Técnica brasileira pretende produzir novos folículos fora do corpo, atender pacientes sem área doadora suficiente e criar uma alternativa futura para quem perdeu cabelo após quimioterapia ou queimaduras
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram uma técnica para multiplicar folículos capilares em laboratório usando uma pequena amostra retirada do próprio paciente. O método parte de aproximadamente 50 a 120 folículos e busca produzir uma quantidade maior de estruturas viáveis para um transplante.
A pesquisa ainda está na fase pré-clínica e não pode ser oferecida em consultórios ou clínicas. A equipe estima que serão necessários cerca de 18 meses para concluir os testes em laboratório e os experimentos com animais antes de solicitar autorização para iniciar estudos em seres humanos.
O objetivo é atender pessoas que hoje são recusadas no transplante capilar convencional por não terem folículos suficientes na nuca ou nas laterais da cabeça. O procedimento também poderá ser estudado para pacientes que perderam cabelo após quimioterapia, queimaduras ou quadros avançados de alopecia.
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De acordo com o Jornal da Unicamp, o método reúne conhecimentos de cultura celular, nanotecnologia e medicina regenerativa desenvolvidos por pesquisadores do Instituto de Biologia e da Faculdade de Ciências Médicas da universidade.
Pequena amostra é separada em células e reorganizada dentro de placas especiais

O processo começa com a retirada de folículos saudáveis do couro cabeludo. Em laboratório, reagentes são usados para separar componentes como queratinócitos, células-tronco e células mesenquimais, que participam da formação e do funcionamento do folículo.
Essas células são colocadas em frascos com nutrientes e condições controladas para que se multipliquem. Depois, o material é transferido para placas que favorecem a organização das células em estruturas tridimensionais conhecidas como organoides capilares.
Os organoides procuram reproduzir parte da arquitetura de um folículo natural. A interação entre células epiteliais e mesenquimais é essencial porque o crescimento do cabelo depende da comunicação entre diferentes tecidos, e não apenas da multiplicação isolada de uma única célula.
Um estudo publicado em 2023 na revista Scientific Reports demonstrou que células humanas cultivadas em estruturas tridimensionais podem formar brotos semelhantes aos encontrados durante o desenvolvimento dos folículos. Os autores, porém, apresentaram o modelo principalmente como uma ferramenta para testes de medicamentos, mostrando que a passagem do laboratório para um tratamento humano continua sendo uma etapa complexa.
Falta de cabelos na nuca impede parte dos pacientes de fazer a cirurgia atual
No transplante tradicional, o médico não cria novos folículos. Ele retira unidades existentes de uma região doadora, geralmente a nuca e as laterais, e transfere cada uma delas para a área afetada pela queda.

Esse limite torna o procedimento inviável para pacientes com calvície extensa, cicatrizes, queimaduras ou baixa densidade na região doadora. Mesmo quando a cirurgia pode ser realizada, o número de fios implantados depende diretamente da quantidade disponível para retirada.
A tecnologia da Unicamp tenta mudar essa relação. Em vez de depender de milhares de folículos retirados diretamente da cabeça, o laboratório receberia uma amostra menor, multiplicaria suas células e entregaria ao cirurgião um volume maior de estruturas previamente selecionadas.
O material é autólogo, ou seja, vem do próprio paciente. Essa característica pode diminuir o risco de rejeição, embora a segurança, a estabilidade das células e a resposta do organismo ainda precisem ser avaliadas nos estudos pré-clínicos e clínicos.
Cirurgia que pode ocupar o dia inteiro cairia para aproximadamente duas horas
Um transplante capilar convencional pode durar entre oito e dez horas porque os folículos são retirados, preparados e implantados individualmente. O tempo varia conforme a área tratada, a quantidade de unidades transplantadas, a técnica utilizada e as condições do paciente.
Na proposta desenvolvida em Campinas, parte do trabalho seria realizada antecipadamente no laboratório. O cirurgião receberia folículos multiplicados e selecionados, reduzindo o número de etapas executadas durante a operação.
A estimativa apresentada pelos pesquisadores é que o período cirúrgico possa cair para cerca de duas horas. A redução diminuiria o tempo de exposição do paciente à cirurgia e poderia limitar os efeitos da fadiga da equipe durante procedimentos longos.
Essa duração ainda não foi confirmada em pacientes. Como a pesquisa não chegou aos ensaios clínicos, os números representam uma projeção baseada no protocolo que está sendo desenvolvido, e não um resultado obtido em cirurgias comerciais.
Folículos poderiam ser congelados antes da quimioterapia e usados anos depois
A equipe também trabalha em um protocolo de criopreservação. Antes do tratamento contra o câncer, uma pequena amostra de folículos poderia ser retirada e armazenada em nitrogênio líquido ou em equipamentos mantidos a 80 graus Celsius negativos.
Após o tratamento, o material seria descongelado, cultivado e multiplicado para tentar recompor os cabelos perdidos. A possibilidade interessa principalmente aos pacientes que não recuperam a densidade capilar anterior depois da quimioterapia.
A queda causada por medicamentos contra o câncer nem sempre é permanente, mas a velocidade e o nível de recuperação variam. Em determinados casos, o cabelo cresce mais fino, muda de textura ou não retorna com a mesma densidade observada antes do tratamento.
O uso futuro desse material dependerá da capacidade de manter as células viáveis durante o congelamento e de preservar as propriedades necessárias para produzir folículos funcionais. Esses pontos fazem parte do protocolo que ainda será testado.
Cor, curvatura e textura continuam entre os maiores desafios científicos
Multiplicar células não garante, por si só, a formação de um folículo capaz de produzir cabelo durante anos. Os pesquisadores precisam verificar se as estruturas cultivadas manterão ciclos regulares de crescimento, repouso e queda depois de implantadas.
Também será necessário comprovar que os novos fios conservarão características como cor, espessura, curvatura e textura. Alterações durante a cultura celular poderiam produzir resultados diferentes dos cabelos originais do paciente.
Uma revisão publicada na revista Signal Transduction and Targeted Therapy mostrou que a regeneração funcional depende da interação entre células da papila dérmica, células epiteliais e o ambiente ao redor do folículo. O trabalho aponta avanços com organoides e culturas tridimensionais, mas registra dificuldades para manter a capacidade regenerativa das células humanas após sua expansão fora do corpo.
A equipe brasileira considera que o uso de células retiradas do folículo original aumenta a possibilidade de preservar as características naturais. Mesmo assim, essa hipótese precisará ser confirmada por análises laboratoriais e pelo acompanhamento prolongado dos primeiros participantes.
Testes em humanos dependerão de autorização e acompanhamento por dois anos
Depois da fase pré-clínica, o grupo pretende submeter o projeto aos órgãos responsáveis e iniciar ensaios clínicos. A previsão apresentada é acompanhar os participantes por 24 meses, com exames mensais, fotografias padronizadas, mapeamento do couro cabeludo e avaliações hormonais.
A Anvisa classifica produtos fabricados a partir de células e tecidos humanos manipulados como produtos de terapia avançada quando eles são destinados a reparar, substituir ou regenerar tecidos. No Brasil, as regras para pesquisas clínicas e registro dessa categoria estão previstas nas RDCs 506 e 505, ambas de 2021, além das normas de boas práticas de fabricação.
Isso significa que o transplante desenvolvido na Unicamp ainda terá de demonstrar qualidade de produção, segurança biológica e benefício clínico. O início de testes em pessoas não representa aprovação comercial, mas uma nova etapa de verificação sob controle regulatório.
Ainda não há data para o tratamento chegar às clínicas nem estimativa pública de preço. Mesmo que os estudos avancem sem interrupções, a avaliação clínica, a análise dos resultados e o processo de autorização podem exigir vários anos.
Empresa ligada à universidade pretende fornecer a tecnologia para clínicas habilitadas
A transferência da pesquisa ao mercado será conduzida pela Aeter Bianco, uma operação formada pela Aeter Biotech, spin-off acadêmica da Unicamp, e pela empresa do cirurgião capilar Thiago Bianco.
O modelo previsto não é abrir uma clínica estética nem fabricar um produto para venda direta ao consumidor. A empresa pretende fornecer o protocolo, o processamento celular e o conhecimento técnico para médicos e clínicas que tenham estrutura e autorização para realizar o procedimento.
A Agência de Inovação Inova Unicamp participou da proteção da propriedade intelectual e da transferência do conhecimento. Wagner José Fávaro, João Carlos Cardoso Alonso e André Lopes Ferreira receberam, em 2026, o Prêmio Inventores da Unicamp na categoria Propriedade Intelectual Licenciada.
A técnica poderá ampliar o acesso ao transplante capilar, mas ainda precisa atravessar as etapas mais difíceis do desenvolvimento médico. Até que os testes em humanos sejam concluídos, a multiplicação de folículos permanece como uma tecnologia experimental, sem garantia de disponibilidade, preço ou resultado clínico.
Você faria um transplante utilizando folículos multiplicados em laboratório ou preferiria esperar mais anos de acompanhamento? Deixe sua opinião nos comentários e conte quais dúvidas essa tecnologia ainda precisa responder antes de chegar às clínicas.
