Expansão dos data centers pode impulsionar o vanádio produzido na Bahia. Largo aposta em baterias e amplia negócios com a defesa dos Estados Unidos.
A expansão dos data centers dedicados à inteligência artificial pode abrir novas oportunidades comerciais para o vanádio extraído na Bahia. A perspectiva é apresentada pela mineradora canadense Largo, responsável pela operação de Maracás Menchen, cujo co-CEO, Alberto Arias, identifica no crescimento da procura por baterias de armazenamento de energia nos Estados Unidos uma possibilidade de ampliar o mercado consumidor do mineral brasileiro.
A movimentação ocorre em um momento de diversificação dos negócios da companhia. Além de acompanhar as necessidades energéticas dos centros de processamento de dados, a Largo já participa do fornecimento de vanádio destinado às reservas estratégicas americanas e começou a aproveitar outros minerais encontrados em sua operação baiana.
Encomenda de US$ 60,1 milhões conecta vanádio brasileiro à defesa americana
Uma das frentes comerciais da Largo envolve o abastecimento de materiais considerados estratégicos pelos Estados Unidos. Em julho, a mineradora recebeu um pedido inicial de US$ 60,1 milhões para fornecer pentóxido de vanádio de alta pureza, com entregas programadas até janeiro de 2030.
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A encomenda veio depois de a empresa ter sido selecionada, em junho, como fornecedora da Agência de Logística de Defesa dos Estados Unidos (DLA). A iniciativa faz parte de um programa compartilhado de aquisições, com duração de cinco anos e limite financeiro de US$ 125 milhões.
O produto extraído e processado na Bahia será incorporado aos estoques estratégicos americanos, podendo abastecer atividades industriais ligadas à fabricação de equipamentos de defesa e componentes aeronáuticos.
Para Alberto Arias, esse interesse também está relacionado à intenção de países ocidentais de reduzir sua dependência de fornecedores como China e Rússia. O executivo defende maior reconhecimento do vanádio nas políticas voltadas aos minerais críticos, considerando sua importância para diferentes atividades industriais.

Mineradora passa a aproveitar cobre e metais preciosos na Bahia
A diversificação da Largo também ocorre dentro de Maracás Menchen. Desde agosto, a operação passou a recuperar um concentrado de cobre que reúne outros elementos de valor comercial, depois de obter autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM).
O processo utiliza materiais provenientes da própria atividade mineradora e permite recuperar, além do cobre, quantidades de ouro, prata, platina e paládio.
Em vez de depender exclusivamente da produção de vanádio, a empresa começou a utilizar parte de sua estrutura industrial para transformar esses materiais em outro produto comercializável. A iniciativa faz parte da estratégia de melhorar o aproveitamento dos recursos minerais e a rentabilidade do empreendimento brasileiro.
A mina fica a aproximadamente 250 quilômetros de Salvador e iniciou suas atividades produtivas em 2014. Explorada a céu aberto, possui um dos depósitos de vanádio de maior teor do mundo e representa o principal ativo da companhia canadense, que tem ações negociadas nas bolsas de Toronto e Nova York.
Baterias de fluxo colocam vanádio no caminho da inteligência artificial
Embora tenha aplicações tradicionais na produção de aços resistentes e ligas metálicas especiais, o vanádio passou a despertar interesse por outra característica: sua utilização em tecnologias capazes de armazenar eletricidade durante várias horas.
É nesse mercado que a Largo pretende ampliar sua presença. Em 2025, a mineradora se associou à americana Stryten Energy para criar a Storion Energy, dedicada ao desenvolvimento de componentes e eletrólitos para baterias de fluxo de vanádio.
Nesses equipamentos, a energia é armazenada por meio de soluções líquidas contendo o mineral, movimentadas entre reservatórios e células eletroquímicas. O funcionamento difere daquele encontrado nas baterias convencionais de íons de lítio.
Entre as vantagens dessa tecnologia estão a capacidade de manter reservas de eletricidade por períodos prolongados, a durabilidade dos sistemas e o menor risco de incêndio. Essas características permitem considerar seu uso em redes de distribuição de energia, estabelecimentos industriais e instalações que dependem de alimentação elétrica contínua.
Segundo Arias, a empresa formada com a parceira americana vem registrando, nos últimos dois anos, um crescimento expressivo da demanda por baterias de vanádio destinadas à indústria de data centers.
Crescimento dos data centers pode estimular produção de vanádio no Brasil
A necessidade de manter servidores e equipamentos de processamento em operação contínua torna o armazenamento de eletricidade uma questão importante para os novos empreendimentos de inteligência artificial.
Com o avanço dessas instalações, também aumenta a necessidade de investimentos em infraestrutura de geração, transmissão e reserva energética. Para a Largo, parte dessa expansão poderá representar um mercado adicional para o vanádio, hoje amplamente utilizado pela siderurgia.
Alberto Arias relatou que convidou representantes da parceira americana para conhecer a operação brasileira. Segundo o executivo, o potencial de ampliação da capacidade produtiva da mina baiana impressionou os representantes da empresa.
O interesse não está limitado aos Estados Unidos. A expectativa da mineradora é que o desenvolvimento de novos data centers em território brasileiro também possa favorecer a formação de uma cadeia nacional de armazenamento de energia, utilizando vanádio produzido no próprio país.
