Investimento direto registrado em setembro superou o déficit externo do mês e ficou bem acima das projeções. O dado, porém, antecede a eleição presidencial e mede um fluxo diferente daquele refletido pelos preços das ações no primeiro pregão depois da votação.
O Brasil recebeu US$ 11,294 bilhões em Investimento Direto no País (IDP) em setembro, valor quase 74% superior aos US$ 6,5 bilhões esperados pelos economistas consultados pela Reuters. O resultado foi o maior já registrado para um mês de setembro na série histórica.
A divulgação ocorreu nesta segunda-feira (26), um dia depois da eleição presidencial, mas o período medido terminou antes da votação. Por isso, os US$ 11,294 bilhões não podem ser tratados como uma resposta dos investidores ao resultado das urnas.
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No mesmo mês, o país teve déficit de US$ 5,1 bilhões em transações correntes. O ingresso de investimento direto, portanto, foi mais de duas vezes superior ao saldo negativo externo mensal e excedeu em cerca de US$ 4,8 bilhões a projeção coletada pela Reuters.
Investimento direto cobriu o déficit externo
Transações correntes reúnem pagamentos e recebimentos do Brasil com outros países em operações como comércio de bens, serviços e rendas. Quando o saldo fica negativo, significa que as saídas líquidas nessas contas superaram as entradas no período analisado.
O IDP mede outra categoria das contas externas. Ele inclui fluxos relacionados a participações duradouras em empresas e operações entre companhias relacionadas, de modo que o valor mensal não equivale automaticamente à abertura de fábricas, compra de equipamentos ou criação imediata de empregos.
A fotografia de 12 meses também mostrava ingresso de investimento direto superior à necessidade de financiamento das transações correntes. O déficit acumulado até setembro recuou para 2,33% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 2,50% no mês anterior e no menor patamar em dois anos, conforme a reportagem da Reuters.
No mesmo período, o investimento direto alcançou 3,43% do PIB. A proporção ficou acima do déficit em transações correntes, o que significa que o fluxo acumulado de IDP era suficiente para financiá-lo integralmente naquele intervalo.
A comparação mensal, porém, não deve ser confundida com uma tendência definitiva. O resultado de setembro pode refletir operações específicas, reinvestimentos e movimentações entre empresas relacionadas, enquanto a leitura de períodos mais longos reduz o peso de oscilações concentradas em um único mês.
A diferença em relação à previsão também ajuda a dimensionar o resultado sem atribuir a ele um significado que os números não sustentam. Os US$ 11,294 bilhões superaram em aproximadamente US$ 4,8 bilhões a estimativa de US$ 6,5 bilhões, mas isso não garante que ingressos semelhantes se repetirão nos meses seguintes.
Bolsa reagiu ao resultado eleitoral
Enquanto o IDP divulgado pelo Banco Central retrata setembro, o Ibovespa passou por forte queda no primeiro pregão após a eleição. O índice chegou a recuar mais de 17% durante a sessão e registrava perda superior a 15% quando a B3 acionou o mecanismo de circuit breaker.
A Reuters registrou a reação dos mercados brasileiros após a eleição, com queda das ações, desvalorização do real e pressão sobre juros e títulos. A B3 também havia ampliado limites de oscilação de contratos futuros antes da abertura diante da volatilidade esperada.
O Ibovespa recuperou parte das perdas ao longo da sessão e fechou 13,43% abaixo do encerramento anterior, aos 177.539,81 pontos. Na mínima do dia, chegou a 169.516,43 pontos, em uma sessão marcada pela interrupção temporária das negociações.
A Reuters relacionou a forte reprecificação à reversão de posições montadas antes do segundo turno. Parte do mercado havia feito apostas para um resultado diferente nas urnas, e a confirmação da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou investidores a desfazer essas posições.
Os dois movimentos não medem a mesma coisa. O IDP é uma estatística de fluxo ligada a investimentos com participação duradoura e operações entre empresas relacionadas; o Ibovespa, por sua vez, é um índice calculado a partir dos preços de ações negociadas na Bolsa.
Por essa razão, a queda das ações nesta segunda-feira não demonstra, isoladamente, uma saída equivalente de investimento direto do Brasil. O mesmo vale no sentido contrário: o forte ingresso registrado em setembro não impede quedas da Bolsa, desvalorização cambial ou outras oscilações dos ativos financeiros.
A separação temporal também é indispensável. Os números divulgados pelo Banco Central encerram-se em setembro, antes da eleição de domingo (25), enquanto o movimento do Ibovespa ocorreu depois que o resultado das urnas já era conhecido pelos participantes do mercado.
Os próximos dados do setor externo permitirão observar se houve mudança no investimento direto depois da eleição. Até que esses números sejam divulgados, o dado disponível mostra que, antes da votação, o fluxo de IDP superava o déficit em transações correntes tanto no mês quanto no acumulado de 12 meses.
