Uma imagem de satélite revelou um traçado raro no deserto de Taklamakan, onde relevo, água, jade e vestígios de um antigo forte militar se cruzam em um mesmo ponto da paisagem no oeste da China.
Uma imagem de satélite registrada sobre o deserto de Taklamakan, no oeste da China, destacou uma formação em “Y” no encontro entre o rio Hotan e a crista montanhosa de Marztagh.
No mesmo ponto, ficam as ruínas de Mazar Tagh, um forte militar datado do século 8, em uma área associada à circulação de rotas comerciais na Ásia Central.
O Taklamakan está na bacia do Tarim, na região chinesa de Xinjiang, e ocupa cerca de 337 mil quilômetros quadrados.
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Em estudos e reportagens recentes, a área aparece ligada tanto às condições extremas de aridez quanto a projetos de contenção da desertificação no entorno do deserto.

Como o formato em “Y” aparece na paisagem
O desenho observado do espaço resulta do encontro de duas feições naturais.
O rio Hotan, também chamado de Khotan, atravessa o deserto de sul para norte por cerca de 290 quilômetros.
Já Marztagh é descrita pela Nasa como uma formação alongada, semelhante a uma parede rochosa, que se eleva cerca de 180 metros acima das dunas e se estende por até 145 quilômetros em direção ao noroeste.
Na imagem, o rio aparece em tons esverdeados por causa da vegetação que cresce entre os canais.
Ao lado dele, a crista rochosa se destaca pela alternância entre faixas avermelhadas, ligadas a rochas ricas em ferro, e camadas mais claras de arenito.
Em chinês, a formação também recebe o nome de Hongbaishan, expressão que significa “montanha vermelha e branca”.
Também há impacto direto no relevo ao redor.
Marztagh atua como barreira natural para a areia transportada pelo vento, favorecendo a formação de dunas em meia-lua, conhecidas como barcanas, sobretudo na borda norte da crista.
O rio Hotan e a presença histórica de jade
Além do traçado, o Hotan é conhecido pela relação histórica com a nefrite.
Alimentado pelo degelo vindo das montanhas Kunlun, ao sul do deserto, o rio está associado à presença de jade branco e jade verde, materiais valorizados há séculos na região.

Esse conjunto de características ajuda a explicar a relevância histórica da área.
A presença de água, abrigo relativo diante do avanço da areia e acesso a recursos minerais transformou esse trecho do deserto em ponto de apoio para deslocamentos e trocas comerciais.
O ponto estratégico na Rota da Seda
A área onde rio e crista se encontram foi integrada à rede de caminhos que mais tarde ficou conhecida como Rota da Seda.
Em vez de uma estrada única, tratava-se de um sistema de rotas que conectava diferentes regiões da Ásia ao longo de vários séculos.
Nesse contexto, o local reunia condições práticas para circulação e vigilância.
Foi ali que se estabeleceu Mazar Tagh, um forte militar erguido no alto de uma elevação junto ao vértice do “Y”.
O sítio é associado ao Império Tibetano, que existiu entre 618 e 842 d.C. e exerceu influência sobre áreas amplas do planalto tibetano e de territórios vizinhos.
O que foi encontrado em Mazar Tagh
Hoje, o sítio preserva restos da antiga fortificação e se tornou uma referência para o estudo da ocupação humana nessa faixa da Ásia Central.
A escavação mais conhecida foi conduzida em 1907 pelo arqueólogo húngaro-britânico Aurel Stein.
Durante os trabalhos, foram localizados mais de 1.500 fragmentos de documentos em madeira e papel.
Segundo o International Dunhuang Programme, os textos aparecem em idiomas como khotanês, uigur e sogdiano, o que indica a diversidade linguística da área e o papel administrativo e militar do posto.

As escavações também recuperaram objetos de uso cotidiano, entre eles flechas, bainhas, calçados, dados, um pente e uma caneta.
Parte desse material integra coleções ligadas ao espólio de Stein no Reino Unido, incluindo acervos do British Museum.
Entre os itens mais citados nas descrições do sítio está a pintura de um “monge mendicante” em uma placa de madeira.
De acordo com relatos associados ao achado, a peça pode ter sido produzida por um soldado.
O material costuma ser mencionado por pesquisadores por indicar a convivência, no mesmo espaço, entre atividade militar e práticas religiosas.
Um mesmo morro com camadas religiosas e históricas
Antes da instalação do forte, o morro já era associado a um local de peregrinação budista, segundo o International Dunhuang Programme.
Atualmente, o mesmo ponto abriga um santuário islâmico, o que ajuda a dimensionar a longa ocupação simbólica e estratégica da área.
A formação vista do espaço ganhou repercussão também por aparecer em uma fase de maior atenção sobre o Taklamakan.
Nas últimas décadas, a China ampliou cinturões de vegetação e ações de contenção da desertificação no entorno do deserto.
O programa Three-North Shelterbelt, frequentemente chamado de “Grande Muralha Verde”, começou em 1978, e a imprensa estatal chinesa informou em novembro de 2024 a conclusão de um cinturão verde de cerca de 3 mil quilômetros ao redor do Taklamakan.

Pesquisas recentes indicam que áreas reflorestadas no entorno passaram a funcionar como sumidouros de carbono em determinados períodos do ano.
Os estudos, no entanto, tratam de setores influenciados por reflorestamento e aumento de vegetação, não de uma mudança uniforme em todo o núcleo do deserto, que continua marcado por condições extremas de aridez.
A imagem, portanto, reúne em um mesmo enquadramento dados geográficos, históricos e arqueológicos já documentados.
No centro do Taklamakan, o encontro entre rio, crista rochosa e ruínas de um forte do século 8 mostra como um traço visível do espaço pode concentrar informações sobre ambiente, circulação comercial e ocupação humana ao longo do tempo.

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