Cabo subterrâneo de 500 kV da Taesa exige sala limpa, testes extremos e emendas de R$ 500 mil em projeto que desafia a engenharia elétrica e pode abrir caminho para novas obras subterrâneas no Brasil hoje
Uma obra quase invisível dentro de uma subestação no interior de São Paulo colocou a engenharia elétrica brasileira diante de um desafio raro: instalar cabos subterrâneos capazes de operar em uma das classes mais altas de tensão do sistema nacional. O detalhe que mais chama atenção é o custo de uma peça específica: uma única emenda pode chegar a R$ 500 mil.
O projeto envolve a Taesa, a Prysmian e a WEG na Subestação de Assis, onde será implantada uma estrutura subterrânea inédita para reforçar a transmissão de energia. Segundo a Prysmian, a solução foi desenvolvida para atender à necessidade da Taesa em conexões de alta tensão dentro da própria subestação.
Por trás do número milionário, existe uma operação que exige precisão extrema, ambiente controlado, equipamentos especiais e uma logística que não permite erro. Não se trata apenas de enterrar cabos: trata-se de instalar uma infraestrutura sensível, cara e estratégica para o Sistema Interligado Nacional.
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Por que a solução precisou ir para baixo da terra

A subestação já recebe diversas linhas de transmissão, o que tornaria uma nova ligação aérea difícil do ponto de vista técnico e ambiental. Uma instalação convencional exigiria mais espaço, poderia demandar novo terreno e ainda criaria obstáculos para futuras expansões.
A alternativa subterrânea surgiu justamente para contornar esse limite físico. Com os cabos passando por baixo, a estrutura ganha flexibilidade, evita interferências com redes existentes e reduz a necessidade de novas intervenções em áreas sensíveis.
Mesmo com cerca de 2 km de extensão, o projeto é considerado complexo. O desafio não está apenas no tamanho do trecho, mas na quantidade de terminais, conexões e procedimentos exigidos para operar com segurança em uma classe tão elevada de tensão.
O detalhe de R$ 500 mil que revela o tamanho do desafio
Em sistemas desse porte, uma emenda não é um simples ponto de ligação entre dois cabos. Ela precisa manter o isolamento elétrico, suportar altíssima tensão e garantir que não exista falha interna capaz de comprometer a operação.
É por isso que o valor pode impressionar. Uma emenda de cabos em redes dessa categoria pode custar R$ 500 mil, segundo Daniel Azevedo, diretor Comercial da Prysmian. O número mostra como cada componente se transforma em uma peça crítica da obra.
Esse custo também ajuda a explicar por que o Brasil demorou para avançar nesse tipo de solução. A tecnologia exige fornecedores especializados, mão de obra treinada e uma cadeia de testes capaz de comprovar que tudo está pronto antes da energização.

A instalação precisa de uma “sala limpa”
Outro ponto que torna a obra incomum é a exigência de um ambiente controlado durante a montagem. Em trechos críticos, a instalação precisa ocorrer em uma espécie de “sala limpa”, com alto nível de rigor para evitar contaminações.
A preocupação parece exagerada, mas não é. Em cabos de altíssima tensão, partículas de poeira ou falhas mínimas no processo podem afetar o isolamento e aumentar o risco de problemas futuros.
Por isso, a montagem depende de técnicos especializados, acessórios caros e procedimentos semelhantes aos de um laboratório. É uma obra pesada, mas executada com precisão quase cirúrgica.
Prysmian trouxe tecnologia e testes para viabilizar a operação
A Prysmian assumiu um contrato turnkey com a Taesa, ficando responsável desde a fabricação dos cabos até a instalação, assistência técnica, treinamento de mão de obra e testes finais da infraestrutura.
Parte do cabo está sendo finalizada na China, enquanto profissionais envolvidos no projeto receberam treinamento adicional em Livorno, na Itália. A empresa também apoiou a engenharia da Taesa na definição do layout da subestação e no dimensionamento da estrutura.
Outro ponto importante foi a chegada de equipamentos para testes de comissionamento. Com dois reatores ressonantes, a fabricante consegue realizar ensaios que podem atingir 800 kV, etapa essencial para validar a segurança do sistema antes da operação.
O reforço também envolve transformadores gigantes
A rede subterrânea está ligada à instalação de um banco de transformadores de 500 MVA, equipamento fundamental para ampliar a capacidade da subestação. A WEG será responsável pelo fornecimento dos três autotransformadores do projeto.
Cada unidade pesa cerca de 300 toneladas e está sendo fabricada em Betim, Minas Gerais, a aproximadamente 800 km de Assis. O transporte até a subestação exigirá uma operação logística especializada.
Quando estiverem prontos, os equipamentos vão acrescentar 1,5 GVA de capacidade de transformação ao sistema elétrico. Eles também terão papel na adaptação de uma linha de transmissão de 440 kV para 525 kV, alinhando a estrutura ao padrão predominante no país.
Uma obra curta, cara e estratégica
O trecho subterrâneo pode parecer pequeno quando comparado aos milhares de quilômetros de linhas de transmissão existentes no Brasil. Mas sua importância está na tecnologia aplicada e na barreira que pode ser rompida.
Se a operação for bem-sucedida, o modelo pode abrir caminho para outras soluções subterrâneas em locais onde linhas aéreas são inviáveis, como subestações congestionadas, áreas urbanas ou regiões ambientalmente delicadas.
No fim, o que torna essa obra tão chamativa não é apenas o fato de ser inédita. É a combinação de cabos subterrâneos de altíssima tensão, emendas milionárias, ambiente controlado e uma engenharia que precisa funcionar sem espaço para improviso.


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