Expedição descobriu um ecossistema inteiro que não deveria existir nas trincheiras mais profundas do Japão — com esponjas que devoram presas vivas e criaturas que a ciência nunca havia classificado
Nas trincheiras oceânicas do Japão, a milhares de metros abaixo da superfície, onde a pressão esmaga submarinos e a escuridão é absoluta, uma expedição científica encontrou algo que ninguém esperava: um ecossistema inteiro.
Além disso, esse ecossistema não é composto por bactérias simples ou vermes primitivos. De fato, inclui jardins de esponjas carnívoras que capturam presas vivas, lírios-do-mar gigantes adaptados à escuridão permanente e criaturas que a biologia nunca havia registrado.
A descoberta ocorreu durante uma expedição de dois meses pelas trincheiras oceânicas do Japão, incluindo as fossas de Ryukyu, Japão e Izu-Ogasawara — algumas das regiões mais inexploradas do planeta.
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O que os cientistas encontraram nas trincheiras oceânicas do Japão
A expedição utilizou o submersível tripulado Limiting Factor e o navio DSSV Pressure Drop para explorar profundidades que variam de 4.000 a mais de 9.000 metros.
Consequentemente, as câmeras de alta definição registraram cenas que desafiam o que se sabia sobre vida em profundidades extremas.
Em primeiro lugar, os cientistas documentaram jardins de esponjas carnívoras — organismos que, diferente das esponjas comuns que filtram água, possuem estruturas semelhantes a espinhos que capturam e digerem pequenos crustáceos.
Além disso, encontraram lírios-do-mar gigantes — animais que parecem plantas mas são parentes das estrelas-do-mar — adaptados a viver em escuridão total e pressões centenas de vezes superiores à da superfície.
Dessa forma, o achado mais surpreendente foi uma criatura translúcida filmada a cerca de 9.137 metros de profundidade que não se encaixa em nenhum filo conhecido da biologia. Os pesquisadores a classificaram provisoriamente como Animalia incerta sedis — literalmente “animal de classificação incerta”.
- Região explorada: trincheiras de Ryukyu, Japão e Izu-Ogasawara
- Profundidades: de 4.000 a mais de 9.000 metros
- Equipamento: submersível Limiting Factor + navio DSSV Pressure Drop
- Duração: dois meses de expedição
- Achados: esponjas carnívoras, lírios-do-mar gigantes, criatura inclassificável a 9.137m
Esponjas que caçam: a versão predadora que ninguém esperava encontrar
Quando pensamos em esponjas, imaginamos organismos passivos que filtram partículas da água. Porém, as esponjas encontradas nas trincheiras oceânicas do Japão são predadoras ativas.
Na prática, elas desenvolveram estruturas semelhantes a espinhos microscópicos que funcionam como armadilhas. Quando um pequeno crustáceo toca a superfície da esponja, fica preso e é lentamente digerido.
Esse tipo de adaptação é extremamente raro e indica que, em ambientes com escassez absoluta de nutrientes — onde nem luz nem detritos orgânicos chegam —, a evolução encontrou soluções radicais para a sobrevivência.
Outras descobertas em águas profundas, como as 110 espécies encontradas a 3.000 metros na Austrália, já mostravam diversidade inesperada. Porém, esponjas carnívoras em trincheiras de 9.000 metros representam um patamar completamente novo.

O conflito entre explorar e preservar as trincheiras oceânicas do Japão
A descoberta do ecossistema nas trincheiras oceânicas do Japão chega em um momento crítico. De fato, governos e empresas de mineração estão acelerando planos para extrair minerais do fundo do oceano — incluindo regiões próximas às trincheiras estudadas.
Consequentemente, os nódulos polimetálicos que existem no fundo do Pacífico — ricos em manganês, níquel, cobre e cobalto — são essenciais para baterias de veículos elétricos e tecnologias de energia limpa.
Porém, a expedição revelou que essas mesmas áreas abrigam vida complexa que ninguém sabia existir. Na prática, minerar o fundo do oceano pode destruir ecossistemas antes mesmo de os cientistas catalogarem o que vive neles.
Além disso, diferente de florestas desmatadas que podem ser replantadas, ecossistemas abissais levam milhares de anos para se formar. Dessa forma, a destruição seria permanente na escala da vida humana.
Das trincheiras oceânicas do Japão para as luas de Júpiter
A existência de vida complexa em condições tão extremas tem implicações que vão muito além da biologia marinha.
Em primeiro lugar, as trincheiras oceânicas do Japão apresentam condições semelhantes às que se acredita existir nos oceanos subterrâneos de Europa — lua de Júpiter — e Encélado — lua de Saturno: pressão extrema, ausência total de luz solar e fontes de energia baseadas em processos químicos do fundo do oceano.
Consequentemente, se esponjas carnívoras e criaturas complexas conseguem prosperar a 9.000 metros abaixo da superfície do Pacífico, as chances de encontrar vida semelhante em oceanos extraterrestres aumentam substancialmente.
Além disso, a NASA e a ESA já planejam missões para perfurar o gelo de Europa até 2035. Na prática, as descobertas nas trincheiras japonesas servem como modelo para o que os cientistas podem esperar encontrar — e para calibrar os instrumentos que serão enviados.
Para os biólogos marinhos que desceram a 9.137 metros nas trincheiras oceânicas do Japão, a pergunta já não é se existe vida em condições extremas. A pergunta é: em quanto lugar improvável ela prospera sem que ninguém perceba?
Por que descobrir vida onde não deveria existir muda a ciência
Até recentemente, a comunidade científica assumia que as trincheiras oceânicas mais profundas eram ambientes quase estéreis. Entretanto, as descobertas nas trincheiras oceânicas do Japão desmentem essa suposição.
Em vez de desertos biológicos, essas regiões abrigam ecossistemas complexos com predadores, presas e relações ecológicas sofisticadas.
De acordo com a O Cafezinho, a expedição revelou “biodiversidade notável” em áreas que os cientistas consideravam virtualmente sem vida.
Segundo dados publicados pela Phys.org, a riqueza biológica encontrada nas trincheiras japonesas supera o que estudos anteriores previam para essas profundidades.
Além do mais, as implicações vão além da biologia marinha. Se existe vida complexa em condições tão extremas na Terra, as chances de encontrar vida em oceanos subterrâneos de luas como Europa (Júpiter) e Encélado (Saturno) aumentam significativamente.
Dessa forma, a expedição também documentou como esses organismos obtêm energia sem fotossíntese. Em vez de depender do sol, as criaturas das trincheiras sobrevivem graças a processos de quimiossíntese — reações químicas entre minerais e compostos sulfurosos que emergem de fissuras no fundo oceânico.
Além disso, os pesquisadores estimam que apenas 5% das trincheiras oceânicas do planeta foram exploradas com câmeras de alta definição. Consequentemente, a biodiversidade real dessas regiões pode ser dezenas de vezes maior do que qualquer catálogo atual registra — um universo biológico inteiro esperando para ser mapeado.
A pergunta que a expedição deixa em aberto é desconcertante: se não conhecíamos um ecossistema inteiro a menos de 10.000 metros abaixo da superfície do oceano — o que mais existe lá embaixo que ainda não encontramos?
