Trôo fica na Vallée du Loir, no centro da França, e tem cerca de trezentos habitantes. Parte deles vive em casas escavadas no tuffeau, uma pedra calcária macia, distribuídas em três níveis ligados por oito escadarias. Dentro delas, o termômetro fica perto dos quinze graus o ano inteiro.
Existe um vilarejo francês onde as casas não foram construídas sobre a colina, e sim dentro dela. Trôo, no departamento de Loir et Cher, na região Centro Val de Loire, tem cerca de trezentos moradores e uma encosta perfurada por casas escavadas direto na rocha, segundo a página oficial da agência de turismo do departamento e o censo francês de 2023. O vilarejo foi eleito Village préféré des Français em 2020 e recebeu o selo Petite Cité de Caractère em 2021.
O assunto voltou ao noticiário francês em junho de 2026, quando uma onda de calor colocou 53 departamentos do país em alerta laranja. Enquanto o termômetro externo beirava os 34 graus, os moradores das casas de pedra seguiam a rotina normalmente, conforme reportagem da agência AFP publicada em 19 de junho de 2026. A rocha ao redor mantém a temperatura interna em torno de quinze graus durante o ano inteiro.
Um nome que significa buraco

A interpretação mais aceita para o nome do vilarejo remete à palavra francesa que designa buraco, em referência às cavidades abertas na pedra da colina. A grafia com acento circunflexo seria de origem inglesa ou angevina antiga, e a explicação aparece tanto no material da agência de turismo quanto no site da própria prefeitura local.
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É um caso raro de topônimo literal. A colina realmente está furada de ponta a ponta, com uma rede subterrânea de adegas e galerias que atravessa o subsolo do vilarejo. Esse labirinto não foi feito por acaso: parte dele serviu de refúgio em períodos de conflito, e outra parte é resultado da extração da própria pedra.
O tuffeau, a rocha que se deixa escavar
O material que explica tudo é o tuffeau, um calcário de aspecto giz, macio o suficiente para ser cortado com ferramenta manual e resistente o bastante para sustentar teto e parede depois de aberto. É a mesma pedra usada na construção dos castelos do Vale do Loire.
A lógica original era econômica, não habitacional. Abria se a pedreira para retirar blocos e vender a pedra, e a cavidade que sobrava virava adega, depósito ou moradia. Na região, essas cavidades transformadas em residência ganharam o nome de caves demeurantes, algo como adegas de morar. A casa, nesse caso, é literalmente o buraco deixado pela extração.
Como as casas se organizam na encosta

As casas escavadas de Trôo não formam uma fileira única. Elas se distribuem em terraços sobrepostos, em três níveis, ligados por oito escadarias espalhadas pelo vilarejo. Quem caminha por ali sobe e desce degraus estreitos, alguns também abertos na própria pedra.
A concentração mais conhecida fica na rua Vendômoise. Vista de longe, a fachada engana: aparecem portas, janelas e frentes de casa comum, e só de perto se percebe que atrás daquilo não há alvenaria, e sim rocha maciça. Algumas dessas moradias funcionam hoje como residências particulares, outras viraram quartos de hóspedes ou ateliês de artesãos, e outras seguem sendo apenas adegas frescas onde antes se guardava vinho e comida.
A temperatura que virou notícia
Foi exatamente esse comportamento térmico que colocou o vilarejo nos jornais franceses em junho de 2026. Enquanto boa parte do país enfrentava a segunda onda de calor em menos de um mês, o presidente da associação de turismo local, Jean Luc Eclercy Deterpigny, de 57 anos, descreveu à AFP a sensação de entrar em casa como quem entra numa geladeira, relatando diferença de cerca de vinte graus entre fora e dentro nos picos de calor.
O efeito não vem de isolamento nem de equipamento. Vem da massa de rocha que envolve o cômodo e que funciona como um regulador térmico natural, absorvendo e liberando calor muito devagar. Publicações de turismo da região indicam faixa constante entre 14 e 18 graus nesse tipo de moradia. É conforto térmico sem gasto de energia, o que explica o interesse crescente por esse modelo de habitação.
Quem escolheu morar dentro da pedra

Os relatos publicados mostram um perfil recorrente: gente que veio de fora. O próprio presidente da associação de turismo é um ex parisiense que se mudou para lá em 2020, depois da pandemia. Dominique Opéron, de 71 anos, e o marido, Jean Paul, trocaram uma casa normanda mal isolada por uma moradia escavada de 145 metros quadrados.
A queixa deles sobre a casa anterior era o calor acumulado no verão. Na nova, a descrição é de uma sensação de proteção nos dois extremos do ano, com um frescor que não se parece com ar condicionado. O vilarejo também atraiu artistas, e algumas das casas escavadas são abertas à visitação por meio de uma associação local.
O problema que quase ninguém menciona
Nem tudo é vantagem, e vale registrar a ressalva feita pelo próprio prefeito eleito em março de 2026, Patrick Eclercy Deterpigny. Ele avalia que essas cavidades podem representar um modelo de moradia com futuro, mas condiciona isso a um detalhe que muda tudo: a orientação.
Sem exposição plena ao sul, que permita a entrada de luz natural pela única abertura disponível, a casa fica muito escura. Uma moradia escavada tem apenas uma face voltada para fora, e todas as janelas ficam nessa mesma parede. Isso restringe a ventilação cruzada e limita a iluminação natural dos cômodos mais profundos, que precisam de solução artificial durante o dia inteiro.
Desde quando existem essas casas

Aqui há divergência entre as fontes, e ela merece registro. A agência de turismo de Loir et Cher situa a origem troglodita de Trôo na Antiguidade gaulesa, quando populações teriam adaptado abrigos na pedra e usado cavernas naturais como moradia, com fortificação posterior pelos celtas por meio de um oppidum coroado por uma motte.
Já publicações de viagem mais recentes datam a prática de escavação no vilarejo a partir da Idade Média. As duas versões não se anulam necessariamente: o uso das cavidades pode ser muito antigo, enquanto as moradias que existem hoje seriam medievais ou posteriores. O que é documentado com segurança é o período medieval, quando o conde de Vendôme ergueu muralhas e o castelo de Trôo, depois desmantelado sob Henrique IV, e quando foi construída a colegiada Saint Martin.
O que mais existe para ver
O vilarejo cabe em uma caminhada. A trilha dos trogloditas percorre 2,4 quilômetros pela encosta, leva cerca de uma hora e é classificada como fácil, passando pelas moradias da rua Vendômoise, pela colegiada e pelo alto da antiga motte feudal, de onde se abre o panorama do vale.
No caminho ficam outras três paradas. A gruta petrificante, com estalactites e vestígios da antiga capela Saint Gabriel, é o ponto turístico mais antigo da localidade e se formou nas cavidades abertas quando o vale era um mar, há cerca de 90 milhões de anos. Há ainda o ecomuseu instalado em uma cavidade, com seis cômodos montados para reproduzir o cotidiano de um século atrás, e o chamado poço que fala, com 45 metros de profundidade e origem provavelmente ligada à fundação da colegiada, no século XII. A lenda local diz que o eco do poço é a voz de uma mulher condenada a repetir o que os visitantes falam.
E você, moraria numa casa escavada na rocha, com quinze graus o ano inteiro e uma parede só voltada para fora? Conta aqui nos comentários se para você o frescor natural compensa a falta de luz, e se conhece algum lugar no Brasil com moradias parecidas.
