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Uma máquina remexeu a camada superficial do fundo do mar para aspirar nódulos ricos em níquel, cobalto e manganês e levantou uma pluma de sedimentos que mudou quem domina o habitat

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 24/02/2026 às 15:30
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Cientistas encontraram evidência quantitativa de impacto “quase comercial” no fundo do Pacífico: em poucas horas, um coletor removeu 3.300 toneladas de nódulos, alterou comunidades até fora das trilhas pela pluma de sedimentos e levantou pedidos por limites e monitoramento rigoroso

Durante anos, o debate sobre mineração submarina oscilou entre promessas e incertezas: a promessa de metais essenciais para a transição energética e a dúvida sobre o tamanho real do impacto ambiental. Agora, um teste industrial no Pacífico profundo colocou números concretos na discussão — e acendeu o alerta entre cientistas.

Na Zona Clarion-Clipperton (entre o México e o Havaí), uma operação de coleta de nódulos polimetálicos deixou um sinal claro: a diversidade de espécies caiu cerca de 32% nas áreas diretamente afetadas pela máquina. E, segundo os pesquisadores, isso pode ser apenas o começo.

Um recurso estratégico… com um custo invisível

Os nódulos polimetálicos são formações ricas em níquel, cobalto e manganês, metais considerados estratégicos para baterias, eletrificação e cadeias de suprimento associadas à transição energética.

O problema é que esses nódulos crescem milímetros ao longo de milhões de anos. Em termos humanos, removê-los não significa simplesmente extrair um minério: é retirar um recurso não renovável e, ao mesmo tempo, eliminar a base física que sustenta grande parte da vida no fundo oceânico.

O experimento que mudou o tom do debate

O que torna esse caso especialmente relevante é que não se trata apenas de projeções teóricas. Foi uma das primeiras medições quantitativas do impacto de uma atividade com características próximas a uma operação comercial real.

A 4.300 metros de profundidade, em completa escuridão, um coletor industrial, descrito como tendo o tamanho aproximado de um caminhão, operou por algumas horas aspirando sedimentos e removendo nódulos. Nesse curto período, a máquina teria retirado cerca de 3.300 toneladas de material.

O estudo foi conduzido por um consórcio internacional liderado por pesquisadores do Museu de História Natural de Londres, que acompanharam as mudanças no ecossistema ao longo de cinco anos, comparando áreas impactadas com áreas de controle próximas.

Para diferenciar o impacto direto da mineração das variações naturais do ambiente, os cientistas aplicaram um método estatístico considerado referência em estudos ambientais: a comparação entre áreas afetadas e áreas não afetadas em diferentes momentos.

O veículo operado remotamente (ROV) Isis, do National Oceanography Centre, foi utilizado para investigar as trilhas deixadas pelos primeiros testes industriais de mineração em águas profundas realizados na década de 1970, revelando que as marcas no fundo do mar ainda são visíveis décadas depois. (National Oceanography Centre, 2025)

O que foi encontrado no sedimento

Em laboratório, foram identificados mais de 4.300 organismos (maiores que 0,25 mm), agrupados em 788 espécies, incluindo vermes, pequenos crustáceos e moluscos enterrados na camada superficial do fundo marinho.

E é justamente essa camada que a máquina remexe ao aspirar os nódulos.

Nas trilhas deixadas pelo equipamento:

  • a diversidade caiu aproximadamente 32%
  • a densidade de animais também diminuiu de forma significativa

Mesmo nas áreas onde a máquina não passou diretamente, a pluma de sedimentos levantada pela atividade foi suficiente para alterar a composição das espécies dominantes naquele ambiente.

O detalhe que mais preocupa os cientistas

O estudo também registrou fauna pouco conhecida. Entre os achados está um coral solitário fixado aos nódulos, descrito como nova espécie para a ciência, além de pequenas aranhas marinhas e outros grupos raramente coletados.

Um ponto crítico destacado pelos pesquisadores é que muitas espécies aparecem distribuídas de forma irregular, em escalas de poucos metros. Isso sugere que o fundo abissal pode ser mais diverso e fragmentado do que os mapas atuais indicam, o que torna qualquer tentativa de restauração após a remoção dos nódulos ainda mais improvável.

Marcas que podem durar décadas

Os cientistas observaram que, mesmo sem intervenção humana, a composição das comunidades do fundo do mar varia ao longo do tempo, provavelmente em função da quantidade de matéria orgânica que chega da superfície.

No entanto, comparações com testes históricos de perturbação em outras regiões oceânicas revelam um dado preocupante: as marcas físicas deixadas pela maquinaria podem permanecer visíveis por décadas. Alguns organismos móveis podem retornar, mas outros simplesmente não reaparecem, nem mesmo no médio prazo.

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Por que o debate ganha força agora

O estudo surge em um momento decisivo. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), ligada à ONU, está negociando as regras que poderão permitir, ou restringir, a mineração comercial em águas internacionais. Há anos se discute um “Código de Mineração” que estabeleça padrões ambientais, exigência de estudos de impacto e monitoramento da recuperação dos ecossistemas.

Com dados reais disponíveis, o debate deixa de ser hipotético.

Moratória: a palavra que ganha espaço

Diante das evidências, uma parte crescente da comunidade científica defende uma moratória global, ao menos até que haja informações suficientes sobre impactos acumulados e sobre limites ecológicos que, se ultrapassados, podem tornar os danos irreversíveis.

Pesquisas recentes sugerem que qualquer regulamentação deveria estabelecer limites máximos de perda de biodiversidade e de alteração de habitats, abaixo dos quais a recuperação ainda seria possível.

O que vem a seguir

A mineração submarina cruza diretamente com dois temas centrais nas negociações internacionais atuais: a crise da biodiversidade e as mudanças climáticas, além do avanço de acordos para ampliar áreas marinhas protegidas em alto-mar.

Enquanto governos, organizações científicas e ONGs pressionam por salvaguardas ambientais, outros países e empresas veem nesses recursos uma peça estratégica para a economia da transição energética.

Mas, com medições concretas do fundo do mar em mãos, a pergunta se torna inevitável:

o planeta está preparado para abrir essa nova fronteira, ou estamos prestes a repetir, em escala inédita, um erro ambiental sem possibilidade de reversão?

(O estudo foi publicado na revista Nature Ecology & Evolution*.)*

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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