O contrato que Berlim oferece é simbólico, 1 euro de aluguel, mas com uma exigência pesada: o investidor terá de bancar sozinho a reforma e a remoção do amianto que fechou o lugar em 2014. Erguido na Guerra Fria como vitrine capitalista contra o lado socialista, o colosso de 320 metros hoje é uma bela adormecida tombada.
Um prédio em forma de nave espacial que custou cerca de 1 bilhão de marcos alemães e já foi um dos maiores centros de congressos da Europa está abandonado em Berlim desde 2014, e agora a cidade procura, por meio de uma licitação internacional, quem queira reformá-lo e operá-lo por 99 anos pagando um valor apenas simbólico. Trata-se do ICC, o Centro Internacional de Congressos, um ícone da arquitetura da Guerra Fria que segue fechado por causa da contaminação por amianto.
Inaugurado em 1979 na antiga Berlim Ocidental, o prédio foi projetado pelo casal de arquitetos Ralf Schüler e Ursulina Schüler-Witte, vencedores de um concurso ainda em 1965. Na época de sua abertura, era o edifício mais caro construído em Berlim Ocidental desde a Segunda Guerra Mundial, símbolo do otimismo tecnológico e da disputa ideológica que marcava a cidade dividida. Hoje, esse gigante adormecido espera por uma nova vida.
Um prédio nascido da Guerra Fria

Naquele cenário de disputa entre o bloco capitalista e o socialista, cada gesto virava demonstração de força, inclusive a arquitetura. A Alemanha Oriental havia erguido o Palácio da República, uma vitrine luxuosa do regime comunista, e o Ocidente sentiu que precisava responder com algo ainda maior e mais impressionante.
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A resposta foi este prédio monumental, concebido para ser o maior centro de congressos da Europa, uma espécie de parque de diversões capitalista voltado a conferências, feiras e eventos internacionais. Mais do que um espaço de eventos, o edifício foi pensado como uma declaração política: mostrar que Berlim Ocidental era um polo de negócios e cultura capaz de prosperar, mesmo cercada por território controlado pelo lado soviético.
A engenharia da nave espacial

Com cerca de 320 metros de comprimento, 80 de largura e 40 de altura, o prédio é tão grande que seria possível deitar a Torre Eiffel ao seu lado e ela quase caberia no comprimento da estrutura. Seu visual futurista, com vigas de aço expostas, ângulos agudos e aparência mecânica, mistura o brutalismo com a arquitetura de alta tecnologia, e rendeu ao edifício o apelido de nave espacial, tanto por fora quanto por dentro.
A engenharia reserva soluções geniais. Como o terreno é cercado por rodovias e antenas de rádio movimentadas, os arquitetos criaram um conceito de prédio dentro do prédio: a estrutura interna, de concreto, foi isolada da casca externa de aço para bloquear ruído e vibração. As duas maiores salas, com capacidade para milhares de pessoas, ficam literalmente suspensas por tirantes de aço presos às enormes treliças do telhado, o que garante uma acústica excepcional e permite vários eventos simultâneos sem interferência.
O auge e a decadência de um ícone
No total, o ICC chegou a ter cerca de 80 salas e capacidade para até 20 mil pessoas, com um auditório principal para 5.000, sendo um dos maiores centros de congressos do mundo. Por décadas, recebeu grandes conferências e eventos internacionais e se tornou um marco tão querido que, mesmo dividindo opiniões, acabou ganhando status quase de culto entre admiradores da arquitetura.
Com o passar dos anos, porém, manter o prédio em funcionamento ficou cada vez mais difícil. Além dos altos custos de operação e do tamanho difícil de aproveitar de forma econômica, sobretudo após o fim da Guerra Fria, surgiu o problema decisivo: a contaminação por amianto, material usado na construção e hoje reconhecido como perigoso à saúde. Foi essa contaminação a causa central do fechamento, em abril de 2014, e não apenas o fato de o prédio ser grande demais.
Abandonado, mas tombado e disputado
Desde 2014, o ICC permanece oficialmente fechado, mas longe de esquecido. Durante esse período, chegou a servir como abrigo emergencial para refugiados, como centro de vacinação contra a covid-19 e como palco de exposições de arte, incluindo uma mostra que esgotou ingressos e mostrou o enorme apelo popular do espaço. Em 2019, o edifício foi oficialmente tombado como patrimônio histórico, justamente para protegê-lo de uma eventual demolição.
O tombamento reflete o carinho dos berlinenses por essa estrutura. Sempre que se cogitou demolir o prédio para construir algo novo, houve forte oposição da população, que enxerga no ICC um dos locais mais simbólicos da cidade. Esse apego transformou o edifício em um caso emblemático sobre o que fazer com gigantes arquitetônicos que envelhecem e perdem a função original, mas seguem carregados de valor afetivo e histórico.
O contrato de 99 anos que não é bem de graça
Para tentar reviver a bela adormecida, como o prédio foi apelidado, o governo de Berlim lançou uma licitação internacional convidando investidores e arquitetos a apresentarem ideias de reforma e uso. O grande chamariz é o contrato de arrendamento por 99 anos cobrando um valor apenas simbólico, citado como 1 euro, o que faz muita gente pensar que a cidade está praticamente doando o prédio.
Mas aqui vale o esclarecimento: não é bem de graça. Em troca do aluguel simbólico, o investidor terá de bancar sozinho toda a reforma do edifício, incluindo a custosa remoção do amianto, a atualização estrutural e a instalação de uma infraestrutura técnica praticamente nova, sem aporte financeiro do Estado de Berlim. A única exigência adicional é preservar a estrutura tombada e manter o espaço aberto ao público, o que torna o desafio tão grande quanto a oportunidade.
O que o futuro reserva para o prédio
O processo é conduzido pela senadora de economia de Berlim, Franziska Giffey, nomeada uma espécie de embaixadora do ICC, que já comparou o potencial do edifício a um Centre Pompidou berlinense, em referência ao famoso centro cultural de Paris. A proposta é que a escolha não seja imposta, mas resulte de um diálogo entre a cidade e quem apresentar o conceito mais inovador e viável para o espaço.
A expectativa é que uma decisão seja tomada até o fim de 2026, definindo o destino desse colosso. Localizado em uma Berlim que hoje é capital de startups e polo de inovação, o ICC pode renascer como centro cultural, espaço de eventos ou algo totalmente novo. O caso simboliza um dilema cada vez mais comum nas grandes cidades: como reaproveitar megaestruturas do passado em vez de simplesmente demoli-las.
O ICC de Berlim é, ao mesmo tempo, uma proeza de engenharia, um retrato da Guerra Fria e um alerta sobre os custos de manter prédios monumentais vivos ao longo do tempo. De vitrine capitalista a nave espacial abandonada, o edifício agora aposta numa reinvenção que dependerá da coragem de algum investidor disposto a encarar a reforma de um gigante tombado. Seu futuro, que deve ser decidido em breve, mostra como o patrimônio do século XX desafia as cidades do século XXI.
Você toparia visitar ou já conhecia esse prédio em forma de nave espacial abandonado em Berlim? Acha que vale a pena gastar fortunas para reformar megaestruturas antigas ou seria melhor demoli-las e construir algo novo? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre o destino do ICC e compartilhe a matéria com quem se interessa por arquitetura, história e grandes construções.


Aqui no Brasil, viraria shopping center..
Arquiteta zeni pinheiro