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200 mil refugiados foram parar num deserto na Etiópia e mudaram tudo: cavaram canais, usaram energia solar e transformaram terra morta em fazendas produtivas, algo que até imagens de satélite registraram como impossível poucos anos antes

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 15/02/2026 às 10:36 Atualizado em 15/02/2026 às 10:39
Assista o vídeoDeserto em Melkadida: refugiados formam cooperativas, ampliam irrigação e recuperam solo, transformando crise hídrica em produção local.
Deserto em Melkadida: refugiados formam cooperativas, ampliam irrigação e recuperam solo, transformando crise hídrica em produção local.
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Em Melkadida, no sudeste da Etiópia, a pressão de 200 mil refugiados sobre um deserto já frágil parecia anunciar fome, conflito e erosão irreversível, mas um arranjo entre comunidades locais, cooperativas mistas, irrigação solar e manejo do solo recuperou mais de mil hectares e reescreveu a economia regional duradoura ali.

No deserto semidesértico de Melkadida, no sudeste da Etiópia, a chegada de mais de 200 mil refugiados somalis entre 2009 e 2011 pressionou uma paisagem que já vivia no limite: pouca chuva, calor acima de 40 °C, solo com baixíssima matéria orgânica e infraestrutura praticamente inexistente. O cenário inicial reunia todos os fatores de uma crise prolongada.

A mudança veio quando uma resposta emergencial passou a ser tratada como estratégia de longo prazo. Com canais de irrigação, bombeamento por energia solar, recuperação de solo e cooperativas mistas entre refugiados e comunidades anfitriãs, a região saiu de uma trajetória de degradação contínua para um ciclo de produção agrícola, renda local e reorganização social.

Quando 200 mil pessoas chegam a um território já no limite

Campos em torno de Dollo Ado.

Antes do pico de deslocamento forçado, a região já enfrentava sinais severos de exaustão ambiental. A precipitação anual baixa, frequentemente abaixo do necessário para agricultura de sequeiro, combinada a temperaturas extremas, deixava o solo mais suscetível à compactação, à erosão e à perda de fertilidade. O problema não era só falta de água; era incapacidade do solo de absorver e reter água.

Com o crescimento acelerado dos campos em torno de Dollo Ado, a pressão por lenha, pastagens e água aumentou em ritmo muito superior à capacidade local de reposição.

Árvores foram derrubadas, a cobertura vegetal diminuiu e as tensões entre moradores e recém-chegados se intensificaram. Nesse contexto, o deserto não avançava apenas por causa do clima, mas também por um acúmulo de decisões de sobrevivência imediata.

O ponto de virada: canais, energia solar e divisão de benefícios

A inflexão começou com um projeto de longo prazo financiado pela Fundação IKEA, em parceria com o ACNUR e autoridades etíopes, com investimento acumulado de grande escala.

A cooperativa de Elias opera a minirrede solar em Melkadida desde 2020. Ela fornece energia limpa e confiável para residências e comércios locais.

Em vez de apostar apenas em assistência pontual, o desenho incluiu infraestrutura produtiva: cerca de 20 quilômetros de canais de irrigação e bombeamento movido a energia solar, solução coerente para uma área com muitas horas de sol e rede elétrica distante.

A escolha técnica veio acompanhada de uma escolha política: dividir terra, acesso e resultados em 50/50 entre refugiados e comunidade anfitriã. Essa regra reduziu o risco de exclusão econômica de um dos lados e ajudou a conter ressentimentos.

No deserto, onde recursos são escassos e disputados, esse tipo de governança compartilhada se tornou tão importante quanto a obra física.

Como o solo saiu da rota de colapso para voltar a produzir

A recuperação não se resumiu a levar água de um ponto a outro. Em solos com menos de 1% de matéria orgânica, a infiltração é baixa e a superfície tende a selar.

Sem correção de manejo, a irrigação pode inclusive piorar o quadro por salinização. Por isso, o pacote técnico incluiu rotação de culturas, devolução de biomassa ao solo e planejamento de irrigação para reduzir evaporação.

Com o tempo, os sistemas radiculares e os resíduos orgânicos ajudaram a abrir porosidade no terreno, elevando gradualmente a capacidade de infiltração e retenção hídrica.

Esse processo permitiu estabilizar ciclos produtivos em ambiente árido e expandir o cultivo para mais de mil hectares recuperados. Foi uma recuperação construída por etapas, não um “milagre instantâneo” no deserto.

Da sobrevivência à renda: cooperativas, mercados e energia

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Com o solo mais funcional, 13 culturas passaram a ser plantadas, com casos de até três colheitas por ano. Milho, cebola, tomate, feijão, sorgo, melancia e outras lavouras mudaram a lógica econômica local: uma área antes dependente de importações começou a gerar excedente e comércio. Em paralelo, cooperativas mistas ganharam escala e participação social.

Outro eixo relevante foi o manejo de espécie invasora transformada em combustível. Grupos, inclusive cooperativas de mulheres, passaram a converter biomassa em briquetes, reduzindo dependência de lenha e criando nova renda.

Quando controle ambiental vira atividade econômica viável, a restauração deixa de depender só de projeto e passa a depender de interesse local contínuo. Esse foi um dos elementos que conectaram recuperação ecológica, segurança doméstica e autonomia financeira.

O que os satélites registraram e o que os números realmente mostram

As imagens de satélite passaram a mostrar, em poucos anos, um contraste forte entre áreas antes classificadas como solo nu e zonas com cobertura agrícola ativa.

Esse “antes e depois” ajudou a comprovar que a intervenção não ficou restrita ao discurso: houve mudança territorial observável. Em avaliação acadêmica, os indicadores também apontaram avanço em renda, cooperação produtiva e inclusão financeira para parte dos participantes.

Ao mesmo tempo, os resultados exigem leitura sem euforia. Nem todos entraram no mesmo ritmo: parte das cooperativas prosperou mais que outras, a governança foi desigual em alguns pontos e muitos refugiados continuaram dependentes de assistência alimentar.

A experiência mostra capacidade real de transformação no deserto, mas também deixa claro que escala, estabilidade e continuidade institucional são desafios permanentes.

O legado político e os riscos que ainda cercam o modelo

A experiência em Melkadida influenciou debates mais amplos sobre política de refúgio na Etiópia, com avanços em direitos e integração econômica, incluindo acesso a trabalho, serviços e instrumentos formais como contas bancárias.

No campo institucional, o caso reforçou a ideia de que refugiados podem atuar como agentes econômicos e não apenas como destinatários de ajuda.

Mas a sustentabilidade futura depende de variáveis críticas. O sistema hídrico local está ligado ao comportamento do rio que abastece a região, sujeito a variabilidade climática e disputas de uso a montante.

Se o fluxo reduzir de forma relevante, todo o arranjo produtivo do deserto fica pressionado. Em outras palavras: a prova de conceito foi dada; a prova de permanência ainda está em andamento.

A história de Melkadida não elimina a dureza da crise climática nem simplifica o drama do deslocamento forçado.

O que ela evidencia é que, sob condições extremas, projetos bem desenhados podem combinar engenharia, ciência do solo, governança social e mercado para reduzir vulnerabilidade e reconstruir perspectiva de longo prazo.

Agora vale uma reflexão concreta: na sua região, qual recurso hoje tratado como problema água sazonal, biomassa invasora, solo degradado ou energia cara poderia virar base de produção sem aumentar conflito local? E, na sua visão, o que deveria vir primeiro para funcionar: infraestrutura, regras de divisão de ganhos ou acesso a mercado?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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