a taxa era de 77,1%.
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Famílias de menor porte é que mais sofrem com endividamento
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, destacou o fato de que “essa sequência de aumentos atinge, principalmente, as famílias de menor poder aquisitivo, pela exposição às taxas decorrentes de atrasos nos pagamentos. É preciso garantir que o consumidor possa renegociar essas dívidas e recuperar seu fôlego financeiro.”
Já a entidade, em nota, assinala que “o dado reforça o alerta vermelho na economia pelo fato de o cartão carregar a taxa de juros mais elevada do mercado: 428,3% ao ano no crédito rotativo”.
Entre as causas estruturais do descalabro financeiro tupiniquim, a CNC explica que os juros básicos elevados, além de dificultarem, e muito, a quitação de débitos, e encarecerem os serviços essenciais, ‘empurram’ a população a utilizar o crédito como único meio disponível para completar o orçamento doméstico.
Ajuste fiscal está na raiz da expansão de dívidas familiares
Como não resolveu o problema estrutural do ajuste fiscal, o governo federal agora cria um programa para financiar o endividamento e a inadimplência ‘paridos’ pela própria política monetária que fomenta: por meio do Desenrola 2.0, são oferecidas ‘condições’ para que o inadimplente quite suas dívidas contratadas até janeiro de 2026 e em atraso, no prazo de 90 dias a dois anos. A ‘fórmula’ inclui débitos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.
Outra ‘bondade’ do programa federal é a que aplica descontos, de 30% a 90%, sobre o valor principal das dívidas e limita os juros a 1,99% ao mês, nelas incidentes. Já aqueles trabalhadores com renda até cinco salários mínimos poderão utilizar até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) para fins de pagamento de débitos.
CNC condiciona queda do endividamento à flexibilização monetária
A despeito do reconhecimento federal, de que ‘o problema requer solução imediata’, a CNC, pragmática, entende que o endividamento continuará avançando até quanto os ‘efeitos da flexibilização monetária’ chegarem, efetivamente, ao consumidor final. No entanto, a perspectiva é de que o condicionante equilíbrio das contas públicas só ocorra após o atual mandato presidencial, conforme a vontade política da nova administração do país, no ano que vem. Por fim, o pacote de pretextos federais para o adiamento ‘sine die’ da redução substancial da Selic foi reforçado pelo conflito geopolítico no Oriente Médio e a decorrente alta do petróleo, maior vetor inflacionário, aqui e lá fora.
Isso posto, a última Ata do Copom (Comitê de Política Monetária) recomenda ‘cautela’ quando o assunto é ‘redução da Selic’. Cautela para autoridade monetária, paciência para os endividados, é o que resta.

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