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Há 57 anos e um dia, a sonda soviética Venera 6 atravessou as nuvens de Vênus por 51 minutos sob paraquedas e parou de transmitir a 10 quilômetros da superfície porque a pressão de 60 bar e o calor de 320 graus celsius esmagaram seu casco de 405 quilos, e nenhuma agência espacial conseguiu replicar o feito até hoje

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 18/05/2026 às 06:15
Atualizado em 18/05/2026 às 06:17
Ilustração da sonda soviética Venera atravessando as nuvens ácidas de Vênus em 1969
Ilustração da sonda soviética Venera atravessando as nuvens ácidas de Vênus em 1969
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O aniversário das sondas soviéticas Venera 5 e Venera 6 completou 57 anos no domingo, 17 de maio de 2026, marcando a data em que a humanidade chegou mais perto da superfície de Vênus do que qualquer missão posterior. A Venera 6, lançada pela União Soviética em 10 de janeiro de 1969, entrou na atmosfera noturna do segundo planeta do sistema solar às 06h05 UTC de 17 de maio de 1969, transmitiu dados por 51 minutos sob paraquedas e parou de funcionar a aproximadamente 10 quilômetros de altitude, esmagada pela pressão de 60 bar e pelo calor sufocante das camadas profundas da atmosfera venusiana.

A sonda gêmea, Venera 5, havia chegado um dia antes, em 16 de maio de 1969, e transmitiu por 53 minutos antes que sua cápsula de 405 quilos cedesse a aproximadamente 24 quilômetros de altitude, registrando 320 graus celsius e 26 bar de pressão atmosférica no último contato.

Conforme dados arquivados pela Wikipedia sobre o programa Venera, ambas as cápsulas pesavam 1.130 quilos no lançamento, foram projetadas pelo Bureau de Design Lavochkin em Khimki, próximo a Moscou, e usaram paraquedas menores do que os modelos anteriores justamente para acelerar a descida e atingir maior profundidade antes da bateria acabar.

Cápsula de descida Venera sendo montada na bureau Lavochkin em Khimki, Rússia
Cápsula de descida Venera sendo montada na bureau Lavochkin em Khimki, Rússia

Por que 57 anos depois nenhuma nação conseguiu pousar com sucesso em Vênus de novo

A atmosfera de Vênus mantém condições próximas à fronteira da física dos materiais conhecidos: 460 graus celsius de temperatura média na superfície, 90 atmosferas de pressão equivalente a estar a 900 metros abaixo do oceano e nuvens permanentes de ácido sulfúrico que corroem qualquer metal exposto em minutos. A combinação derrubou todas as 29 missões soviéticas e americanas que tentaram atravessar essas camadas entre 1961 e 1985.

Segundo o registro do Guinness World Records, o maior tempo de sobrevivência de qualquer espaçonave na superfície venusiana segue sendo de 127 minutos, registrado pela sonda Venera 13 em 1º de março de 1982, mais de quatro décadas atrás. Após esse limite, nenhum equipamento construído pela humanidade resistiu mais alguns segundos sequer ao ataque combinado de calor, pressão e ácido.

De acordo com pesquisadores que trabalham no programa de exploração planetária da NASA, quanto mais perto da superfície uma sonda tenta chegar, mais rápido seus instrumentos derretem, suas câmeras escurecem por corrosão química e seus rádios perdem a capacidade de modular sinal pela densidade extrema das camadas inferiores da atmosfera venusiana.

O salto científico que as Venera 5 e 6 fizeram em apenas 51 minutos

As duas sondas foram lançadas em janeiro de 1969 com janelas de cinco dias entre elas, e atravessaram 257 milhões de quilômetros até alcançar Vênus em 131 dias de voo. O objetivo central era confirmar e refinar as medições atmosféricas feitas pela predecessora Venera 4, em 1967, que havia sido a primeira nave a transmitir dados diretos durante a descida em outro planeta.

Durante a queda livre frenada por paraquedas, a Venera 5 e a Venera 6 mediram pressão entre 0,13 e 40 atmosferas, temperaturas que saltaram de 25 para mais de 320 graus celsius, composição química do ar com domínio absoluto de gás carbônico, intensidade luminosa de 250 watts por metro quadrado e densidade do ar até cinquenta vezes superior à terrestre na altitude final de contato.

Esses dados fundaram as bases dos modelos atuais de efeito estufa descontrolado, fenômeno que transformou Vênus em um forno planetário e segue sendo estudado por climatologistas terrestres como cenário-limite do aquecimento global. A própria teoria do runaway greenhouse ganhou tração após as transmissões da Venera 5 e 6 mostrarem o gás carbônico onipresente acima dos 24 quilômetros de altitude.

O Bureau Lavochkin e a corrida soviética por Vênus

O Bureau de Design Lavochkin, em Khimki, foi designado em 1965 pelo governo soviético como o responsável exclusivo pela linha Venera depois que o Bureau Korolev passou a concentrar-se na corrida lunar contra os Estados Unidos. Sob a liderança do engenheiro Georgy Babakin, a equipe de Khimki produziu 16 sondas entre 1965 e 1984, das quais 10 conseguiram transmitir dados úteis de Vênus.

O sucesso parcial das Venera 5 e 6 motivou uma revisão profunda dos materiais usados na cápsula de descida e abriu caminho para a Venera 7, que em 15 de dezembro de 1970 conseguiu finalmente pousar e transmitir 23 minutos de dados da superfície venusiana, marco histórico até hoje listado como a primeira aterrissagem em outro planeta com transmissão de dados confirmada.

Conforme arquivos técnicos detalhados pelo portal Drew Ex Machina, mantido pelo veterano engenheiro espacial Andrew LePage, a Venera 5 e a Venera 6 também carregaram cápsulas com gravuras simbólicas do brasão soviético e medalhões em baixo-relevo de Vladimir Lenin, lançadas estrategicamente sobre o lado noturno do planeta.

Cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão, ponto de partida das sondas soviéticas a Vênus
Cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão, ponto de partida das sondas soviéticas a Vênus

A nova geração de missões a Vênus que pode quebrar o recorde em 2031

A NASA aprovou em 2021 a missão DAVINCI, abreviação de Deep Atmosphere Venus Investigation of Noble Gases, Chemistry and Imaging, programada para lançamento em 2029 e chegada em junho de 2031. Conforme o site oficial da missão DAVINCI, a sonda vai descer por aproximadamente uma hora pela atmosfera, repetindo o feito da Venera 5 e 6 com instrumentos modernos seis décadas depois.

Sonda DAVINCI da NASA programada para repetir o feito da Venera em 2031
Sonda DAVINCI da NASA programada para repetir o feito da Venera em 2031

A agência espacial europeia também avançou em paralelo com a missão EnVision, que deve ser lançada em 2031 para mapear Vênus do espaço com radar de alta resolução, sem mergulhar na atmosfera. Em conjunto, DAVINCI, EnVision e a candidata russa Venera-D, ainda em fase de estudo, representam o maior pacote de exploração venusiana desde o fim do programa soviético em 1984.

Por outro lado, nenhuma das missões anunciadas até agora tem como meta principal pousar e operar por mais de algumas horas na superfície. A barreira tecnológica que destruiu as Venera 5 e 6 permanece sem solução em escala industrial, e cientistas que estudam ligas metálicas para ambientes extremos vêm trabalhando em protótipos de eletrônicos baseados em carbeto de silício capazes de funcionar em temperaturas acima de 500 graus celsius.

Por que o Brasil acompanha a corrida por Vênus mesmo sem programa próprio

O Brasil mantém parceria ativa com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e com a Agência Espacial Brasileira em projetos de cooperação com a NASA, a ESA e a agência espacial chinesa, com foco em sensoriamento remoto e meteorologia. Pesquisadores brasileiros publicam regularmente sobre física planetária comparada usando dados das missões internacionais a Vênus como referência para o estudo da atmosfera terrestre.

Conforme apontam grupos acadêmicos da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entender o efeito estufa descontrolado de Vênus oferece pistas concretas sobre os limites teóricos do aquecimento global terrestre, especialmente em cenários de queima descontrolada de combustíveis fósseis nas próximas décadas.

Esse interesse científico cruzado é a razão pela qual eventos como o aniversário das Venera 5 e 6 continuam aparecendo em fóruns acadêmicos brasileiros e em conteúdos da nossa editoria de Curiosidades e de Ciência, que reúnem outras descobertas sobre exploração espacial e climatologia comparada.

O recorde de Vênus que sobreviveu a quatro décadas de tecnologia

O fato de a Venera 13 ter mantido seu recorde de 127 minutos de sobrevivência na superfície por 44 anos consecutivos diz tanto sobre a engenhosidade dos engenheiros soviéticos quanto sobre a complexidade física de operar máquinas em Vênus. Nenhuma agência espacial conseguiu superar esse número, e a expectativa realista é que a próxima geração de missões dure entre algumas dezenas de minutos e poucas horas no chão venusiano.

Ainda assim, o legado das Venera 5 e 6 vai muito além do tempo medido. As duas sondas inauguraram uma metodologia de descida atmosférica controlada por paraquedas reduzidos, transmissão contínua de dados telemetrados e instrumentação química independente que segue como modelo para as missões aprovadas e em planejamento até 2031.

O aniversário de 57 anos chega num momento em que três grandes programas espaciais miram simultaneamente a estrela vespertina pela primeira vez desde os anos 1980. A Venera 6 abriu o caminho. A próxima geração precisa apenas durar mais alguns minutos do que ela conseguiu, e essa é uma corrida que começa de novo nesta década.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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