A construção de 73 parques eólicos no Nordeste levou energia limpa ao país, mas também doenças e expulsão de moradores; investimento declarado pelas empresas chegou a US$ 1,8 bilhão
Quando o vento não traz sossego. O barulho nunca para. Não importa se é dia ou noite, se venta pouco ou muito. Para quem mora perto das usinas eólicas no Nordeste, o som constante das pás girando virou parte forçada da rotina e, para muitos moradores, um pesadelo sem fim.
O que era para ser símbolo de energia limpa e futuro sustentável acabou se transformando em fonte de estresse, doenças e abandono da própria casa. E o pior: quase sempre sem diálogo, sem compensação justa e sem regra clara.
“Parece um avião que nunca pousa”
É assim que o agricultor Leonardo de Oliveira Morais, de 36 anos, descreve a experiência de viver a apenas 180 metros de uma turbina eólica no sítio Pontais, zona rural de Venturosa, no agreste de Pernambuco. O som constante não dá trégua. Dormir virou desafio. Trabalhar, um esforço dobrado.
-
Os data centers de inteligência artificial agora vêm com usina nuclear embutida e já contrataram reatores que nem existem
-
Na Índia, milhares de pessoas ganham cerca de R$ 13 por hora para cozinhar e limpar com um celular preso à cabeça, enquanto cada gesto vira dado para treinar robôs humanoides na ironia cruel de ensinar às máquinas exatamente o trabalho que elas podem um dia assumir
-
Mercúrio virando ouro deixou de ser só fantasia de alquimista em estudo de fusão nuclear, que propõe usar nêutrons de tokamak para criar ouro-197 estável, mas o caminho entre promessa bilionária e usina real ainda é cheio de incertezas
-
Pesquisadores da UFMG criaram um piso que transforma os passos dos estudantes no bandejão em eletricidade e a energia gerada vai ajudar a cortar a conta de luz da universidade
Casos como o dele se repetem em várias cidades do nordeste, principalmente em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia — estados que concentram a maior parte dos parques eólicos do país.
Energia limpa para quem? Brasil hoje é o 5º maior produtor de energia eólica do mundo com mais de US$ 1,8 bilhão investidos no setor
O Brasil hoje é o 5º maior produtor de energia eólica do mundo, com 1.131 complexos instalados e capacidade de gerar 34,5 GW, o que representa 16% da energia elétrica nacional, segundo a Abeeólica.
O Nordeste concentra 95% dessa geração, tornando-se o coração da energia dos ventos no país.
Só em 2024, foram inaugurados 76 novos parques, sendo 73 no Nordeste — uma média de um parque novo a cada cinco dias. O investimento declarado pelas empresas chegou a US$ 1,8 bilhão.Além disso, há 53 parques em construção e outros 441 em fase de projeto, conforme dados da Aneel.
O problema? Tudo isso foi feito sem regra nacional clara sobre a distância mínima entre turbinas e residências.

Distância que machuca: Em países europeus, a regra é bem diferente
Em países europeus, a regra é bem diferente. Segundo nota técnica do Ibama, há exigência de distância mínima de até 1,2 km entre aerogeradores e casas. A média internacional gira em torno de 780 metros.
No Brasil, não houve esse cuidado. A reportagem do UOL encontrou dezenas de casas a menos de 200 metros das torres — algo considerado fora do padrão internacional.
De acordo com o pesquisador Francesco Dalla Longa, esse afastamento maior reduz o ruído de 109 decibéis para cerca de 40 decibéis, limite diurno definido pela ABNT.
Quando a casa deixa de ser lar
Um dos casos mais simbólicos é o de Simão Salgado da Silva, agricultor de 77 anos, ex-morador do sítio Pau Ferros, em Caetés. Em 2014, a usina São Clemente foi instalada ao redor da sua propriedade.
A casa ficou a 220 metros de uma turbina, cercada por oito torres. O impacto foi devastador.
A esposa adoeceu gravemente. A família precisou abandonar um terreno de 33 hectares, referência nacional em agroecologia.
Hoje, Simão processa a empresa responsável e aguarda decisão judicial.
“Para mim foi uma perda irreparável. Fico constrangido até hoje”, relata Simão, que também preside o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caetés.
Comunidades organizadas e resistência
Em Caetés, agricultores criaram a Escola dos Ventos, uma ONG que reúne cerca de 700 famílias impactadas só pelo parque São Clemente.
A mobilização surtiu efeito. Após protestos e ocupação da sede da Adepe, a CPRH negou a renovação da licença do complexo, que tem 126 aerogeradores.
Mesmo assim, a usina segue funcionando por decisão liminar do Tribunal de Justiça de Pernambuco.
“Não deu mais para aguentar o barulho”
Em Paranatama, a história se repete. José Orlando Pereira, de 40 anos, deixou para trás um sítio de 3,5 hectares após a chegada do parque Serra das Vacas.
“Fechei a casa e fomos embora. Não deu mais para aguentar”, conta.
Hoje, ele vive de aluguel na cidade e aguarda indenização há quatro anos.
Já Miguel Pereira da Silva, de 62 anos, cego, relata medo constante:
“Quando venta muito, penso que isso pode cair e acabar com tudo.”
Barulho que adoece o Nordeste
A ciência confirma o que os moradores sentem no corpo. Estudos sobre a chamada síndrome da turbina eólica associam a exposição contínua ao ruído a:
- Insônia
- Ansiedade
- Depressão
- Hipertensão
- Perda auditiva
A pesquisadora Wanessa Gomes, da Fiocruz e professora da UPE, estudou 105 moradores do sítio Sobradinho, em Caetés, entre 2023 e 2025.
Resultados alarmantes:
- 68% com transtornos mentais leves
- Estresse: 77%
- Perda da qualidade do sono: 75%
- Insônia: 73%
- Ansiedade: 64%
“O ideal seria um distanciamento mínimo de 1,5 km. O mais seguro, 2 km”, afirma a pesquisadora.
Como medida emergencial, ela defende desligar os aerogeradores à noite.
O que dizem empresas e governo sobre as usinas gigantes do Nordeste
A CPRH afirma estar finalizando um Termo de Compromisso com as empresas para corrigir impactos.
A Echoenergia, responsável pelo parque São Clemente, diz ter feito reformas acústicas em 128 casas e realocado famílias voluntariamente.
A Abeeólica reconhece problemas em parques antigos e afirma que, nos últimos cinco anos, passou a adotar distância mínima de 400 metros — ainda abaixo do padrão internacional.
Já o Ministério de Minas e Energia informa que mantém diálogo permanente e participa da revisão da resolução do Conama, em consulta pública até 31 de dezembro.
Energia limpa precisa ser justa
O Nordeste não causou a crise climática global, mas vem pagando um preço alto pela transição energética feita às pressas.
Energia limpa não pode significar doença, medo e expulsão de moradores.
Sem regra clara, fiscalização rígida e reparação justa, os parques eólicos deixam de ser solução e passam a ser mais um problema social.
E você, o que acha? Os parques eólicos estão sendo implantados de forma justa no Brasil? Deixe seu comentário, compartilhe este conteúdo e ajude esse debate a chegar a mais pessoas.

Fazem a pesquisa popular, ninguém participa. Se não constroem nada, reclamam que ninguém olha prá lá. Se constroem, arrumam algo pra dar errado. Fica difícil tentar algo num lugar tão atípico. Reclamar sempre foi o forte dos fracos
…após estes esclarecimentos, hão de ser CONSIDERADOS A FAUNA E A FLORA, pois, ao que parece, já devem ter sido DIZIMADOS…
O PT faz isso há décadas, empobrecendo, adoecendo e e expulsando o povo nordestino para o sudeste… Mas confia, no próximo mandato o Lula e seus capangas dos estados nordestinos vão acaba com a miséria por lá…