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Um satélite da NASA cruzou o caminho de um tsunami gigante no Pacífico cerca de 70 minutos após um terremoto de magnitude 8,8 e captou um registro inédito que pode mudar a forma de estudar essas ondas

Escrito por Ana Alice
Publicado em 17/04/2026 às 23:08
Assista o vídeoSatélite da NASA registra em alta resolução um tsunami no Pacífico e revela detalhes inéditos sobre a propagação da onda. (Imagem: Ilustrativa)
Satélite da NASA registra em alta resolução um tsunami no Pacífico e revela detalhes inéditos sobre a propagação da onda. (Imagem: Ilustrativa)
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Um terremoto extremo, um satélite em posição rara e medições inéditas no Pacífico colocaram a ciência diante de um registro pouco comum, capaz de ampliar a observação de tsunamis em mar aberto.

O terremoto de magnitude 8,8 que atingiu a zona de subducção Kuril-Kamchatka, gerou um tsunami que cruzou o Pacífico e produziu um registro incomum para a ciência.

Cerca de 70 minutos após o abalo, o satélite SWOT, missão conjunta da NASA e da agência espacial francesa CNES, sobrevoou a área e mediu a deformação da superfície do mar em alta resolução.

O registro não corresponde a uma fotografia convencional, mas a um mapeamento detalhado da altura da água em mar aberto.

Segundo a NASA e os autores do estudo, trata-se do primeiro rastreamento espacial em alta resolução de um grande tsunami associado a uma zona de subducção.

O que o satélite SWOT observou no tsunami no Pacífico

A coincidência entre a passagem do satélite e o avanço da onda permitiu um tipo de observação pouco comum.

Missões altimétricas anteriores já haviam cruzado tsunamis em mar aberto, mas, em geral, captavam apenas uma faixa estreita da superfície oceânica.

No caso do SWOT, a área observada foi mais ampla.

O instrumento mediu uma faixa de até cerca de 120 quilômetros de largura, com precisão suficiente para mostrar a forma da frente de onda e as perturbações que vinham atrás dela.

Em mar aberto, a altura medida na crista principal superou 45 centímetros.

Embora o número pareça limitado, especialistas destacam que, em oceano profundo, pequenas variações na altura da superfície representam o deslocamento de um grande volume de água e podem se amplificar em regiões costeiras rasas.

Esse alcance de observação ajuda a explicar o interesse científico pelo caso.

As boias do sistema DART, usadas no monitoramento de tsunamis em águas profundas, continuam centrais para alertas e medições pontuais.

Já o satélite permite observar a organização da onda entre esses pontos.

Ao comentar a utilidade dos dados, o oceanógrafo Angel Ruiz-Angulo, da Universidade da Islândia, afirmou que o conjunto de medições funciona como “um novo par de óculos” para a pesquisa sobre tsunamis.

A comparação foi usada para destacar o ganho de detalhe proporcionado pelo satélite em relação aos instrumentos tradicionais.

Como a onda se comportou em mar aberto

Os dados coletados no episódio de Kamchatka indicaram um padrão mais complexo do que o descrito pelos modelos mais simples.

Em vez de uma frente uniforme, o satélite registrou um campo de ondas com dispersão e ondulações secundárias atrás da crista principal.

Na prática, isso significa que a energia do tsunami não avançou de maneira única e regular ao longo de todo o trajeto.

Segundo os autores do estudo, parte dessa energia se distribuiu em componentes diferentes, o que altera a forma da onda à medida que ela se propaga pelo oceano.

A observação tem implicações para a modelagem matemática desses eventos.

De acordo com o trabalho publicado na revista The Seismic Record, simulações que incorporaram dispersão reproduziram melhor o padrão observado pelo SWOT do que os modelos que desconsideravam esse efeito.

Pesquisadores da área avaliam que esse tipo de diferença pode influenciar a estimativa do horário de chegada das ondas, da intensidade relativa entre cristas sucessivas e da maneira como a água entra em baías, portos e faixas costeiras.

Isso não invalida os sistemas já usados, mas indica a possibilidade de ajustes em cenários futuros.

O que os dados revelaram sobre o terremoto de Kamchatka

As medições do tsunami também serviram para reavaliar características do terremoto que deu origem ao fenômeno.

Ao combinar os dados do SWOT com informações de três boias DART próximas, os cientistas revisaram a estimativa da ruptura sísmica ao longo da falha.

Modelos iniciais apontavam uma ruptura de cerca de 300 quilômetros.

Com a nova inversão de dados, os autores estimaram uma extensão próxima de 400 quilômetros ao longo da interface tectônica.

O estudo também calculou um pico de soerguimento em torno de 4 metros e indicou que o modelo que reúne dados do tsunami e da deformação sísmico-geodésica explica melhor o conjunto das observações disponíveis.

Segundo os pesquisadores, esse tipo de combinação melhora a reconstrução do evento após o terremoto.

A análise reforça um ponto já conhecido na sismologia: o potencial de um tsunami não depende apenas da magnitude do terremoto, mas também da forma como a falha se rompe sob o fundo do mar.

No caso de 2025, os autores identificaram semelhanças com segmentos da megafalha rompida no terremoto de 1952, mas com uma geometria diferente.

Segundo o estudo, a ruptura de 2025 ocorreu mais para dentro da interface de subducção, sem evidência robusta de ruptura muito rasa junto à trincheira oceânica.

Essa diferença, de acordo com os pesquisadores, ajuda a explicar por que o evento de 2025 teve grande alcance no Pacífico, mas impacto menor do que o associado ao terremoto histórico de 1952.

Por que o caso ganhou importância para a ciência

O terremoto de Kamchatka entrou para a lista dos maiores já registrados por instrumentos modernos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, o classifica entre os seis maiores da era instrumental.

A NOAA, agência dos Estados Unidos responsável por monitoramento oceânico e atmosférico, registrou que o tsunami veio acompanhado por uma sequência intensa de réplicas e por leituras expressivas nas boias DART.

Em uma delas, a amplitude máxima chegou a 0,85 metro, uma das maiores já medidas por esse sistema.

Esses dados ampliaram o interesse pelo caso porque oferecem uma combinação rara: um terremoto extremo, medições oceânicas em diferentes pontos e um sobrevoo de satélite no momento em que a onda ainda se deslocava em mar aberto.

Para pesquisadores, esse conjunto permite comparar modelos com observações diretas em uma escala pouco disponível até agora.

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O que muda na previsão de tsunamis

Apesar do ganho científico, o episódio também evidenciou um limite operacional.

O SWOT tem utilidade reconhecida para análise pós-evento e para aperfeiçoamento de modelos, mas não substitui os sistemas de alerta que operam em minutos com base em sismologia, marégrafos e boias oceânicas.

Documentos oficiais da missão indicam que os produtos científicos do satélite ainda têm latência de dias.

Em materiais técnicos ligados à missão, esse intervalo aparece em faixas que vão de cerca de três a cinco dias para produtos processados rotineiramente, embora existam esforços para reduzir esse prazo em aplicações de quase tempo real.

Por isso, o papel atual do satélite está mais ligado à reconstrução detalhada de grandes eventos e ao teste de modelos usados por pesquisadores.

Ainda assim, o caso de Kamchatka passou a ser citado como exemplo do potencial da altimetria espacial para ampliar a compreensão sobre a propagação de tsunamis em mar aberto.

Mais do que registrar a passagem da onda, o sobrevoo permitiu observar como o tsunami se organizou ao longo de centenas de quilômetros.

Para especialistas, esse tipo de evidência pode ajudar a revisar hipóteses sobre a física dessas ondas e a calibrar, com mais precisão, ferramentas usadas em estudos de risco costeiro.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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