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A 3 mil metros de profundidade no maior parque marinho da Austrália, cientistas encontraram mais de 110 espécies que a ciência não sabia que existiam — entre elas, um tubarão de corpo mole e um peixe que parece fantasma

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/04/2026 às 06:00
Navio de pesquisa RV Investigator da CSIRO iluminado à noite no Mar de Coral durante expedição de 35 dias
RV Investigator durante expedição de 35 dias no Mar de Coral — a bordo, cientistas coletaram amostras de mais de 110 novas espécies a profundidades de até 3 mil metros
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Expedição de 35 dias no maior parque marinho da Austrália revelou mais de 110 novas espécies no Mar de Coral — entre tubarões de corpo mole, raias desconhecidas e criaturas que os cientistas chamam de “peixes-fantasma”, todas escondidas em águas que nenhum humano havia explorado

A cerca de mil quilômetros da costa de Queensland, na Austrália, o fundo do oceano guardava um segredo. Mais de 110 novas espécies marinhas que a ciência não sabia que existiam foram encontradas em profundidades de 200 a 3 mil metros, em águas que nunca tinham sido mapeadas por nenhuma expedição.

O anúncio foi feito em 1º de abril de 2026 pela CSIRO, a agência científica nacional da Austrália, após meses de análise das amostras coletadas no Parque Marinho do Mar de Coral.

E o número pode ser ainda maior. Segundo os pesquisadores, análises genéticas em andamento devem revelar que o total de novas espécies ultrapassa 200.

Como a maior expedição taxonômica da Austrália encontrou novas espécies no Mar de Coral

O navio de pesquisa RV Investigator, operado pela CSIRO, partiu de Brisbane em outubro de 2025 para uma missão de 35 dias.

O destino era o Recife Mellish, uma formação submersa a aproximadamente mil quilômetros da costa australiana.

A área explorada fica dentro do Parque Marinho do Mar de Coral, a maior área marinha protegida da Austrália, com quase 1 milhão de quilômetros quadrados.

É uma extensão maior que a França inteira.

Mesmo assim, a esmagadora maioria desses ambientes de águas profundas permanecia completamente inexplorada.

O cientista-chefe da expedição, Dr. Will White, especialista em tubarões da CSIRO, explicou que a missão tinha um objetivo claro: “Aprofundar o conhecimento sobre a biodiversidade das águas profundas da região, para a qual há dados muito limitados.”

Quimera peixe-fantasma nadando em águas profundas do Mar de Coral

O tubarão de corpo mole e o peixe que parece um fantasma

Entre as descobertas mais surpreendentes estão quatro novas espécies de peixes identificadas pessoalmente pelo Dr. White:

  • Um tubarão-gato de águas profundas (gênero Apristurus), com corpo escuro e flácido
  • Uma quimera (gênero Chimaera), conhecida como “peixe-fantasma” por sua aparência translúcida
  • Duas raias inéditas dos gêneros Dipturus e Urolophus, encontradas no Platô de Kenn

O tubarão-gato tem corpo escuro e flácido — uma adaptação típica de criaturas que vivem em profundidades onde a pressão da água é centenas de vezes maior que na superfície.

Com corpo mole e pele escura, ele se move lentamente pelo fundo oceânico onde a luz do sol simplesmente não chega.

Já a quimera é conhecida como “peixe-fantasma” por sua aparência translúcida e etérea. As quimeras são parentes distantes dos tubarões e raias, mas evoluíram de forma tão diferente que parecem criaturas de outro planeta.

As duas raias foram encontradas no Platô de Kenn, uma região submersa entre a Austrália e a Nova Caledônia que nunca havia sido explorada por taxonomistas.

Estrelas frágeis, caranguejos e criaturas sem nome

Os peixes, porém, são apenas parte da história.

A maioria das novas espécies encontradas são invertebrados — animais sem coluna vertebral que vivem nos recifes profundos e no leito oceânico.

O Dr. White descreveu o que chamou de “provavelmente as maiores oficinas taxonômicas de animais marinhos já realizadas na Austrália.”

Nessas oficinas, especialistas de várias cidades australianas identificaram novas espécies de estrelas-do-mar frágeis, caranguejos, anêmonas-do-mar e esponjas.

Muitas dessas criaturas são tão diferentes de qualquer espécie conhecida que os taxonomistas ainda não conseguiram dar nome a elas.

As amostras foram depositadas na Australian National Fish Collection da CSIRO e em museus estaduais, onde aguardam análise genética.

Biólogos marinhos analisam novas espécies do Mar de Coral

Por que identificar espécies do fundo do mar é tão difícil

A Dra. Claire Rowe, gerente da Coleção de Invertebrados Marinhos do Museu Australiano, explicou um dos maiores desafios da expedição.

“Muitos invertebrados, como as águas-vivas, são difíceis de identificar apenas por características físicas”, disse ela.

Por isso, a equipe coletou amostras de tecido de centenas de espécimes para testes genéticos.

É justamente por causa dessas análises pendentes que os cientistas acreditam que o total final pode ultrapassar 200 novas espécies.

Espécies chamadas “crípticas” — que parecem idênticas a olho nu mas são geneticamente distintas — só podem ser diferenciadas em laboratório.

Esse tipo de trabalho pode levar meses ou até anos para ser concluído.

Uma parceria global para contar o que vive no fundo do oceano

A expedição não foi um esforço isolado da Austrália.

A identificação das espécies contou com a parceria da Ocean Census Science Network, uma iniciativa internacional apoiada pela Nippon Foundation e pela organização Nekton.

O objetivo da rede é acelerar a descoberta de espécies marinhas em todo o mundo.

Até hoje, os cientistas estimam que apenas uma fração da vida nos oceanos profundos foi catalogada.

A maior parte do fundo oceânico — que cobre mais de 60% da superfície do planeta — permanece menos explorada que a superfície da Lua.

O que essa descoberta significa para a conservação marinha

O Parque Marinho do Mar de Coral foi criado justamente para proteger ecossistemas como esses.

Mas é difícil proteger o que não se conhece.

Cada nova espécie catalogada ajuda os gestores ambientais a entender quais áreas são mais sensíveis e merecem proteção adicional.

Além disso, criaturas de águas profundas frequentemente produzem compostos químicos únicos que podem ter aplicações em medicina e biotecnologia.

Um único organismo marinho desconhecido pode conter a chave para novos antibióticos ou tratamentos contra o câncer.

Porém, os próprios pesquisadores alertam que os dados ainda são preliminares.

O número de 110 espécies é uma contagem inicial baseada em morfologia. A confirmação genética pode tanto aumentar o total quanto revelar que algumas amostras pertencem a espécies já conhecidas.

Raia de águas profundas no Mar de Coral

Por que o oceano profundo ainda guarda tantos segredos

Para ter uma ideia da escala, a área explorada pela expedição tem quase 1 milhão de quilômetros quadrados.

Isso é equivalente a toda a superfície terrestre da França, Alemanha e Espanha juntas.

E a maior parte nunca tinha sido visitada por equipamentos científicos.

O fundo do mar a 3 mil metros de profundidade é um dos ambientes mais extremos do planeta. A temperatura da água se aproxima de zero, a pressão é 300 vezes maior que na superfície e a escuridão é total.

Mesmo assim, a vida prospera ali — e agora sabemos que em variedade muito maior do que qualquer modelo previa.

Se apenas 35 dias de expedição revelaram mais de 110 espécies desconhecidas, a pergunta que fica é: quantas milhares ainda estão esperando para serem encontradas no restante dos oceanos?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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