O segredo não está só no motor, mas na combinação dele com a parte híbrida e com um combustível sintético feito sem petróleo, a partir de resíduos. O conjunto atinge 44,2% de eficiência térmica, um número alto para a categoria, e promete cortar quase 1,8 tonelada de CO2 por ano em um carro médio. Tudo sem trocar uma peça do carro.
Um motor a gasolina que gasta menos de 3,3 litros a cada 100 quilômetros, cerca de 40% abaixo da média europeia, foi apresentado pela Horse Powertrain, joint venture controlada por Renault, Geely e a petroleira saudita Aramco. O sistema funciona com gasolina 100% renovável e surge em um momento decisivo, em que a Europa discute banir a venda de carros novos com motor a combustão a partir de 2035.
É importante esclarecer um ponto que costuma gerar confusão: não se trata exatamente de um motor a gasolina comum e isolado, mas de um conjunto híbrido, batizado de Horse H12 Concept, que combina um motor de combustão de alta eficiência com a parte elétrica e roda com um combustível sintético renovável. O projeto foi desenvolvido em parceria com a empresa espanhola de energia Repsol e apresentado oficialmente em fevereiro de 2026, em eventos do setor automotivo na Europa.
O que é a Horse Powertrain

Diferentemente do que alguns sites publicaram, a Horse Powertrain não é uma fabricante japonesa. Trata-se de uma empresa global de sistemas de propulsão, com sede em Londres, controlada em partes iguais pela francesa Renault e pela chinesa Geely, com 45% cada, além da petroleira Aramco, da Arábia Saudita, com 10%. Criada em 2024, ela reúne as operações de motores a combustão e híbridos das duas montadoras.
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A companhia opera 17 fábricas e cinco centros de pesquisa pelo mundo, emprega cerca de 19 mil pessoas e fornece motores e sistemas híbridos para marcas como Renault, Geely, Volvo, Nissan, Mitsubishi e Proton. Ou seja, é um dos maiores fornecedores globais de tecnologia de combustão e hibridização, o que dá peso à aposta de manter vivo o motor a gasolina, ainda que reinventado, num cenário de transição para os elétricos.
Como o motor chega a 3,3 litros por 100 km

O Horse H12 Concept é uma evolução do motor H12, da mesma família usada em modelos híbridos como o Nissan Kicks e-Power. A engenharia trabalhou em várias frentes para reduzir o consumo. O motor adota uma alta taxa de compressão de 17 para 1, um sistema redesenhado de recirculação dos gases de escape, turbo otimizado, ignição de alta energia e menor atrito interno, com ajuda de lubrificantes específicos da Repsol.
O resultado é uma eficiência térmica de pico de 44,2%, índice que representa quanto da energia do combustível vira de fato movimento, e que é considerado alto para motores dessa categoria. Combinado a uma caixa de câmbio híbrida com gestão otimizada de energia, o conjunto atinge consumo inferior a 3,3 litros por 100 quilômetros no ciclo europeu WLTP, cerca de 40% menos que a média dos carros de passeio novos registrados na Europa em 2023.
A gasolina renovável da Repsol
O combustível é parte central da história. O protótipo funciona com a Nexa 95, uma gasolina de origem 100% renovável desenvolvida pela Repsol, produzida a partir de resíduos e matérias-primas renováveis, e não do petróleo convencional. Segundo a empresa, esse combustível é totalmente compatível com a frota atual de veículos a gasolina, sem necessidade de qualquer modificação mecânica nos carros.
A Repsol começou a produzir essa gasolina renovável em escala industrial em outubro de 2025, em sua unidade de Tarragona, no nordeste da Espanha. Por enquanto, o produto está disponível em cerca de 30 postos de serviço no país. A petroleira também desenvolveu uma versão renovável para motores a diesel, que promete reduzir as emissões líquidas de CO2 em até 90% em comparação com o combustível fóssil tradicional.
O ponto que a propaganda não destaca
Apesar do entusiasmo, é importante manter o senso crítico diante dos números. Os combustíveis renováveis e sintéticos ainda custam mais caro que os tradicionais, com acréscimo médio em torno de 10 centavos de euro por litro, e são produzidos em escala pequena, com presença em apenas algumas dezenas de postos em um único país. Levar essa solução a milhões de veículos exigiria uma expansão gigantesca de produção, com impacto ainda incerto sobre o preço final.
Há também um debate de fundo. Críticos argumentam que apostar em combustíveis renováveis pode ser, em parte, uma estratégia da indústria para prolongar a vida do motor a combustão diante das metas de descarbonização, em vez de acelerar a eletrificação. Defensores, por outro lado, sustentam que é melhor reduzir emissões já, com a frota que existe hoje, do que esperar a substituição completa por carros elétricos, num argumento de neutralidade tecnológica. Os dois lados têm pontos legítimos, e o leitor merece conhecer ambos.
A guerra do motor a combustão na Europa
Toda essa movimentação acontece em meio a uma disputa intensa no continente europeu. A União Europeia aprovou regras para banir a venda de carros novos a gasolina e diesel a partir de 2035, mas o tema vem sendo rediscutido, com pressão de montadoras, fornecedores e alguns governos por flexibilizações, inclusive a possibilidade de manter motores a combustão que usem apenas combustíveis neutros em carbono.
Nesse contexto, soluções como a do Horse H12 Concept funcionam como uma carta na mesa de negociação. Elas tentam mostrar que o motor a combustão ainda pode ter futuro, desde que combinado a hibridização e a combustíveis de baixo carbono, em vez de ser simplesmente aposentado. O sucesso comercial dessa visão, no entanto, depende de regulação, preço e disponibilidade dos novos combustíveis em larga escala.
Por que essa pauta importa para o leitor do CPG
Para o público de petróleo, gás e energia, esse caso é especialmente relevante. Ele mostra como uma das maiores petroleiras do mundo, a Aramco, está investindo diretamente em tecnologia de propulsão e em combustíveis renováveis, sinal de que o setor de óleo e gás se prepara para um futuro em que a molécula de combustível pode mudar, mesmo que o motor a combustão continue existindo. É a indústria do petróleo buscando se reposicionar diante da transição energética.
No Brasil, o tema dialoga diretamente com a força dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, em que o país é referência mundial. A discussão sobre gasolina sintética e combustíveis renováveis na Europa ajuda a entender o valor estratégico da matriz brasileira de combustíveis renováveis, e levanta a pergunta sobre que papel o Brasil pode ocupar em um mercado global de combustíveis de baixo carbono nas próximas décadas.
O Horse H12 Concept é uma demonstração concreta de que o motor a combustão ainda tem cartas a jogar, principalmente quando aliado à hibridização e a combustíveis renováveis. Ao mesmo tempo, é preciso encarar os números com equilíbrio: trata-se de um protótipo promissor, mas dependente de combustíveis ainda caros e pouco disponíveis, em meio a uma disputa regulatória que vai definir o futuro da indústria automotiva. A próxima década dirá se essa será uma alternativa real ao carro elétrico ou apenas uma ponte de transição.
E você, acredita que o motor a combustão movido a combustível renovável tem futuro, ou o caminho é mesmo a eletrificação total? Pagaria um pouco mais caro por uma gasolina 100% renovável? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o fim dos motores a combustão e compartilhe a matéria com quem se interessa por carros, energia e meio ambiente.

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