1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Vale abissal na Antártida a quase 2,6 km revela chaminés a mais de 380 °C cobertas por caranguejos peludos brancos
Faça um comentário 4 min de leitura

Vale abissal na Antártida a quase 2,6 km revela chaminés a mais de 380 °C cobertas por caranguejos peludos brancos

Imagem de perfil do autor Noel Budeguer
Escrito por Noel Budeguer Publicado em 19/01/2026 às 13:20
Vale abissal na Antártida a quase 2,6 km revela chaminés a mais de 380 °C cobertas por caranguejos peludos brancos
Um ecossistema extremo que colocou a Antártida no mapa das regiões hidrotermais e mudou a forma de entender a vida nas profundezas
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Um ecossistema extremo que colocou a Antártida no mapa das regiões hidrotermais e mudou a forma de entender a vida nas profundezas

Um vale abissal antártico revelou um dos ecossistemas mais incomuns já observados no fundo do mar. Chaminés hidrotermais ativas aparecem cobertas por caranguejos peludos brancos, formando um cenário que foge do padrão visto em outras regiões.

O ambiente fica a quase 2,6 km de profundidade e reúne extremos no mesmo lugar: água de fundo perto de 0 °C e emissões que passam de 380 °C. A vida se concentra onde existe energia química disponível, não luz.

A descoberta também mudou a forma de organizar esses habitats no planeta, com a Antártida entrando como uma área própria de respiradouros hidrotermais.

A missão de 2009 e 2010 que desceu ao East Scotia Ridge com veículo operado remotamente

Entre 2009 e 2010, uma exploração com veículo operado remotamente percorreu a East Scotia Ridge e encontrou campos ativos de respiradouros hidrotermais no setor antártico do Atlântico Sul.

O registro desses pontos mostrou que a região tem atividade suficiente para sustentar comunidades complexas mesmo em um ambiente abissal e polar.

O que mais chama atenção é que a fauna local não segue o padrão típico observado em outros respiradouros do planeta.

Os campos E2 e E9 a 2.600 m e 2.400 m onde surgem black smokers ativos

(A) Chaminés ativas do tipo black smoker no campo E2, a 2.602 m de profundidade.
(B) Flange de ventilação em E2, com fluido hidrotermal refletivo de alta temperatura preso, a 2.621 m.
(C) Tapete microbiano cobrindo rochas na periferia do respiradouro em E2, a 2.604 m.
(D) Chaminé ativa no campo E9, sustentando a nova espécie de caranguejo anomuro do gênero Kiwa, a 2.396 m.
(E) Concentração densa de caranguejos anomuros do gênero Kiwa em E9, com craca pedunculada cf. Vulcanolepas presa à chaminé próxima, a 2.397 m.

Os principais pontos identificados receberam os nomes de E2 e E9. O campo E2 fica a cerca de 2.600 m, enquanto o E9 aparece por volta de 2.400 m de profundidade.

Nessas áreas, chaminés do tipo black smokers liberam fluidos carregados de minerais em plena escuridão total.

As temperaturas medidas chegaram a 382,8 °C, enquanto a água de fundo ao redor estava perto de 0 °C, criando um dos contrastes mais extremos do ambiente marinho.

O choque de 382,8 °C com água perto de 0 °C que cria gradientes em centímetros

Ao redor das chaminés, a mistura entre fluido superaquecido e água do mar gelada cria gradientes de temperatura e química em distâncias muito pequenas.

Esse tipo de ambiente favorece comunidades microbianas altamente produtivas, capazes de sustentar toda a vida local.

O resultado é um ecossistema concentrado em uma faixa estreita, onde poucos metros definem quem consegue sobreviver.

Por que os caranguejos peludos viram “tapetes vivos” sobre as chaminés hidrotermais

Os caranguejos peludos dominam a macrofauna do East Scotia Ridge e se acumulam sobre e ao redor das chaminés, formando aglomerações densas no fundo do mar.

A espécie foi descrita como Kiwa tyleri, um decápode adaptado a viver em um ambiente onde o calor das fontes define a área de sobrevivência.

Em alguns pontos, essas concentrações chegam a milhares de indivíduos por metro quadrado, criando um cenário raro em ambientes abissais.

Como os pelos dos caranguejos sustentam bactérias quimiossintéticas e viram base de alimento

Caranguejo yeti peludo fotografado em detalhe, com destaque para as setas brancas nos membros, estruturas usadas para sustentar bactérias quimiossintéticas em ambientes de respiradouros hidrotermais.

Um detalhe central desse ecossistema está nas setas, os pelos do corpo dos caranguejos peludos.

Essas estruturas servem como suporte para cultivar bactérias quimiossintéticas, microrganismos que aproveitam compostos químicos liberados pelas fontes.

Essa relação ajuda a explicar por que os caranguejos ficam tão próximos das chaminés, onde existe energia química suficiente para sustentar a produção biológica.

O motivo de a Antártida ter virado nova província biogeográfica de respiradouros

A fauna desses respiradouros antárticos é diferente de outros sistemas hidrotermais conhecidos. Alguns grupos emblemáticos comuns em outras regiões não aparecem nesse conjunto.

Essa diferença levou ao reconhecimento de uma nova província biogeográfica, separada das províncias do Pacífico, do Atlântico e do Índico.

Na prática, a Antártida passou a ser vista como uma área própria no mapa das profundezas, com vida sustentada por química e com características únicas.

O oceano Austral como barreira natural que limita a fauna a poucos metros das fontes

Fora da zona aquecida, a água perto de 0 °C funciona como uma barreira fisiológica e limita a distribuição dos animais.

Isso mantém a vida concentrada ao redor das chaminés, com ocupação espacial curta e altamente dependente do calor e dos compostos químicos.

O isolamento do oceano Austral também atua como filtro de dispersão, dificultando a presença de espécies típicas de outras bacias oceânicas.

A descoberta do East Scotia Ridge mostra que o fundo do mar ainda guarda ecossistemas capazes de mudar o entendimento sobre a vida no planeta.

Com chaminés ativas, temperaturas extremas e caranguejos peludos dominando o cenário, a Antártida entrou de vez no mapa das regiões hidrotermais mais surpreendentes da Terra.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x