A rotina de um passageiro que viveu 18 anos em um aeroporto, entre burocracias, buscas de identidade e atenção mundial, revela como fronteiras e documentos podem decidir destinos humanos em situações extremas.
Sua rotina meticulosa e dignidade conquistaram a atenção de viajantes, jornalistas e cineastas ao longo de quase duas décadas
Por 18 anos seguidos, o Terminal 1 do Aeroporto Charles de Gaulle, na região de Paris, foi o endereço oficial de um único passageiro.
Mehran Karimi Nasseri, iraniano conhecido como Sir Alfred, instalou-se em um banco vermelho na área de embarque e viveu em limbo jurídico depois de perder – ou descartar – os documentos que comprovavam seu status de refugiado.
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O aeroporto tornou-se sua casa, escritório e cenário de uma história que viraria referência mundial sobre fronteiras e burocracia.
Mesmo após finalmente deixar o aeroporto, em 2006, Nasseri voltou ao Charles de Gaulle em 2022.
Foi ali, entre esteiras de bagagem e o fluxo constante de passageiros, que morreu em 12 de novembro daquele ano, aos 77 anos, após um ataque cardíaco.
Origem de Mehran e início da busca por refúgio
Grande parte do que se sabe sobre a vida de Nasseri antes do aeroporto vem de relatos feitos por ele próprio.
Nascido em 1945 em Masjed Soleyman, no Irã, ele contava que a morte do pai, em 1972, marcou uma ruptura em sua trajetória.
Segundo ele, foi nesse período que descobriu não ser considerado um filho legítimo e que sua mãe biológica seria estrangeira.

Pouco depois, deixou o Irã para estudar no Reino Unido.
Nos anos 1970, voltou ao país em meio a tensões políticas.
Ele relatava ter sido perseguido por apoiar movimentos contrários ao xá Mohammad Reza Pahlavi, chegando a ser preso e torturado pelo SAVAK, que também teria cassado sua cidadania.
Investigações posteriores, no entanto, indicaram divergências nessa biografia, reforçando a imagem de que sua identidade estava em disputa.
Sem vínculos claros com nenhum Estado, passou a circular pela Europa em busca de proteção.
Em 1981, a Bélgica reconheceu seu status de refugiado e concedeu documentos válidos.
A partir desse ponto, Nasseri buscou chegar ao Reino Unido, onde dizia acreditar que encontraria sua mãe biológica.
Como o aeroporto virou moradia permanente
Em 1988, na tentativa de chegar ao território britânico, Nasseri perdeu seus documentos.
Em algumas versões, ele afirmava ter sido roubado. Em outras, admitia ter se desfeito dos papéis.
Sem identificação, foi impedido de entrar no Reino Unido e devolvido à França.
Ao retornar para Charles de Gaulle, já sem documentos, ficou retido na área de trânsito internacional.
A França não podia deportá-lo, e ele também não conseguia cruzar a fronteira de saída.
Foi assim que o Terminal 1 se tornou sua moradia pelos 18 anos seguintes.
A rotina disciplinada de Nasseri no Terminal 1
Com o tempo, Nasseri improvisou um pequeno “quarto” no terminal.
Ao lado do banco vermelho onde dormia, mantinha malas e papéis meticulosamente empilhados.
Apesar do ambiente hostil, fazia questão de manter roupas limpas, o bigode aparado e a bagagem organizada. A higiene diária era feita nos banheiros públicos.

As refeições aconteciam em horários fixos, sempre de maneira rigorosa. Com o passar dos anos, funcionários e passageiros passaram a reconhecê-lo.
Muitos levavam alimentos, roupas, jornais e, ocasionalmente, algum dinheiro. Turistas faziam questão de confirmar sua presença no terminal.
Atenção midiática e transformação em símbolo mundial
A permanência tão longa chamou a atenção da imprensa internacional. Repórteres de vários países o entrevistaram, e documentaristas acompanharam seu cotidiano.
Entre eles estava Paul Berczeller, que registrou sua rotina em produções para a televisão britânica.
Nasseri escrevia longamente em cadernos e papéis que ficavam ao lado das malas. Esse material serviria de base para o livro “The Terminal Man”, publicado em 2004.
Enquanto aviões e passageiros circulavam sem parar, ele permanecia no mesmo banco, o que o transformou em símbolo de vidas suspensas pela burocracia.
Turistas que desembarcavam em Paris procuravam o banco vermelho do Terminal 1 como um ponto turístico alternativo.
A batalha jurídica que nunca avançou
A situação de Nasseri era acompanhada por seu advogado, o francês Christian Bourget.
A Justiça reconheceu que ele havia entrado legalmente no país como refugiado.
Assim, a França não poderia expulsá-lo, mas também não tinha obrigação de conceder visto de entrada formal.
A Bélgica se dispunha a reemitir os documentos, desde que ele se apresentasse pessoalmente e aceitasse supervisão social.
Nasseri recusou.
Outras ofertas de residência foram apresentadas, inclusive pela França.
Em mais de uma ocasião, autoridades ofereceram regularização, mas os documentos o identificavam como iraniano.
Como ele havia adotado o nome Sir Alfred Mehran, recusou-se a assinar.
O impasse, então, passou também por decisões pessoais.
Mesmo vulnerável, ele já havia criado laços afetivos com o terminal e sua rotina.
Impacto cultural e referência para o filme “O Terminal”
A história de Nasseri inspirou produções em diferentes países.

A mais famosa é o filme “O Terminal”, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2004.
Tom Hanks protagonizou o longa, baseado na premissa de um passageiro obrigado a viver em um aeroporto por causa de um imbróglio de documentos.
A repercussão do filme atraiu ainda mais curiosos ao Terminal 1.
Nasseri recebeu dinheiro pelos direitos de sua história.
Mesmo assim, continuou no banco vermelho, com a mesma rotina de horários fixos.
Doença, saída forçada e retorno anos depois
A permanência no aeroporto terminou apenas em 2006, quando problemas de saúde o levaram a um hospital.
Seu espaço no terminal foi desmontado.
Depois da alta, ele passou por um hotel próximo e, depois, por um abrigo da organização Emmaus, em Paris.
Nos anos seguintes, viveu em estruturas de acolhimento social.
Em 2022, voltou ao noticiário ao retornar ao Aeroporto Charles de Gaulle.
Dessa vez, permaneceu no Terminal 2F, como pessoa em situação de rua.
Em 12 de novembro de 2022, sofreu um ataque cardíaco e morreu no local.
Ainda hoje, a trajetória de Sir Alfred provoca reflexão sobre até que ponto fronteiras e decisões administrativas determinam onde alguém pode viver.
