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Um ex-ajudante de pedreiro de 30 anos deixou o litoral paulista de bicicleta com apenas R$ 48 na conta, subiu uma serra do país vizinho a 2.850 metros empurrando o veículo rumo ao “fim do mundo” e viu o dinheiro das doações travado sem explicação

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 19/09/2026 às 10:29 Atualizado em 19/09/2026 às 11:46
Assista o vídeoGeorgios Aciro Sarmento Beinis no começo da viagem, com a bicicleta carregada, e já na Argentina, agasalhado para o frio.
Georgios Aciro Sarmento Beinis no começo da viagem, com a bicicleta carregada, e já na Argentina, agasalhado para o frio. Foto: Arquivo pessoal/Reprodução A Tribuna
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Ele saiu de São Vicente de bicicleta com R$ 48 na conta, empurrou a “Azulzinha” por 100 quilômetros numa serra argentina, dormiu com quatro calças no frio da cordilheira e, a caminho de Ushuaia, descobriu que o adversário mais teimoso da viagem não estava na estrada, estava no banco

No dia 168 de viagem, o painel do vídeo mostra "6.000km percorridos com nossa azulzinha".
No dia 168 de viagem, o painel do vídeo mostra “6.000km percorridos com nossa azulzinha”. Foto: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante

Georgios Aciro Sarmento Beinis tinha 30 anos e R$ 48 na conta quando subiu na bicicleta, na manhã de 3 de abril de 2026, e saiu pedalando do Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral paulista, rumo a Ushuaia, na Argentina.

Ushuaia é a cidade mais ao sul do continente americano, aquela que todo mundo conhece como o “fim do mundo”, e a bicicleta que ele escolheu para chegar lá é usada e tem até nome: “Azulzinha”.

O roteiro é fácil de explicar e duro de cumprir, porque ele precisa descer a costa do Brasil, atravessar o Uruguai inteiro e cruzar boa parte da Argentina, relata o Cidade a Cidade.

No dia 168 de viagem, 17 de setembro de 2026, ele mostrou no Instagram que já tinha pedalado mais de 6.000 quilômetros e estava na Patagônia, na província argentina de Neuquén.

O dinheiro que sumiu da conta bancária sem aviso

No meio do caminho apareceu um problema que nenhuma bicicletaria resolve: em 15 de agosto de 2026, a conta bancária onde ele guardava o dinheiro da viagem foi bloqueada sem explicação do banco, relata o Cidade a Cidade.

A biografia do perfil no Instagram traz o CPF para Pix e o aviso de uma rifa de apoio à viagem.
A biografia do perfil no Instagram traz o CPF para Pix e o aviso de uma rifa de apoio à viagem. Foto: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante

E não era trocado, ali estava o equivalente a uns dois meses de estrada, mais o Pix que os seguidores mandavam e o dinheiro das rifas feitas para pagar peças, barraca e roupa de frio.

Com a conta bancária congelada, ele passou a usar uma segunda conta só para trocar dinheiro por pesos argentinos. Georgios desconfia de alguma denúncia ou estorno, mas até 28 de agosto de 2026, quando a reportagem saiu, nada estava confirmado.

O Instagram dele, com 9.196 seguidores em 19 de setembro de 2026, dá a pista de que o nó na conta bancária não se desfez, porque a biografia mostra o CPF para Pix e avisa que tem “rifa valendo” para reforçar o caixa.

Do canteiro de obras para cima de duas rodas

Antes do pedal, a rotina era de obra. Georgios trabalhava como ajudante de pedreiro e, como contou numa entrevista ao vivo a um telejornal local, publicada no Instagram em 21 de julho de 2026, também teve emprego de carteira assinada.

A vontade de ir de bicicleta nasceu no fim de 2024, vendo nas redes gente cruzando a América do Sul sobre duas rodas. “Eu via muita gente viajando, muita gente conhecendo outros lugares”, disse na TV.

Ele escolheu a bicicleta em vez de carro ou moto porque, na definição dele, ela “te mostra muito mais coisas”.

Barraca, posto de gasolina e sardinha em lata

Tinha também a matemática, já que sem dinheiro para hospedagem, transporte e comida numa viagem desse tamanho, o cicloturismo foi o jeito de fazer a conta fechar, como ele explicou ao Cidade a Cidade.

O manual de sobrevivência dele, contado ao site e mostrado nos vídeos:

  • dorme em barraca;
  • foge de hotel e de camping pago;
  • procura um posto de gasolina ou um canto seguro para passar a noite;
  • cozinha o que aguenta a estrada: arroz, sardinha em lata, cebola e ovo.

Uma infância que começou na Grécia

Recomeçar longe de casa não é novidade para ele. Georgios nasceu na Grécia, filho de pai grego e mãe brasileira que se conheceram por lá, e o pai morreu quando ele tinha 3 anos, relata o Cidade a Cidade.

A família voltou ao Brasil e ele cresceu em São Vicente, onde vive o irmão. Na entrevista de TV, contou que o irmão ficou preocupado no começo da viagem, mas depois passou a apoiar.

Quando o apresentador o convidou a voltar ao programa ao completar a rota até Ushuaia, ele respondeu com um plano ainda maior, de ida e volta de bicicleta: “vou voltar pedalando, vou fazer ida e volta pedalando”.

A bicicleta que precisou ser empurrada por 100 quilômetros

O pior pedaço até aqui foi Altas Cumbres, na Argentina, onde Georgios chegou a 2.850 metros de altitude e empurrou a bicicleta por cerca de 100 quilômetros, a pé e serra acima, com a Azulzinha do lado, relata o Cidade a Cidade.

A bicicleta "Azulzinha", carregada com garrafa de água e bolsa de guidão, parada numa parada da viagem.
A bicicleta “Azulzinha”, carregada com garrafa de água e bolsa de guidão, parada numa parada da viagem. Foto: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante

Na descida, ele tirou o atraso com 140 quilômetros em dez horas seguidas, das 9h às 19h, até a capital de San Luis, o que dá uma média de 14 quilômetros por hora com o dia inteiro em cima do selim.

Um pneu furado, quatro parafusos soltos e um presente

A Azulzinha também cobrou a parte dela. No caminho para Mendoza, a reportagem conta que o pneu furou 20 quilômetros depois de San Luis e ele teve de voltar pelo mesmo trecho, e de quebra os quatro parafusos das rodas estavam soltos.

Aí a sorte ajudou, porque numa bicicletaria do centro o dono reconheceu Georgios do Instagram e deu de presente os parafusos que faltavam.

Mais adiante, uma seguidora doou um pneu novo para a roda dianteira, e freio e marcha também passaram por reparo antes de a bicicleta voltar para a estrada.

Quatro calças, três blusas e um cachecol contra o frio

Se a serra cansa, o frio da cordilheira assusta. Ele relatou temperaturas negativas e, sem roupa térmica no começo, dormia vestindo quatro calças, três blusas, várias meias e um cachecol.

Para completar, o zíper da barraca quebrou no meio do caminho, e ele improvisou com uma lona até conseguir comprar calça, blusa e luvas térmicas para encarar o resto do inverno argentino.

Em Zapala, quem decide a hora de sair é o vento

Mesmo agasalhado, quem manda no dia é o tempo. Em vídeo de 18 de setembro de 2026, já em Zapala, na província de Neuquén, ele avisou que não sairia porque o vento contra passava de 28 quilômetros por hora, o dobro da média que ele manteve naquele dia até San Luis.

Por isso ficou descansando num camping que cobrava 2.500 pesos argentinos por pessoa, uma exceção à regra de fugir de camping pago. “Não compensa se matar nesse vento”, resumiu, prometendo seguir no dia seguinte, com vento a favor.

Seis mil quilômetros de bicicleta até a Patagônia argentina

No dia 168, o vídeo mostra Georgios caminhando com a bicicleta por um bosque de álamos e um recado na tela: “6.000km percorridos com nossa azulzinha”.

Georgios comemora a chegada a Zapala, na província argentina de Neuquén, mais uma etapa da rota até Ushuaia.
Georgios comemora a chegada a Zapala, na província argentina de Neuquén, mais uma etapa da rota até Ushuaia. Foto: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante
Ele retoma a estrada saindo de Zapala rumo a Junín de los Andes, a 189 quilômetros. Vídeo: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante

Parece exagero para quem sabe que São Paulo e Ushuaia ficam a cerca de 5.000 quilômetros pela rota rodoviária mais direta, segundo calculadoras de distância, mas não é, porque ele simplesmente não foi pelo caminho mais curto.

A conta, trecho a trecho, somando as estradas que ele de fato percorreu:

  • São Vicente ao Chuí, pela costa brasileira: cerca de 1.600 km;
  • travessia do Uruguai: uns 600 km;
  • da fronteira da Argentina até Mendoza: 1.160 km;
  • de Mendoza a Zapala: cerca de 990 km.

Só aí já são 4.300 quilômetros, sem contar desvios e os dias rodando dentro das cidades. Em Zapala, inclusive, ele comemorou “mais um desafio concluído na Ruta 40”.

O curioso é que, com os 6.000 quilômetros do painel, ele já pedalou mais do que os cerca de 5.000 da rota direta até Ushuaia, e ainda nem chegou lá.

Fazendo outra conta, 6.000 quilômetros em 168 dias dão uma média de uns 36 quilômetros por dia, contando folgas, consertos e dias de vento contra.

O trajeto que ainda falta até o fim do mundo

Georgios filma a viagem desde o começo, e boa parte dos vídeos também vai para o canal dele no YouTube. No terceiro dia, ainda no litoral de São Paulo, ele já publicava o resumo de 190 quilômetros pedalados, no mesmo formato que usa até agora:

Georgios prepara arroz, sardinha, cebola e ovo numa noite de acampamento em Zapala, na Argentina.
Georgios prepara arroz, sardinha, cebola e ovo numa noite de acampamento em Zapala, na Argentina. Foto: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante
Na janta em Zapala, ele avisa que a “família” seguiria no dia seguinte rumo a Bariloche. Vídeo: Reprodução/Instagram @pedalsemrumocicloviajante
Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Mais de 160 dias depois, a rotina é parecida, só que mais ao sul e mais fria. Na noite de 18 de setembro de 2026, em Zapala, ele mostrou a janta, que era arroz, sardinha, tomate, cebola e ovo.

No mesmo vídeo, avisou a “família”, como chama os seguidores, que a partida seria na manhã seguinte, rumo a Bariloche. Outro vídeo mostra a saída de Zapala em direção a Junín de los Andes, a 189 quilômetros.

Ele não tem data para chegar a Ushuaia e segue o plano de sempre, de um dia de cada vez.

Pela rota que passa por Bariloche e desce até o extremo sul da Argentina, faltam cerca de 2.600 quilômetros, e na média de 36 por dia seriam pouco mais de 70 dias de estrada, se o vento deixar.

A bicicleta anda e a conta bancária não, porque até 19 de setembro de 2026 o Instagram dele ainda pedia Pix e divulgava rifa. Ushuaia fica a 2.600 quilômetros, e a resposta do banco, pelo visto, fica mais longe.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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