Expedição de 35 dias no maior parque marinho da Austrália revelou mais de 110 novas espécies no Mar de Coral — entre tubarões de corpo mole, raias desconhecidas e criaturas que os cientistas chamam de “peixes-fantasma”, todas escondidas em águas que nenhum humano havia explorado
A cerca de mil quilômetros da costa de Queensland, na Austrália, o fundo do oceano guardava um segredo. Mais de 110 novas espécies marinhas que a ciência não sabia que existiam foram encontradas em profundidades de 200 a 3 mil metros, em águas que nunca tinham sido mapeadas por nenhuma expedição.
O anúncio foi feito em 1º de abril de 2026 pela CSIRO, a agência científica nacional da Austrália, após meses de análise das amostras coletadas no Parque Marinho do Mar de Coral.
E o número pode ser ainda maior. Segundo os pesquisadores, análises genéticas em andamento devem revelar que o total de novas espécies ultrapassa 200.
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Como a maior expedição taxonômica da Austrália encontrou novas espécies no Mar de Coral
O navio de pesquisa RV Investigator, operado pela CSIRO, partiu de Brisbane em outubro de 2025 para uma missão de 35 dias.
O destino era o Recife Mellish, uma formação submersa a aproximadamente mil quilômetros da costa australiana.
A área explorada fica dentro do Parque Marinho do Mar de Coral, a maior área marinha protegida da Austrália, com quase 1 milhão de quilômetros quadrados.
É uma extensão maior que a França inteira.
Mesmo assim, a esmagadora maioria desses ambientes de águas profundas permanecia completamente inexplorada.
O cientista-chefe da expedição, Dr. Will White, especialista em tubarões da CSIRO, explicou que a missão tinha um objetivo claro: “Aprofundar o conhecimento sobre a biodiversidade das águas profundas da região, para a qual há dados muito limitados.”

O tubarão de corpo mole e o peixe que parece um fantasma
Entre as descobertas mais surpreendentes estão quatro novas espécies de peixes identificadas pessoalmente pelo Dr. White:
- Um tubarão-gato de águas profundas (gênero Apristurus), com corpo escuro e flácido
- Uma quimera (gênero Chimaera), conhecida como “peixe-fantasma” por sua aparência translúcida
- Duas raias inéditas dos gêneros Dipturus e Urolophus, encontradas no Platô de Kenn
O tubarão-gato tem corpo escuro e flácido — uma adaptação típica de criaturas que vivem em profundidades onde a pressão da água é centenas de vezes maior que na superfície.
Com corpo mole e pele escura, ele se move lentamente pelo fundo oceânico onde a luz do sol simplesmente não chega.
Já a quimera é conhecida como “peixe-fantasma” por sua aparência translúcida e etérea. As quimeras são parentes distantes dos tubarões e raias, mas evoluíram de forma tão diferente que parecem criaturas de outro planeta.
As duas raias foram encontradas no Platô de Kenn, uma região submersa entre a Austrália e a Nova Caledônia que nunca havia sido explorada por taxonomistas.
Estrelas frágeis, caranguejos e criaturas sem nome
Os peixes, porém, são apenas parte da história.
A maioria das novas espécies encontradas são invertebrados — animais sem coluna vertebral que vivem nos recifes profundos e no leito oceânico.
O Dr. White descreveu o que chamou de “provavelmente as maiores oficinas taxonômicas de animais marinhos já realizadas na Austrália.”
Nessas oficinas, especialistas de várias cidades australianas identificaram novas espécies de estrelas-do-mar frágeis, caranguejos, anêmonas-do-mar e esponjas.
Muitas dessas criaturas são tão diferentes de qualquer espécie conhecida que os taxonomistas ainda não conseguiram dar nome a elas.
As amostras foram depositadas na Australian National Fish Collection da CSIRO e em museus estaduais, onde aguardam análise genética.

Por que identificar espécies do fundo do mar é tão difícil
A Dra. Claire Rowe, gerente da Coleção de Invertebrados Marinhos do Museu Australiano, explicou um dos maiores desafios da expedição.
“Muitos invertebrados, como as águas-vivas, são difíceis de identificar apenas por características físicas”, disse ela.
Por isso, a equipe coletou amostras de tecido de centenas de espécimes para testes genéticos.
É justamente por causa dessas análises pendentes que os cientistas acreditam que o total final pode ultrapassar 200 novas espécies.
Espécies chamadas “crípticas” — que parecem idênticas a olho nu mas são geneticamente distintas — só podem ser diferenciadas em laboratório.
Esse tipo de trabalho pode levar meses ou até anos para ser concluído.
Uma parceria global para contar o que vive no fundo do oceano
A expedição não foi um esforço isolado da Austrália.
A identificação das espécies contou com a parceria da Ocean Census Science Network, uma iniciativa internacional apoiada pela Nippon Foundation e pela organização Nekton.
O objetivo da rede é acelerar a descoberta de espécies marinhas em todo o mundo.
Até hoje, os cientistas estimam que apenas uma fração da vida nos oceanos profundos foi catalogada.
A maior parte do fundo oceânico — que cobre mais de 60% da superfície do planeta — permanece menos explorada que a superfície da Lua.
O que essa descoberta significa para a conservação marinha
O Parque Marinho do Mar de Coral foi criado justamente para proteger ecossistemas como esses.
Mas é difícil proteger o que não se conhece.
Cada nova espécie catalogada ajuda os gestores ambientais a entender quais áreas são mais sensíveis e merecem proteção adicional.
Além disso, criaturas de águas profundas frequentemente produzem compostos químicos únicos que podem ter aplicações em medicina e biotecnologia.
Um único organismo marinho desconhecido pode conter a chave para novos antibióticos ou tratamentos contra o câncer.
Porém, os próprios pesquisadores alertam que os dados ainda são preliminares.
O número de 110 espécies é uma contagem inicial baseada em morfologia. A confirmação genética pode tanto aumentar o total quanto revelar que algumas amostras pertencem a espécies já conhecidas.

Por que o oceano profundo ainda guarda tantos segredos
Para ter uma ideia da escala, a área explorada pela expedição tem quase 1 milhão de quilômetros quadrados.
Isso é equivalente a toda a superfície terrestre da França, Alemanha e Espanha juntas.
E a maior parte nunca tinha sido visitada por equipamentos científicos.
O fundo do mar a 3 mil metros de profundidade é um dos ambientes mais extremos do planeta. A temperatura da água se aproxima de zero, a pressão é 300 vezes maior que na superfície e a escuridão é total.
Mesmo assim, a vida prospera ali — e agora sabemos que em variedade muito maior do que qualquer modelo previa.
Se apenas 35 dias de expedição revelaram mais de 110 espécies desconhecidas, a pergunta que fica é: quantas milhares ainda estão esperando para serem encontradas no restante dos oceanos?

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