Sistema submarino de 500 km no Atlântico revela como placas tectônicas rasgaram o oceano há milhões de anos e formaram estruturas gigantes.
Em 2026, pesquisadores internacionais divulgaram novos resultados sobre uma das estruturas geológicas mais intrigantes do fundo do oceano Atlântico: o King’s Trough Complex, localizado a cerca de 1.000 quilômetros da costa de Portugal. Segundo estudo liderado pelo GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research Kiel e publicado na revista científica Geochemistry, Geophysics, Geosystems, análises baseadas em sonar de alta resolução, dados batimétricos adicionais e investigações geoquímicas permitiram esclarecer a origem desse sistema submarino com cerca de 500 quilômetros de extensão.
O dado mais impactante da pesquisa é que essa imensa estrutura começou a se formar entre aproximadamente 37 e 24 milhões de anos atrás, quando uma fronteira tectônica temporária entre as placas europeia e africana passou por essa região do Atlântico Norte. Segundo os autores, o fundo oceânico foi estirado e fraturado progressivamente de leste para oeste, em um processo comparado ao funcionamento de um “zíper”.
Essa revelação posiciona o King’s Trough Complex como um dos exemplos mais impressionantes de dinâmica tectônica no Atlântico, ampliando o entendimento sobre como a interação entre movimentos de placas e atividade profunda do manto terrestre pode remodelar o fundo oceânico em escala gigantesca ao longo do tempo geológico.
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Sistema submarino rivaliza com grandes formações terrestres em escala
O King’s Trough Complex não é apenas mais uma irregularidade no relevo oceânico. Trata-se de um sistema composto por vales profundos, escarpas e estruturas lineares que se estendem por centenas de quilômetros.
Com cerca de 500 km de comprimento, a estrutura passa a ser frequentemente comparada a grandes formações terrestres como o Grand Canyon, nos Estados Unidos. Embora as características geológicas sejam diferentes, a escala longitudinal impressiona.
Essa extensão coloca o sistema entre as maiores feições lineares já identificadas no fundo do Atlântico, evidenciando a capacidade das forças tectônicas de moldar o planeta em dimensões que muitas vezes passam despercebidas pela superfície.
A maior parte dessas formações permanece invisível ao olhar humano direto, sendo revelada apenas por tecnologias modernas de mapeamento oceânico.
Formação está ligada a um evento tectônico raro entre Europa e África
A origem do King’s Trough Complex está diretamente associada a um evento tectônico considerado incomum na história geológica do Atlântico.
Durante o período entre 37 e 24 milhões de anos atrás, uma zona de fraqueza se desenvolveu entre as placas tectônicas da Europa e da África. Essa região passou a funcionar como uma fronteira temporária, permitindo que forças internas da Terra criassem uma abertura progressiva no fundo do oceano.
Esse processo não ocorreu de forma abrupta, mas sim gradual, com o fundo oceânico sendo deformado e estendido ao longo de milhões de anos, criando uma estrutura linear comparável a um rasgo contínuo.
Esse tipo de fenômeno ajuda a explicar como o planeta evolui estruturalmente ao longo do tempo, revelando que as placas tectônicas não são sistemas estáticos, mas dinâmicos e sujeitos a mudanças complexas.
Vulcanismo dos Açores desempenhou papel fundamental na formação
Outro fator determinante para a formação do sistema foi a atividade vulcânica associada à região dos Açores.
A área onde o King’s Trough Complex se encontra está próxima de uma zona conhecida por intensa atividade geológica, influenciada por uma pluma mantélica — uma corrente de material quente que sobe do interior da Terra.

Os estudos indicam que um braço primitivo desse sistema vulcânico contribuiu para enfraquecer a crosta oceânica, facilitando o processo de ruptura tectônica que deu origem ao complexo.
Esse tipo de interação entre vulcanismo e tectônica é fundamental para compreender como grandes estruturas submarinas são formadas.
Tecnologia de sonar de alta resolução foi essencial para a descoberta
Embora o King’s Trough já fosse conhecido há décadas, a compreensão detalhada de sua origem só foi possível graças ao avanço tecnológico.
O uso de sonar multifeixe de alta resolução, combinado com dados sísmicos e análise de amostras geológicas, permitiu mapear com precisão a topografia do fundo oceânico.
Essas tecnologias revelaram detalhes antes invisíveis, como a continuidade das estruturas, profundidades exatas e padrões de deformação que indicam claramente a ação tectônica.
O avanço no mapeamento oceânico tem permitido aos cientistas descobrir e reinterpretar estruturas que estavam ocultas sob quilômetros de água.
Peake Deep se destaca como um dos pontos mais profundos da região
Dentro do sistema, um dos pontos que mais chama atenção é o chamado Peake Deep, considerado uma das áreas mais profundas do complexo.
Embora não seja o ponto mais profundo de todo o Atlântico, ele se destaca dentro da estrutura por sua profundidade significativa e pela forma como se integra ao sistema de vales submarinos.
Essa região ajuda a ilustrar a intensidade das forças que atuaram durante a formação do complexo, criando depressões profundas em escala oceânica. Esses ambientes também são de grande interesse científico por suas condições extremas e possíveis ecossistemas únicos.
Estruturas submarinas revelam dinâmica invisível do planeta
O estudo do King’s Trough Complex reforça uma ideia central na geologia moderna: grande parte das transformações do planeta ocorre longe da superfície visível.
O fundo oceânico, que cobre mais de 70% da Terra, ainda é menos conhecido do que muitos ambientes terrestres. Estruturas como essa demonstram que há processos em andamento — ou registrados no passado — que moldam o planeta em escalas gigantescas.
A análise dessas formações permite reconstruir eventos geológicos antigos, entender movimentos tectônicos e prever comportamentos futuros das placas.
Comparação com outras formações amplia compreensão geológica
Embora o King’s Trough Complex seja frequentemente comparado ao Grand Canyon, as diferenças são importantes. Enquanto o Grand Canyon foi formado por erosão fluvial ao longo de milhões de anos, o sistema do Atlântico é resultado de forças tectônicas internas.
Essa distinção mostra que estruturas semelhantes em aparência podem ter origens completamente diferentes, reforçando a complexidade dos processos geológicos. Ainda assim, a comparação em termos de escala ajuda a dimensionar a magnitude da estrutura.
Os resultados divulgados em 2026 contribuem diretamente para o entendimento da evolução do oceano Atlântico. O estudo indica que o oceano não se formou apenas por processos simples de separação de placas, mas por eventos mais complexos, incluindo fases intermediárias e fronteiras temporárias.
Esse tipo de descoberta ajuda a refinar modelos geológicos e melhora a compreensão sobre como continentes e oceanos evoluem ao longo do tempo.

