País passa a integrar uma rede internacional de energia oceânica enquanto estrutura centro nacional de pesquisa com apoio da Finep para testar quatro tecnologias ligadas ao aproveitamento energético do mar.
O Brasil passou a integrar de forma efetiva uma das principais redes internacionais dedicadas ao desenvolvimento de energia oceânica e, paralelamente, começou a estruturar um centro nacional para testar quatro tecnologias capazes de aproveitar recursos do mar para produzir eletricidade, hidrogênio e outros insumos energéticos.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), a representação brasileira estreou no Comitê Executivo do programa Ocean Energy Systems durante uma reunião realizada em 8 e 9 de outubro de 2026, em Haia, na Holanda.
A entrada formal do Brasil, porém, ocorreu alguns meses antes.
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De acordo com o próprio Ocean Energy Systems, a adesão foi oficializada em 13 de abril de 2026, durante uma cerimônia no Rio de Janeiro. O governo brasileiro designou o INPO como representante nacional, e o diretor-geral da instituição, Segen Estefen, passou a ocupar a posição de delegado brasileiro no Comitê Executivo.
Brasil entra em rede internacional de energia oceânica
O Ocean Energy Systems reúne atualmente 23 membros nacionais e institucionais, entre eles Estados Unidos, China, Índia, Canadá, Reino Unido, França, Japão, Austrália, Portugal e Brasil, além da Comissão Europeia.
A cooperação existe desde 2001 e busca compartilhar conhecimento, experiências regulatórias, pesquisa e desenvolvimento de equipamentos para aproveitar a energia disponível nos oceanos.

A atuação internacional é mais ampla do que apenas ondas e marés.
Segundo a Agência Internacional de Energia, o programa trabalha com energia das ondas, amplitude de marés, correntes marítimas e de maré, conversão térmica oceânica e gradientes de salinidade.
Em comum, essas rotas procuram aproveitar propriedades físicas ou químicas da água do mar para produzir energia.
Para o Brasil, a participação cria uma ligação mais direta entre pesquisas nacionais e projetos desenvolvidos em países que já testam conversores de ondas, turbinas de maré e outras tecnologias oceânicas.
Ainda assim, a entrada na iniciativa não significa que o país já tenha uma cadeia comercial estabelecida de geração de energia a partir do oceano.
A maior parte dessas soluções permanece em fase de pesquisa, demonstração ou pré-comercialização, inclusive em mercados mais avançados.
Centro brasileiro vai testar quatro tecnologias
Paralelamente à entrada na rede internacional, o INPO prepara uma infraestrutura própria de pesquisa.
Com apoio de aproximadamente R$ 15 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o instituto está criando o Centro Temático de Energia Renovável no Oceano – Energia Azul.
Segundo a Finep, o projeto pretende desenvolver quatro soluções de energia offshore e aproximá-las de aplicações comerciais em maior escala.
As frentes escolhidas são um conversor de energia das ondas, uma turbina para aproveitar correntes de maré, um sistema de conversão do gradiente térmico oceânico e uma solução voltada à produção de hidrogênio verde a partir de fontes renováveis offshore.
Cada tecnologia utiliza uma característica diferente do ambiente marinho.
A energia das ondas aproveita o movimento contínuo da superfície do oceano. Dependendo do sistema, dispositivos flutuantes ou instalados próximos à costa convertem essa oscilação em movimento mecânico capaz de gerar eletricidade ou alimentar outros processos.

No Centro de Energia Azul, essa frente deverá incluir um equipamento para testar a conversão da energia das ondas com aplicação também em dessalinização da água do mar.
A proposta é fabricar equipamentos e avançar em testes que permitam avaliar desempenho, eficiência e confiabilidade.
Ondas, marés e gradiente térmico entram nos testes
A segunda tecnologia será direcionada às correntes de maré.
Nesse modelo, turbinas submersas aproveitam o movimento da água de forma semelhante ao princípio utilizado por aerogeradores, mas com o fluxo aquático movimentando as pás.
A Empresa de Pesquisa Energética considera que tecnologias hidrocinéticas podem utilizar correntes de rios, marés e outras movimentações naturais da água para produzir eletricidade sem grandes barragens.
Essas soluções, porém, ainda enfrentam desafios relacionados a custos, maturidade comercial, instalação e manutenção.
O INPO pretende desenvolver uma turbina bidirecional capaz de aproveitar as correntes associadas às marés.
A instituição também avalia que equipamentos desse tipo podem ter aplicações fora do ambiente estritamente marítimo, incluindo cursos d’água com fluxo contínuo.
A terceira frente é o gradiente térmico oceânico, conhecido como OTEC.
Essa tecnologia utiliza a diferença de temperatura entre águas superficiais mais quentes e águas profundas mais frias.
No projeto brasileiro, o sistema deverá empregar um ciclo termodinâmico com amônia como fluido de trabalho para converter essa diferença térmica em energia.
A proposta prevê a construção de uma bancada experimental capaz de simular condições encontradas em regiões do oceano consideradas adequadas à tecnologia.
A Agência Internacional de Energia classifica a conversão térmica oceânica entre as rotas que ainda precisam de avanços tecnológicos relevantes antes de alcançar maior maturidade comercial.
Hidrogênio verde completa as quatro frentes
A quarta tecnologia escolhida pelo Centro de Energia Azul está relacionada ao hidrogênio verde.
Nesse caso, o objetivo é utilizar energia renovável produzida no ambiente offshore para alimentar sistemas de eletrólise e produzir hidrogênio de baixa emissão.
Segundo o INPO, uma das bancadas de testes deverá reproduzir condições de fornecimento energético associadas à geração eólica offshore.
Essa frente é diferente das tecnologias que extraem energia diretamente das ondas ou das marés, mas integra a mesma estratégia de aproveitamento energético sustentável do ambiente oceânico.
O Centro de Energia Azul será coordenado pelo INPO e contará com participação da Coppe/UFRJ, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal do Pará e Fundação Getulio Vargas.
A previsão apresentada pela instituição é desenvolver equipamentos e protótipos ao longo de aproximadamente três anos.
Do financiamento destinado ao projeto, cerca de R$ 4,3 milhões serão aplicados em bolsas de pesquisa para estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado.
A intenção é combinar o desenvolvimento tecnológico com a formação de pesquisadores especializados em energia oceânica.
