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A Costa Rica já foi um dos maiores desmatadores do planeta, perdeu milhões de hectares de floresta tropical, mas reverteu o colapso ambiental em 30 anos, eliminou subsídios à pecuária e criou sistema que paga proprietários para conservar florestas

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 27/02/2026 às 16:41
Atualizado em 27/02/2026 às 16:42
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A Costa Rica já foi um dos maiores desmatadores do planeta, perdeu milhões de hectares de floresta tropical, mas reverteu o colapso ambiental em 30 anos, eliminou subsídios à pecuária e criou sistema que paga proprietários para conservar florestas
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Após perder metade de suas florestas entre 1940 e 1980, a Costa Rica reverteu o desmatamento com políticas públicas inovadoras e elevou a cobertura florestal de 26% para mais de 50% do território nacional.

Entre 1940 e 1980, a Costa Rica perdeu metade de suas florestas maduras em um dos processos de desmatamento mais acelerados da América Latina. A principal causa foi a expansão da pecuária, incentivada por empréstimos milionários dos Estados Unidos para produção de carne. Nos anos 1960, o país registrava uma das maiores taxas de desflorestamento do mundo. Mas, a partir da década de 1980, uma série de políticas públicas transformou completamente esse quadro catastrófico.

A transformação começou quando o governo costarriquenho percebeu que estava destruindo seu próprio futuro. Em 1983, apenas 26% do território nacional ainda tinha cobertura florestal. A taxa de desmatamento anual chegava a 50 mil hectares por ano — o equivalente a 70 mil campos de futebol sendo devastados a cada 12 meses.

Como a Costa Rica virou o jogo e iniciou a reversão do desmatamento

O primeiro passo foi tão simples quanto radical: eliminar os subsídios governamentais que incentivavam a derrubada de florestas. Durante décadas, o governo havia oferecido dinheiro e benefícios fiscais para que fazendeiros transformassem áreas florestais em pasto para gado. Essa política tinha uma lógica econômica imediata — produzir carne para exportação gerava receita —, mas ignorava completamente as consequências ambientais de longo prazo.

Quando os Estados Unidos começaram a oferecer milhões de dólares em empréstimos para produtores de carne na Costa Rica durante os anos 1960, a devastação se acelerou ainda mais. Pastagens para gado se expandiram 62% em poucas décadas, engolindo florestas tropicais inteiras. Nos anos 1970 e 1980, a Costa Rica tinha uma das maiores taxas de desflorestamento de toda a América Latina.

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Mas, na década de 1980, três fatores combinados forçaram uma mudança de mentalidade. Primeiro, o mercado internacional de carne entrou em colapso, tornando economicamente inviável manter aquela expansão agressiva de pastagens.

Segundo, o crescimento do turismo mostrou que florestas preservadas poderiam valer mais financeiramente do que terras desmatadas. Terceiro, uma nova geração de líderes políticos começou a enxergar a devastação ambiental como uma ameaça existencial ao futuro do país.

Pagamento por Serviços Ambientais (PSA): o programa que remunera quem preserva floresta

Em 1996, o governo costarriquenho criou uma lei que estabelecia o conceito revolucionário de “serviços ambientais”. A ideia era simples, mas poderosa: reconhecer que florestas prestam serviços valiosos para toda a sociedade — como produzir água limpa, capturar carbono da atmosfera, proteger a biodiversidade e regular o clima, e quem mantém essas florestas em pé deve ser remunerado por isso.

No ano seguinte, em 1997, nasceu oficialmente o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). O programa funciona assim: proprietários rurais que mantêm florestas preservadas em suas terras, ou que recuperam áreas degradadas plantando árvores nativas, recebem um pagamento direto do governo. Não é caridade — é um contrato voluntário onde o fazendeiro se compromete a proteger ou recuperar a vegetação, e o Estado paga por esse trabalho de conservação.

O valor médio é de US$ 64 por hectare por ano para proteção básica de florestas existentes. Pode parecer pouco, mas, para milhares de pequenos agricultores, isso representa uma renda adicional significativa. E há um benefício extra: os participantes do programa podem fazer colheita seletiva de madeira nas áreas reflorestadas, gerando receita adicional sem destruir o ecossistema.

Como o PSA é financiado: imposto sobre combustíveis e empresas de água e energia

A genialidade do sistema costarriquenho está no financiamento. Em vez de depender apenas do orçamento geral do governo que poderia ser cortado facilmente em tempos de crise, o programa PSA é financiado principalmente por um imposto sobre combustíveis fósseis. Quem polui paga para quem conserva.

A lógica é implacável: veículos que queimam gasolina e diesel emitem CO2, e florestas capturam esse CO2 da atmosfera. Logo, faz sentido que parte do dinheiro gerado pela venda de combustíveis seja direcionado para pagar quem mantém as florestas que neutralizam essas emissões.

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Além do imposto sobre combustíveis, o programa recebe recursos de empresas de água e energia elétrica. Hidrelétricas e companhias de abastecimento dependem diretamente de bacias hidrográficas saudáveis, protegidas por florestas. Logo, essas empresas pagam para que proprietários rurais preservem as matas ciliares e nascentes em suas propriedades.

Desde 1997, o programa PSA já pagou US$ 524 milhões a proprietários rurais. Mais de 1 milhão de hectares de florestas foram salvos da devastação, e 7 milhões de árvores foram plantadas em áreas degradadas.

Resultados da política ambiental: cobertura florestal sobe de 26% para mais de 50%

Os resultados são expressivos. A cobertura florestal da Costa Rica saltou de 21% na década de 1980 para 26% em 1983, depois para 52% em 2012, e chegou a 57% em 2020. Isso significa que mais da metade do território nacional — pequeno em extensão, mas imenso em biodiversidade — está coberto por florestas.

Para se ter uma ideia da escala dessa recuperação: entre 1997 e hoje, a Costa Rica reflorestou o equivalente a aproximadamente 10 milhões de campos de futebol. Áreas que eram pasto seco e degradado voltaram a ser florestas tropicais densas, repletas de vida selvagem.

Um exemplo emblemático é a região de Sarapiquí, no nordeste do país. O agricultor Carlos García trabalha há 36 anos em um terreno de 7 hectares que era completamente desmatado. Hoje, sua propriedade é um refúgio florestal denso onde vivem centenas de espécies, desde preguiças até sapos venenosos de morango.

García continua produzindo alimentos como pimenta e abacaxi orgânico, mas agora dentro de um sistema agroflorestal que concilia agricultura e conservação.

“Sinto orgulho quando caminho pela floresta, não apenas por mim, mas por toda minha família”, disse Elicinio Flores, outro agricultor que replantou 7 hectares de árvores com ajuda do programa PSA. “Quando eu não estiver mais aqui, sei que meus filhos continuarão cuidando disso.”

Economia verde: turismo, PIB florestal e créditos de carbono mudam o país

Contrariando a narrativa comum de que proteção ambiental prejudica a economia, a Costa Rica provou exatamente o oposto. Segundo medições do Banco Mundial, as florestas contribuem com 2% do PIB costarriquenho, um número muito maior do que se imaginava. Em comparação, a indústria madeireira tradicional (que corta árvores) representa apenas 0,2% do PIB.

O turismo sustentável se tornou uma das principais fontes de receita do país. Visitantes do mundo inteiro vão à Costa Rica especificamente para ver suas florestas tropicais, parques nacionais e biodiversidade exuberante. Esse turismo ecológico gera bilhões em receita anual e milhares de empregos diretos e indiretos.

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Além disso, a Costa Rica agora consegue vender créditos de carbono no mercado internacional. Em 2020, o país recebeu US$ 54 milhões do Fundo Verde para o Clima em reconhecimento por ter capturado 14,7 milhões de toneladas de CO2 entre 2014 e 2015. No mesmo ano, fechou outro acordo de US$ 60 milhões com o Banco Mundial para redução de emissões.

“Ninguém nos reconhecia por capturar emissões de carbono — isso era um presente que a Costa Rica dava ao mundo”, explicou Carlos Manuel Rodríguez, ministro de Meio Ambiente e Energia do país. “Agora, em vez de apenas ‘dar’ esse benefício de graça, começamos a precificá-lo e receber financiamento por isso.”

Queda histórica do desmatamento e a inversão da tendência após 1997

O programa funcionou. Entre 1960 e 1980, a taxa anual de desmatamento na Costa Rica era brutal: 3,86% das florestas desapareciam a cada ano. Após o lançamento do PSA em 1997, essa taxa caiu para menos de 2% ao ano. E continuou caindo.

Segundo estudo publicado na revista científica PLOS One, mais de 90% de todo o desmatamento que aconteceu na Costa Rica entre 1947 e 2014 ocorreu nos períodos 1947-1960 e 1960-1980. Depois de 1997, a tendência se inverteu: áreas degradadas passaram a se regenerar, e novas florestas começaram a crescer em terras abandonadas.

Em 2019, a Costa Rica se tornou o primeiro país tropical do mundo a oficialmente reverter o desmatamento. Enquanto o resto dos trópicos perdia 12 milhões de hectares de floresta por ano — o equivalente a 30 campos de futebol por minuto, os costarriquenhos estavam plantando árvores e vendo suas florestas crescerem.

Monitoramento e transparência: GPS, QR code e auditoria para garantir resultados

Para garantir que o dinheiro público seja bem aplicado, o programa PSA tem um sistema rigoroso de monitoramento. Todas as covas plantadas são geomarcadas com coordenadas GPS. As mudas recebem códigos QR que permitem rastreamento individual. Todo o processo é registrado online, e auditores verificam periodicamente se os proprietários estão cumprindo os contratos.

Essa transparência foi fundamental para manter a credibilidade do programa ao longo de mais de 25 anos. Mesmo com mudanças de governo, o PSA continuou funcionando porque demonstrava resultados concretos e mensuráveis.

A taxa de sobrevivência das árvores plantadas é de aproximadamente 60% — um número considerado bom para projetos de reflorestamento em larga escala. Muitas mudas morrem por falta de água, ataques de fungos ou falta de manutenção, mas a maioria prospera e se torna parte de florestas secundárias que eventualmente amadurecem.

Lições globais: por que o modelo da Costa Rica virou referência mundial

O caso da Costa Rica virou referência mundial. Guatemala, México, Ruanda, Camarões e Índia já se comprometeram a restaurar pelo menos 1 milhão de hectares de florestas através do Desafio de Bonn — uma iniciativa global que pretende restaurar 350 milhões de hectares de ecossistemas degradados até 2030.

Mas, segundo Stewart Maginnis, diretor global do grupo de soluções baseadas na natureza da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), o que diferencia a Costa Rica desses outros países é a “coerência e consistência da política ambiental ao longo do tempo”. Não basta criar um programa bonito no papel é preciso mantê-lo funcionando por décadas, independentemente de quem está no poder.

“É notável”, disse Maginnis à CNN. “Nos anos 1970 e 1980, a Costa Rica tinha uma das maiores taxas de desmatamento da América Latina, mas conseguiu reverter isso em um período relativamente curto.”

O ministro Carlos Manuel Rodríguez reconhece que a estratégia costarriquenha pode ser aplicada em qualquer lugar do mundo, mas alerta que “princípios e valores” também são necessários. “Boa governança, democracia forte, respeito aos direitos humanos e um sistema educacional sólido são vitais para o sucesso.”

Ou, nas palavras diretas de outro funcionário do programa: “Aprendemos que o bolso é o caminho mais rápido para chegar ao coração.”

Desafios ainda existentes: pecuária, emissões e pressão por novas áreas

Apesar do enorme sucesso, a Costa Rica ainda enfrenta desafios. A pressão populacional continua aumentando, e pessoas sem terra continuam migrando para áreas rurais e florestais em busca de sobrevivência. O governo nem sempre tem recursos suficientes para fiscalizar todas as áreas protegidas e fazer cumprir a legislação ambiental.

Além disso, 35,5% do território costarriquenho ainda é usado para pastagens de gado, e a pecuária é responsável por 30% das emissões de gases de efeito estufa do país. Há muito trabalho pela frente.

Mas a trajetória é clara: de um país que devastava suas próprias florestas para produzir carne barata, a Costa Rica se transformou em um líder global de conservação. O modelo de Pagamento por Serviços Ambientais provou que é possível conciliar desenvolvimento econômico com proteção da natureza — desde que haja vontade política, financiamento consistente e um sistema que recompense quem cuida do meio ambiente.

A mensagem final é cristalina: florestas em pé valem mais do que árvores derrubadas. Não apenas para o clima global e a biodiversidade, mas também para a economia local. A Costa Rica construiu sua prosperidade sobre esse princípio e qualquer país pode fazer o mesmo.

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João Torres
João Torres
06/03/2026 07:27

O governo brasileiro deveria gradualmente retirar o subsídio do agro, o pessoal do agro está gordo e ovado. O dinheiro público contribuí para o desmate brutal de nossas florestas. Engraçado trombeteiam que somos os maiores produtores de carne e nos não podemos e nem temos condições de comer carne barata diariamente. Temos que fazer como a Nova Zelândia acabou com subsídio e ficou somente o pessoal do agro competente.

Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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