No coração de Riade, a Arábia Saudita transforma a antiga base aérea em um parque urbano de 16 km², com 70% de áreas verdes, vales artificiais, 300 mil m² de água, museu de 110 metros, teatro para 2.300 pessoas e túnel subterrâneo já aberto com custo estimado em US$ 9,4 bilhões.
A Arábia Saudita decidiu trocar concreto e pistas por árvores, cultura e lazer no centro de Riade. Sobre a antiga Base Aérea de Riade, no meio do deserto, nasce o Parque Rei Salman (King Salman Park), um megaprojeto lançado em 2019 e planejado para se tornar o maior parque urbano do mundo, com cerca de 16 quilômetros quadrados.
A escala é calculada para impressionar e para transformar. O parque é apresentado como um oásis urbano cinco vezes maior que o Central Park, que tem 3,4 quilômetros quadrados, mas também como uma peça de uma mudança social e cultural mais ampla. A proposta é criar um novo tipo de espaço público, com esportes, artes, natureza e serviços integrados, em uma cidade que cresce e busca uma vida urbana mais diversa.
Por que a Arábia Saudita aposta em um parque para mudar o país

A Arábia Saudita foi, por décadas, associada a uma vida pública mais restrita e a uma organização social conservadora, marcada por censura a conteúdos e por limitações fortes ao cotidiano, inclusive com espaços públicos segregados por gênero.
-
Casal de pescadores de Cáceres levou 4 anos para construir uma casa flutuante com motores, quatro quartos, churrasqueira e energia solar, transformou o sonho de morar sobre o rio Paraguai em uma embarcação regulamentada pela Marinha, com caixa séptica, área de lazer e procura para passeios depois de 17 anos casados
-
Enquanto o mundo inaugura aeroportos novos e trens-bala, o Brasil ainda corre para terminar obras paradas há quarenta anos
-
O Brasil aposta numa hidrovia gigante para fazer a soja descer de barcaça até o mar e fugir do caminhão caro
-
A ponte que despencou sobre o rio foi reconstruída em apenas um ano e voltou a costurar dois estados do Brasil
Nos últimos anos, o país iniciou uma abertura gradual, com marcos como a reabertura de cinemas em 2017, após mais de 35 anos de proibição, e mudanças que ampliaram a participação feminina na sociedade, incluindo a possibilidade de dirigir, viajar sem aprovação masculina e trabalhar em ocupações antes fechadas.
A porcentagem de mulheres na força de trabalho mais que dobrou nesse período, dentro de um processo apresentado como transformação contínua e complexa.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que um parque gigante não é tratado apenas como obra paisagística.
O Parque Rei Salman é descrito como um novo centro de vida pública em Riade, combinando natureza com museus, teatros, esportes, hotelaria e áreas residenciais.
A ideia é que o espaço ajude a remodelar hábitos, ofereça lazer cotidiano e fortaleça uma cultura urbana mais aberta a eventos, encontros e experiências coletivas.
Parque Rei Salman em Riade: uma “cidade pequena” sobre a antiga base aérea

O projeto do Parque Rei Salman (King Salman Park)) está localizado no coração de Riade e ocupa o terreno da antiga Base Aérea de Riade, reposicionando uma área estratégica da capital para usos civis.
A dimensão anunciada, cerca de 16 quilômetros quadrados, empurra o projeto para um patamar em que “parque” vira quase uma simplificação.
Na prática, o plano funciona como uma nova centralidade urbana, com setores de usos diferentes, conectados por uma infraestrutura contínua.
A comparação com o Central Park aparece como referência direta para traduzir escala.
Enquanto o parque nova-iorquino soma 3,4 quilômetros quadrados, o Parque Rei Salman é projetado com área próxima de cinco vezes isso, com a promessa de reunir trilhas, jardins, equipamentos culturais, esporte, entretenimento, moradia e comércio em um único conjunto urbano.
Complexo Real de Artes: o coração cultural do megaprojeto
Entre os elementos mais simbólicos está o Complexo Real de Artes, descrito como um polo cultural de grande porte com mais de 500.000 metros quadrados.
O conjunto inclui atrações planejadas para posicionar o parque como destino cultural permanente, não apenas um espaço de passeio.
Um dos pontos centrais é o Museu das Culturas do Mundo, definido como um monólito triangular que se eleva a 110 metros acima do solo.
A proposta do museu é expor artefatos de diferentes culturas, ampliando o repertório de referências em um país que busca diversificação cultural. A presença de um museu com esse perfil é uma sinalização direta de abertura estética e simbólica.
No mesmo núcleo cultural está o Teatro Nacional, com capacidade para 2.300 lugares, planejado como espaço multiuso, apto a receber óperas e concertos.
O Complexo Real de Artes também prevê uma cúpula de exposições, uma biblioteca de grande porte, além de estúdios e galerias, com a intenção declarada de que o local não seja só de contemplação, mas também de criação.
Pavilhão do Visitante: a porta de entrada e a assinatura arquitetônica
Ao sul do Complexo Real de Artes, o Pavilhão do Visitante surge como a entrada principal do parque, com área estimada em 90.000 metros quadrados.
O desenho é associado à arquitetura Salmani, descrita como uma mistura de técnicas e materiais tradicionais reinterpretados em um contexto moderno.
O pavilhão inclui auditório, salão de conferências, viveiro de plantas, restaurantes, lojas e biblioteca. Um dos elementos mais chamativos é o “sky pavilion” no topo, planejado para oferecer vistas do parque e do horizonte urbano de Riade.
A lógica aqui é dupla: orientar o visitante e transformar a chegada em experiência, reforçando a ideia de parque como destino, não como passagem.
Esporte e entretenimento: do clube de golfe ao centro de paraquedismo
A programação do Parque Rei Salman não se limita à cultura e ao verde. O projeto também prevê um grande complexo esportivo com instalações internas e externas, ampliando o uso do espaço para práticas regulares, eventos e lazer.
Entre os equipamentos citados está o Royal Golf Club, com 850.000 metros quadrados, apresentado como um clube de golfe de escala inédita no meio da cidade.
Para um público que busca experiências mais intensas, há ainda a previsão de um centro dedicado ao paraquedismo, reforçando a intenção de fazer do parque um polo de entretenimento completo.
O efeito pretendido é transformar o parque em rotina, com oferta suficiente para atrair diferentes perfis de visitantes ao longo do dia, da semana e do ano, e não apenas em datas especiais.
Moradia, hotéis e comércio: quando o parque vira bairro e destino turístico
O Parque Rei Salman também foi concebido como um lugar onde pessoas podem morar e circular como em um centro urbano moderno.
Estão previstos múltiplos núcleos residenciais, totalizando até cerca de 12.000 unidades habitacionais, integradas às áreas públicas e aos serviços.
O plano inclui ainda 16 hotéis e mais de 500.000 metros quadrados de espaço de varejo, com restaurantes, lojas, cafés e estruturas típicas de centralidades urbanas contemporâneas.
Essa combinação muda o status do parque: ele deixa de ser apenas área de lazer e passa a funcionar como distrito urbano, com movimento turístico e vida cotidiana sobrepostos.
70% de verde, vales artificiais e 300 mil m² de água para aliviar o clima do deserto
A Arábia Saudita reservou, dentro do total de 16 quilômetros quadrados, cerca de 70% da área para vegetação e espaços abertos.
Não se trata apenas de gramados vazios: o projeto menciona paisagismo diverso, jardins e um santuário dedicado a pássaros e borboletas, além de itens como jardim em estilo islâmico, jardins verticais e um jardim labirinto.
Um dos elementos mais estratégicos são os sistemas de vales artificiais, descritos como estruturas inspiradas no funcionamento de wadis, leitos secos naturais comuns na região.
Esses vales são apresentados como ferramentas de controle climático, capazes de canalizar vento e reter ar mais fresco, criando sombra e alívio térmico em um ambiente de deserto.
Para reforçar essa ambição de “oásis”, o projeto prevê mais de 300.000 metros quadrados de áreas aquáticas, combinando fontes, riachos, lagos e lagoas, conectados por uma passarela circular de 7 quilômetros.
A lógica é oferecer percurso sombreado e contínuo, permitindo atravessar e explorar o parque a pé, com sensação de permanência e não de travessia rápida.
A estrada de 2,4 km enterrada sob o parque e a engenharia para liberar a superfície
Uma das peças mais decisivas de infraestrutura é o túnel rodoviário subterrâneo de 2,4 quilômetros, construído para passar diretamente sob o parque.
O túnel foi inaugurado em fevereiro de 2024 e é apresentado como solução para liberar espaço na superfície, reduzindo o conflito entre tráfego e áreas verdes no coração de Riade.
Enterrar a via é parte do conceito central do projeto: tirar a pressão do asfalto e devolver o nível do solo ao pedestre, às árvores, à água e aos equipamentos culturais.
Para um parque que pretende funcionar como “cidade pequena”, a integração entre circulação e permanência depende exatamente dessa reorganização.
O que já saiu do papel e como está o cronograma de inauguração
As obras começaram em 2021. Em agosto de 2025, o Complexo Real de Artes já havia avançado de forma significativa, descrito como estando na metade da construção, com trabalhos estruturais concluídos em alguns edifícios e elementos icônicos em estágios avançados.
O Pavilhão do Visitante também aparece como etapa adiantada, com início de detalhes arquitetônicos e trabalhos internos.
Nos espaços verdes, a implantação já começou, incluindo modelagem de vales e elementos de água.
A fase inicial do circuito circular de pedestres teve o traçado definido, com contorno identificável até em imagens de satélite, sinal de que a geometria principal do parque já foi desenhada sobre o terreno.
O projeto é planejado para ser inaugurado em fases. Jardins públicos e instalações recreativas menores podem abrir no fim de 2026.
Elementos mais complexos, como o Complexo Real de Artes, os espelhos d’água e as áreas residenciais, seguem um calendário de conclusão nos anos seguintes, acompanhando o ritmo de obras e acabamentos.
Quanto custa e o que a Arábia Saudita quer provar com esse “oásis” urbano
As estimativas citadas colocam o custo total do megaprojeto em torno de US$ 9,4 bilhões.
A cifra reforça que o Parque Rei Salman não é apenas urbanismo, mas uma intervenção estruturante no centro de Riade, com efeitos em turismo, cultura, lazer e desenho urbano.
O projeto também declara preocupação com sustentabilidade e proteção ambiental, com objetivo de ampliar vegetação e elevar a proporção de áreas verdes per capita.
Ao conectar cultura, esporte, moradia e natureza no mesmo espaço, a Arábia Saudita tenta redefinir o que significa “vida urbana” no deserto, e transformar um símbolo militar do passado, a base aérea, em vitrine de futuro.
A previsão de conclusão total do Projeto do Parque Rei Salman (King Salman Park), em Riade, Arábia Saudita, é para 2030
Você acredita que um megaparque como esse realmente muda a vida cotidiana, ou vira apenas um cartão postal caro para turistas e eventos?

