Três mesas escuras no Saara ajudam a revelar, em imagens vistas do espaço, como formações rochosas antigas ainda interferem no desenho das dunas e no movimento da areia em uma das paisagens mais áridas do planeta.
Uma foto feita por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional, em 3 de maio de 2023, mostra três mesas escuras alinhadas no sul da Mauritânia, no Saara, cercadas por dunas que se concentram de um lado e quase desaparecem do outro.
O registro, feito nas proximidades de Guérou, reúne remanescentes de uma antiga formação de arenito da era Paleozoica e ajuda a visualizar como o relevo pode interferir na circulação dos ventos e na distribuição de areia em uma área desértica.
As estruturas ficam a cerca de 13 quilômetros a noroeste de Guérou e se destacam pelo topo achatado e pelas encostas íngremes.
-
Um homem foi ao supermercado na China com o salário de um único dia de trabalho e o que ele colocou no carrinho vai fazer qualquer brasileiro questionar por que paga tão caro para comer tão pouco
-
Homem cria ilhas flutuantes em lago de mais de 20 mil metros quadrados e solta 10 mil peixes-isca
-
Pai dizia que era impossível, e uma tempestade enterrou a primeira safra em uma noite, mas jovem chinês hoje colhe alfafa até seis vezes por ano em 1.530 hectares do deserto de Taklimakan
-
Mulher começa projeto da casa própria no terreno, monta deck de 8×8 metros, enfrenta solo duro, improvisa acampamento e vê obra parar após madeira acabar no meio do serviço
Segundo a NASA, essas mesas se elevam entre 300 e 400 metros acima da planície ao redor.
A maior delas alcança aproximadamente 9,5 quilômetros em seu ponto mais largo, dimensão que explica a visibilidade do conjunto em imagens feitas do espaço.
Mesas escuras no Saara e a formação geológica na Mauritânia
A coloração escura observada na superfície rochosa está associada ao chamado verniz de rocha, uma película típica de ambientes áridos, enriquecida por manganês e outros minerais.
A Earth Observatory, da NASA, descreve esse revestimento como comum em rochas expostas por longos períodos em desertos.
Estudos de referência sobre o tema também apontam que esse verniz apresenta camadas muito finas e composição ligada a argilas e óxidos, sobretudo de manganês e ferro.
Além do aspecto escurecido, a origem geológica do conjunto ajuda a explicar a paisagem atual.
De acordo com a NASA, as três mesas são remanescentes de uma antiga formação de arenito da era Paleozoica, intervalo geológico que se estendeu de 541 milhões a 251,9 milhões de anos atrás.

Ao longo de milhões de anos, a erosão causada pela água e pelo vento fragmentou esse bloco rochoso mais amplo, deixando porções isoladas na superfície desértica.
Essas formações se encaixam na definição geológica de mesa, relevo isolado de topo relativamente plano e lados íngremes, moldado por processos erosivos.
O fenômeno não é exclusivo da Mauritânia e aparece em outras regiões áridas do planeta.
Nesse caso, porém, a disposição das dunas ao redor das rochas é o ponto que mais chama a atenção de pesquisadores da paisagem porque permite observar, em escala ampla, a relação entre relevo, vento e sedimento.
Como o relevo altera o caminho da areia no deserto
Na imagem, a diferença mais evidente aparece na distribuição dos sedimentos.
A leste e a nordeste das mesas, a superfície exibe depósitos arenosos em tons amarelados a avermelhados.
No lado oposto, por sua vez, o terreno rochoso permanece com pouca areia visível.
Esse contraste está ligado à forma como o relevo modifica o comportamento dos ventos de superfície.
Conforme a NASA, os ventos dominantes nessa parte do Saara sopram do nordeste.
Quando a corrente de ar carregada de areia encontra as encostas e elevações associadas às mesas, parte desse material perde velocidade e se deposita.
O processo favorece a formação de dunas junto às vertentes e em áreas próximas ao conjunto rochoso.
O registro permite identificar ao menos dois tipos de dunas.
As maiores, acumuladas junto às encostas, são classificadas como climbing dunes, ou dunas de escalada

Já as menores, mais afastadas, têm formato de meia-lua e pertencem ao tipo conhecido como barcana, comum em desertos com oferta limitada de areia e vento predominante em uma direção.
Na prática, a imagem mostra duas respostas distintas da paisagem ao mesmo fluxo de ar.
Perto das paredes rochosas, a areia se acumula nas áreas em que o vento perde força.
Mais adiante, ela se reorganiza em formas menores e repetidas, alinhadas segundo a direção dominante da circulação atmosférica.
Segundo a Earth Observatory, a influência dessas mesas sobre o transporte de sedimentos pode se estender por até 15 quilômetros.
Isso significa que o efeito do relevo não se restringe ao entorno imediato das rochas e pode moldar a superfície em uma faixa mais ampla da planície desértica.
Por que um lado das mesas quase não acumula areia
Se em uma face das mesas a areia se acumula, na outra ocorre o processo inverso.
A ausência de dunas na porção oposta está ligada a um mecanismo conhecido como wind scour, expressão usada para descrever a remoção de sedimentos pelo vento.
Nesse caso, o formato das elevações favorece a formação de redemoinhos e vórtices depois que o ar ultrapassa o obstáculo rochoso.
Esses movimentos podem acelerar o escoamento do vento em vez de desacelerá-lo.
Quando isso ocorre, os grãos deixam de se depositar e passam a ser removidos da superfície.
É por essa razão que a planície rochosa a oeste das mesas aparece com menos areia do que a área situada na face diretamente influenciada pelos ventos dominantes.
O contraste observado na foto, portanto, não indica apenas a presença de dunas em um lado e sua ausência no outro.
Ele também revela dois comportamentos distintos do mesmo sistema físico.
De um lado, o relevo cria condições para retenção de sedimentos; do outro, favorece a retirada desse material.

O que a imagem orbital revela sobre a dinâmica do Saara
Outra foto de astronauta, feita em 2014, já havia mostrado uma área mais ampla desse setor do Saara, com extensão maior das barcanas e presença de outras elevações semelhantes no entorno.
O registro de 2023, no entanto, destaca com mais nitidez a relação entre as superfícies escuras das mesas e os depósitos de areia ao redor, oferecendo um exemplo visual mais preciso desse processo geomorfológico.
A comparação entre essas imagens ajuda a situar o trio dentro de um quadro geológico mais amplo.
A NASA relaciona as mesas a uma antiga formação sedimentar desmembrada pela erosão, processo que também ajuda a explicar outras feições marcantes da Mauritânia.
Entre elas está a Estrutura de Richat, conhecida como “Olho do Saara”, descrita pela agência espacial como um conjunto de anéis rochosos com cerca de 45 quilômetros de diâmetro, também visível do espaço.
Mesas existem em várias partes do planeta.
O National Park Service, dos Estados Unidos, destaca a presença desse tipo de relevo em estados como Colorado, Novo México, Utah e Arizona.
Em todos esses casos, trata-se de formas associadas à erosão diferencial, quando materiais mais resistentes permanecem em destaque enquanto áreas vizinhas sofrem maior desgaste ao longo do tempo.
No deserto mauritano, a imagem chama atenção porque reúne, no mesmo enquadramento, diferentes camadas da história geológica e da dinâmica atual da superfície.
As rochas escuras registram processos lentos, desenvolvidos em escalas de milhões de anos.
Já as dunas revelam mudanças contínuas, guiadas pelo transporte de areia e pela ação persistente do vento.
Esse tipo de registro costuma interessar à ciência porque permite observar fenômenos de larga escala com clareza incomum.
Vistas do espaço, as três mesas próximas de Guérou funcionam como um exemplo de como formas antigas do relevo continuam influenciando a organização da paisagem atual no Saara.

-
-
-
-
-
-
58 pessoas reagiram a isso.