A China assumiu a liderança da indústria automotiva global enquanto montadoras dos Estados Unidos e da Europa acumularam 75 bilhões de dólares em perdas nos últimos dois anos, segundo estudo da ZAG Work, pressionadas por tarifas, erro de previsão na eletrificação e avanço das fabricantes chinesas.
A conta da transformação automotiva chegou, e quem está pagando são as montadoras que dominaram o mercado por mais de um século. Um estudo apresentado pela ZAG Work, consultoria de Rogélio Golfarb, ex-vice-presidente da Ford e ex-presidente da Anfavea, estima que fabricantes dos Estados Unidos e da Europa tenham acumulado 75 bilhões de dólares em perdas nos últimos dois anos. Os motivos são múltiplos, mas convergem para um único ponto: enquanto essas empresas tentavam acertar a velocidade certa da transição para carros elétricos, a China avançou sem hesitar e assumiu o controle do jogo.
O diagnóstico vai além de uma simples troca de tecnologia. “O nome do jogo mudou”, afirmou Golfarb ao resumir o deslocamento do eixo da indústria global para a China. As montadoras tradicionais foram atingidas por vários lados ao mesmo tempo: pressão nas margens de exportação, redução de incentivos para veículos elétricos, erro na previsão de demanda entre híbridos e elétricos puros, e a necessidade de manter investimentos simultâneos em múltiplas tecnologias. O resultado foi uma estrutura de custos inflada justamente quando a concorrência chinesa se intensificou.
O erro de previsão que custou bilhões às rivais da China

Segundo UOL, o problema central começou com uma aposta que não se confirmou. Estados Unidos e Europa previram que a adoção do carro 100% elétrico aconteceria em velocidade muito maior do que realmente aconteceu.
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As montadoras equiparam suas fábricas para entregar um volume alto de veículos elétricos puros, investiram bilhões em linhas de produção dedicadas e redirecionaram recursos de pesquisa para baterias e plataformas elétricas. Mas os consumidores não acompanharam o ritmo esperado.
O que aconteceu na prática foi que o híbrido plug-in ganhou espaço enquanto o elétrico puro cresceu em ritmo muito menor do que o projetado. Golfarb explicou que esse descompasso obrigou os fabricantes a reverem a rota no meio do caminho.
Em vez de uma transição linear para o elétrico, as montadoras ocidentais passaram a sustentar ao mesmo tempo projetos de combustão, híbridos, híbridos plug-in e elétricos puros. Manter quatro tecnologias em paralelo é exponencialmente mais caro do que apostar em uma só. A China, enquanto isso, avançava com estratégia própria e custos muito menores.
Como a China se posicionou para liderar a indústria automotiva global

Enquanto as montadoras ocidentais tentavam equilibrar múltiplas apostas tecnológicas, a China construiu uma cadeia produtiva integrada que vai da mineração de lítio à fabricação de baterias e à montagem de veículos completos.
Empresas como BYD, NIO e Geely não precisaram carregar o peso de décadas de investimento em motores a combustão. Elas nasceram elétricas ou fizeram a transição com agilidade que montadoras centenárias não conseguem replicar.
A vantagem da China não é apenas tecnológica. É estrutural. O governo chinês subsidiou fortemente a cadeia do veículo elétrico, criou demanda interna massiva e permitiu que suas montadoras ganhassem escala antes de competir no mercado internacional.
Quando as fabricantes chinesas começaram a exportar, já tinham custos de produção inferiores, tecnologia competitiva e modelos testados em um mercado doméstico de mais de um bilhão de pessoas. As montadoras tradicionais encontraram uma concorrente que chegou ao jogo global já preparada para vencer.
Os 75 bilhões em perdas e o que eles revelam sobre a crise das montadoras tradicionais
Os 75 bilhões de dólares em perdas não vieram de um único fator. A pressão tarifária nos Estados Unidos encareceu exportações e importações de componentes, a redução de incentivos fiscais para veículos elétricos em vários mercados desacelerou a demanda, e o erro no mix de produção deixou fábricas com capacidade ociosa para carros elétricos que não vendiam na velocidade esperada.
Cada um desses fatores separadamente seria administrável. Juntos, criaram uma tempestade perfeita.
O resultado prático é que montadoras que eram referência de lucratividade passaram a reportar prejuízos operacionais em suas divisões de veículos elétricos. Marcas europeias revisaram metas de eletrificação, adiaram lançamentos e anunciaram cortes de produção.
Fabricantes americanas reduziram investimentos em fábricas de baterias que haviam sido anunciadas com pompa poucos anos antes. Enquanto isso, a China não apenas manteve seus investimentos como os acelerou, ampliando a distância competitiva a cada trimestre.
A guerra tarifária que complica ainda mais a competição com a China
A resposta dos governos ocidentais ao avanço chinês foi impor tarifas. A União Europeia e os Estados Unidos aumentaram as taxas de importação sobre veículos elétricos fabricados na China, tentando proteger suas indústrias domésticas.
Mas as tarifas criaram um efeito colateral: encareceram componentes que as próprias montadoras ocidentais importam da cadeia chinesa, elevando ainda mais os custos de produção que já estavam inflados.
Para a China, as tarifas são um obstáculo, mas não um impedimento. As fabricantes chinesas respondem instalando fábricas em mercados estratégicos, reduzindo a dependência de exportação direta. A BYD já anunciou plantas de produção em vários países.
A estratégia é contornar as barreiras tarifárias fabricando localmente, o que mantém a competitividade de preço e ainda gera empregos nos países de destino, dificultando argumentos protecionistas. A China joga com uma visão de longo prazo que as montadoras tradicionais, pressionadas por resultados trimestrais, têm dificuldade de acompanhar.
O que vem a seguir para a indústria automotiva e o papel da China no futuro do setor
O cenário descrito pelo estudo da ZAG Work não é temporário. A mudança estrutural que transferiu o eixo da indústria automotiva para a China tende a se consolidar à medida que as fabricantes chinesas continuam investindo em tecnologias como baterias de estado sólido, carregamento ultrarrápido e veículos autônomos.
As montadoras tradicionais precisam recuperar o terreno perdido enquanto ainda carregam o custo de manter tecnologias antigas em operação.
A pergunta que o mercado se faz não é mais se a China vai liderar a indústria automotiva global, mas quanto tempo levará para que essa liderança se torne irreversível. Com 75 bilhões de dólares em perdas acumuladas e uma corrida tecnológica que não espera, as montadoras dos Estados Unidos e da Europa enfrentam o desafio mais difícil da sua história.
A resposta que derem nos próximos anos vai determinar se ainda terão lugar no mercado que ajudaram a criar ou se a China vai ocupar definitivamente o volante.
O que você acha do avanço da China na indústria automotiva? Acredita que as montadoras tradicionais podem reagir ou que a liderança chinesa já é irreversível? Deixe nos comentários. Esse debate sobre quem controla o futuro dos carros afeta desde o preço que você paga na concessionária até os empregos na indústria do seu país.


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