Ele saiu de São Vicente de bicicleta com R$ 48 na conta, empurrou a “Azulzinha” por 100 quilômetros numa serra argentina, dormiu com quatro calças no frio da cordilheira e, a caminho de Ushuaia, descobriu que o adversário mais teimoso da viagem não estava na estrada, estava no banco

Georgios Aciro Sarmento Beinis tinha 30 anos e R$ 48 na conta quando subiu na bicicleta, na manhã de 3 de abril de 2026, e saiu pedalando do Jardim Rio Branco, em São Vicente, no litoral paulista, rumo a Ushuaia, na Argentina.
Ushuaia é a cidade mais ao sul do continente americano, aquela que todo mundo conhece como o “fim do mundo”, e a bicicleta que ele escolheu para chegar lá é usada e tem até nome: “Azulzinha”.
O roteiro é fácil de explicar e duro de cumprir, porque ele precisa descer a costa do Brasil, atravessar o Uruguai inteiro e cruzar boa parte da Argentina, relata o Cidade a Cidade.
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No dia 168 de viagem, 17 de setembro de 2026, ele mostrou no Instagram que já tinha pedalado mais de 6.000 quilômetros e estava na Patagônia, na província argentina de Neuquén.
O dinheiro que sumiu da conta bancária sem aviso
No meio do caminho apareceu um problema que nenhuma bicicletaria resolve: em 15 de agosto de 2026, a conta bancária onde ele guardava o dinheiro da viagem foi bloqueada sem explicação do banco, relata o Cidade a Cidade.

E não era trocado, ali estava o equivalente a uns dois meses de estrada, mais o Pix que os seguidores mandavam e o dinheiro das rifas feitas para pagar peças, barraca e roupa de frio.
Com a conta bancária congelada, ele passou a usar uma segunda conta só para trocar dinheiro por pesos argentinos. Georgios desconfia de alguma denúncia ou estorno, mas até 28 de agosto de 2026, quando a reportagem saiu, nada estava confirmado.
O Instagram dele, com 9.196 seguidores em 19 de setembro de 2026, dá a pista de que o nó na conta bancária não se desfez, porque a biografia mostra o CPF para Pix e avisa que tem “rifa valendo” para reforçar o caixa.
Do canteiro de obras para cima de duas rodas
Antes do pedal, a rotina era de obra. Georgios trabalhava como ajudante de pedreiro e, como contou numa entrevista ao vivo a um telejornal local, publicada no Instagram em 21 de julho de 2026, também teve emprego de carteira assinada.
A vontade de ir de bicicleta nasceu no fim de 2024, vendo nas redes gente cruzando a América do Sul sobre duas rodas. “Eu via muita gente viajando, muita gente conhecendo outros lugares”, disse na TV.
Ele escolheu a bicicleta em vez de carro ou moto porque, na definição dele, ela “te mostra muito mais coisas”.
Barraca, posto de gasolina e sardinha em lata
Tinha também a matemática, já que sem dinheiro para hospedagem, transporte e comida numa viagem desse tamanho, o cicloturismo foi o jeito de fazer a conta fechar, como ele explicou ao Cidade a Cidade.
O manual de sobrevivência dele, contado ao site e mostrado nos vídeos:
- dorme em barraca;
- foge de hotel e de camping pago;
- procura um posto de gasolina ou um canto seguro para passar a noite;
- cozinha o que aguenta a estrada: arroz, sardinha em lata, cebola e ovo.
Uma infância que começou na Grécia
Recomeçar longe de casa não é novidade para ele. Georgios nasceu na Grécia, filho de pai grego e mãe brasileira que se conheceram por lá, e o pai morreu quando ele tinha 3 anos, relata o Cidade a Cidade.
A família voltou ao Brasil e ele cresceu em São Vicente, onde vive o irmão. Na entrevista de TV, contou que o irmão ficou preocupado no começo da viagem, mas depois passou a apoiar.
Quando o apresentador o convidou a voltar ao programa ao completar a rota até Ushuaia, ele respondeu com um plano ainda maior, de ida e volta de bicicleta: “vou voltar pedalando, vou fazer ida e volta pedalando”.
A bicicleta que precisou ser empurrada por 100 quilômetros
O pior pedaço até aqui foi Altas Cumbres, na Argentina, onde Georgios chegou a 2.850 metros de altitude e empurrou a bicicleta por cerca de 100 quilômetros, a pé e serra acima, com a Azulzinha do lado, relata o Cidade a Cidade.

Na descida, ele tirou o atraso com 140 quilômetros em dez horas seguidas, das 9h às 19h, até a capital de San Luis, o que dá uma média de 14 quilômetros por hora com o dia inteiro em cima do selim.
Um pneu furado, quatro parafusos soltos e um presente
A Azulzinha também cobrou a parte dela. No caminho para Mendoza, a reportagem conta que o pneu furou 20 quilômetros depois de San Luis e ele teve de voltar pelo mesmo trecho, e de quebra os quatro parafusos das rodas estavam soltos.
Aí a sorte ajudou, porque numa bicicletaria do centro o dono reconheceu Georgios do Instagram e deu de presente os parafusos que faltavam.
Mais adiante, uma seguidora doou um pneu novo para a roda dianteira, e freio e marcha também passaram por reparo antes de a bicicleta voltar para a estrada.
Quatro calças, três blusas e um cachecol contra o frio
Se a serra cansa, o frio da cordilheira assusta. Ele relatou temperaturas negativas e, sem roupa térmica no começo, dormia vestindo quatro calças, três blusas, várias meias e um cachecol.
Para completar, o zíper da barraca quebrou no meio do caminho, e ele improvisou com uma lona até conseguir comprar calça, blusa e luvas térmicas para encarar o resto do inverno argentino.
Em Zapala, quem decide a hora de sair é o vento
Mesmo agasalhado, quem manda no dia é o tempo. Em vídeo de 18 de setembro de 2026, já em Zapala, na província de Neuquén, ele avisou que não sairia porque o vento contra passava de 28 quilômetros por hora, o dobro da média que ele manteve naquele dia até San Luis.
Por isso ficou descansando num camping que cobrava 2.500 pesos argentinos por pessoa, uma exceção à regra de fugir de camping pago. “Não compensa se matar nesse vento”, resumiu, prometendo seguir no dia seguinte, com vento a favor.
Seis mil quilômetros de bicicleta até a Patagônia argentina
No dia 168, o vídeo mostra Georgios caminhando com a bicicleta por um bosque de álamos e um recado na tela: “6.000km percorridos com nossa azulzinha”.

Parece exagero para quem sabe que São Paulo e Ushuaia ficam a cerca de 5.000 quilômetros pela rota rodoviária mais direta, segundo calculadoras de distância, mas não é, porque ele simplesmente não foi pelo caminho mais curto.
A conta, trecho a trecho, somando as estradas que ele de fato percorreu:
- São Vicente ao Chuí, pela costa brasileira: cerca de 1.600 km;
- travessia do Uruguai: uns 600 km;
- da fronteira da Argentina até Mendoza: 1.160 km;
- de Mendoza a Zapala: cerca de 990 km.
Só aí já são 4.300 quilômetros, sem contar desvios e os dias rodando dentro das cidades. Em Zapala, inclusive, ele comemorou “mais um desafio concluído na Ruta 40”.
O curioso é que, com os 6.000 quilômetros do painel, ele já pedalou mais do que os cerca de 5.000 da rota direta até Ushuaia, e ainda nem chegou lá.
Fazendo outra conta, 6.000 quilômetros em 168 dias dão uma média de uns 36 quilômetros por dia, contando folgas, consertos e dias de vento contra.
O trajeto que ainda falta até o fim do mundo
Georgios filma a viagem desde o começo, e boa parte dos vídeos também vai para o canal dele no YouTube. No terceiro dia, ainda no litoral de São Paulo, ele já publicava o resumo de 190 quilômetros pedalados, no mesmo formato que usa até agora:

Mais de 160 dias depois, a rotina é parecida, só que mais ao sul e mais fria. Na noite de 18 de setembro de 2026, em Zapala, ele mostrou a janta, que era arroz, sardinha, tomate, cebola e ovo.
No mesmo vídeo, avisou a “família”, como chama os seguidores, que a partida seria na manhã seguinte, rumo a Bariloche. Outro vídeo mostra a saída de Zapala em direção a Junín de los Andes, a 189 quilômetros.
Ele não tem data para chegar a Ushuaia e segue o plano de sempre, de um dia de cada vez.
Pela rota que passa por Bariloche e desce até o extremo sul da Argentina, faltam cerca de 2.600 quilômetros, e na média de 36 por dia seriam pouco mais de 70 dias de estrada, se o vento deixar.
A bicicleta anda e a conta bancária não, porque até 19 de setembro de 2026 o Instagram dele ainda pedia Pix e divulgava rifa. Ushuaia fica a 2.600 quilômetros, e a resposta do banco, pelo visto, fica mais longe.

