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Vinte e dois anos depois de entrar em serviço, a família E-Jet chegou à aeronave de número 2.000 e colocou a Embraer no clube das três maiores da aviação comercial, atrás apenas do A320 e do 737

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 11:23 Atualizado em 04/09/2026 às 11:38
Jato comercial E195-E2 em aproximação final
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A Embraer entregou no dia 2 de setembro o E-Jet de número 2.000, um E195-E2 destinado à Azul, e com essa aeronave a família brasileira entrou no grupo das três maiores da aviação comercial, atrás apenas do A320, da Airbus, e do 737, da Boeing.

O avião entregue é também o quinquagésimo E2 recebido pela Azul, que se tornou a maior operadora mundial da segunda geração da família. A companhia brasileira apostou cedo no modelo e usa a aeronave para ligar cidades de porte médio, num desenho de malha que depende de avião com capacidade intermediária, algo entre o jato regional pequeno e o corredor único de 180 assentos.

Além disso, os números acumulados do programa dão a dimensão do que essas 2.000 entregas significam. A família entrou em serviço em 2004, ou seja, levou 22 anos para chegar a essa marca. Ao longo desse período, os E-Jets passaram a voar por mais de 90 companhias aéreas em mais de 60 países, acumularam cerca de 48 milhões de horas de voo e transportaram mais de 2,85 bilhões de passageiros.

Jato E2 da Embraer em solo na pista

O nicho que a Embraer encontrou e ninguém disputou de verdade

Em primeiro lugar, é preciso lembrar onde a aviação comercial se concentra. Airbus e Boeing dominam a faixa dos jatos de corredor único com 150 a 230 assentos, que é onde está o grosso do mercado mundial. Abaixo disso, na faixa de 70 a 146 assentos, o espaço sempre foi mais estreito e menos rentável, porque o custo por assento sobe quando o avião encolhe.

Nesse contexto, a Embraer construiu o E-Jet exatamente nessa fresta. O raciocínio comercial é simples: existem milhares de rotas no mundo que não sustentam um avião de 180 lugares voando cheio, mas sustentam bem um de 100 a 130. Companhia que insiste em operar essas rotas com aeronave grande demais voa com poltrona vazia; a que opera com aeronave pequena demais deixa passageiro em terra. Foi essa conta que a fabricante brasileira transformou em programa industrial de duas décadas.

De fato, um detalhe técnico ajuda a entender por que esse nicho é difícil. Avião comercial tem custo fixo alto por decolagem: tripulação, taxa aeroportuária, manutenção programada, seguro. Esse custo não cai pela metade quando o avião tem metade dos assentos. Por isso, jato pequeno tende a ter custo por passageiro mais alto, e só compensa quando a rota realmente não sustenta demanda maior. Projetar uma aeronave que feche essa conta exige eficiência de combustível e de manutenção acima da média.

Em seguida, a segunda geração levou o mesmo conceito adiante com motores novos, asa redesenhada e ganho relevante de eficiência por assento. É um avião mais econômico que o antecessor, o que importa muito em um setor onde combustível responde por uma fatia enorme do custo operacional. Além disso, o E195-E2 chegou perto do limite superior do nicho, com capacidade que já encosta na faixa dos jatos maiores.

E195-E2 em voo visto de baixo

O que 2,85 bilhões de passageiros dizem sobre a indústria brasileira

Confesso que esse é o número que mais me impressiona da lista. Transportar 2,85 bilhões de pessoas equivale a mais de um terço da população mundial, ainda que boa parte seja passageiro repetido. É um volume que só se atinge com aeronave voando todos os dias, em dezenas de países, por mais de duas décadas, com disponibilidade e manutenção funcionando. Avião que quebra muito não acumula 48 milhões de horas de voo.

Ainda assim, vale registrar o que isso representa para a cadeia industrial. Um programa aeronáutico com 2.000 unidades entregues sustenta fornecedores de estrutura, aviônica, trem de pouso, interiores e serviços por décadas, dentro e fora do país. A engenharia envolvida em certificar e manter uma família de aeronaves em mais de 60 jurisdições regulatórias é um ativo que não aparece em balanço, mas que explica por que tão poucos países conseguem fabricar jato comercial.

Por outro lado, a escolha da Azul como destinatária da aeronave de número 2.000 também tem lógica. Uma companhia brasileira recebendo o marco de um fabricante brasileiro fecha um circuito raro na indústria nacional, em que projeto, fabricação e operação acontecem dentro do mesmo país. Não é exclusividade do Brasil, mas está longe de ser comum.

A geografia brasileira ajuda a explicar por que o modelo pegou aqui dentro. O país tem dezenas de cidades médias distantes centenas de quilômetros umas das outras, muitas sem alternativa rodoviária razoável, e com demanda que não enche um jato grande. É exatamente o cenário que o E-Jet foi desenhado para atender, e não por acaso a maior operadora mundial do E2 é brasileira.

Do ponto de vista de mercado, chegar ao terceiro lugar entre as famílias de jatos comerciais tem valor comercial concreto. Companhia aérea decide compra olhando também para a rede de suporte, a disponibilidade de peças e o valor de revenda da aeronave. Família com 2.000 unidades entregues e frota espalhada por mais de 60 países oferece as três coisas, o que reduz o risco percebido por quem assina uma encomenda de longo prazo.

O que vem depois do E-Jet de número 2.000

O programa E-Jet não é uma história encerrada, e sim uma família em transição. A primeira geração ainda voa em larga escala, com uma frota que vai gerar demanda de manutenção e de peças por muitos anos, enquanto o E2 ocupa a linha de produção e as encomendas novas. Portanto, o marco de agora é menos um encerramento e mais um ponto de virada entre duas gerações do mesmo produto.

No entanto, a questão aberta é o passo seguinte. Fabricante que domina um nicho enfrenta sempre a mesma encruzilhada: ficar onde é forte, com risco de estagnar, ou tentar subir de faixa e disputar terreno com quem tem escala muito maior. A Embraer chegou a 2.000 entregas fazendo a primeira coisa muito bem. O que ela decidir sobre a segunda vai definir o tamanho da empresa nas próximas duas décadas.

A Embraer deve seguir dominando o nicho de 100 assentos ou tentar subir de faixa?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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