Apenas 27% do território brasileiro foi mapeado geologicamente com precisão suficiente para decisões de investimento em mineração, segundo estudo da EY. Os outros três quartos podem abrigar reservas de terras raras, lítio, cobre e outros minerais críticos que o mundo disputa, mas que o Brasil simplesmente não sabe que possui. A mineração responde por 55% do saldo da balança comercial, e o setor tem US$ 76 bilhões em investimentos planejados até 2030.
O Brasil senta sobre um possível tesouro geológico que não consegue enxergar. Segundo estudo da EY, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, apenas 27% do território nacional foi mapeado com nível de precisão que permita a tomada de decisão sobre investimentos em mineração. Os três quartos restantes representam uma incógnita: podem conter reservas significativas de terras raras, lítio, cobre e outros minerais críticos que a indústria global de tecnologia, energia limpa e defesa disputa com intensidade crescente. O problema é que ninguém investigou o suficiente para saber.
A lacuna no mapeamento geológico não é apenas uma curiosidade acadêmica. Países que competem com o Brasil no mercado de mineração, como Canadá e Austrália, possuem cobertura geológica muito mais completa, o que lhes permite atrair investimentos com menor risco e maior previsibilidade. Enquanto isso, o Brasil exporta commodities minerais em estado bruto, processa menos do que poderia e perde oportunidade de agregar valor a uma cadeia produtiva que já responde por 55% do saldo da balança comercial e gera quase R$ 300 bilhões em receitas anuais.
O que significa ter 73% do território sem mapeamento geológico adequado

Segundo informações divulgadas pelo Canal TIMES BRASIL – LICENCIADO EXCLUSIVO CNBC, o número de 27% de cobertura geológica com precisão para decisões de investimento não significa que o resto do Brasil é terra desconhecida. Existem levantamentos preliminares, estudos acadêmicos e dados esparsos sobre grande parte do território, mas o nível em que o subsolo foi mapeado não alcança a resolução necessária para que uma empresa de mineração decida abrir um projeto.
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Na prática, três quartos do país podem abrigar depósitos valiosos de minerais críticos que ninguém descobriu porque ninguém olhou com a lente certa. Enquanto o Canadá e a Austrália atraem mineradoras internacionais com dados geológicos detalhados e acessíveis, o Brasil oferece um potencial que depende de fé mais do que de evidência. Para Afonso Sartori, líder de energia e recursos naturais da EY, a tradução dessa incerteza é direta: “Temos três quartos do país em que pode ter um grande tesouro e a gente não descobriu ainda.”
Por que o Brasil precisa descobrir suas reservas de terras raras e minerais críticos
As terras raras são insumos essenciais para tecnologias que vão de turbinas eólicas e motores de carros elétricos a equipamentos militares e smartphones. A China domina mais de 60% da produção global e controla quase toda a cadeia de refino, o que transforma qualquer nova fonte de suprimento fora do território chinês em ativo estratégico disputado por potências ocidentais que buscam reduzir essa dependência.
O Brasil já possui depósitos conhecidos de terras raras em estados como Goiás, Piauí e Bahia, mas a falta de mapeamento abrangente impede que o país dimensione o real tamanho de suas reservas. Minerais como lítio, cobre, nióbio e grafite também fazem parte da lista de recursos críticos que o mundo demanda e que podem estar escondidos nos três quartos do território que nunca foram investigados com profundidade suficiente. Sem dados, não há como planejar, e sem planejamento, não há como competir.
Os entraves que travam a mineração brasileira além do mapeamento
O estudo da EY identificou quatro obstáculos principais que limitam o desenvolvimento do setor de mineração no Brasil: incertezas geológicas, insegurança tributária, morosidade no licenciamento ambiental e um mercado de capitais incipiente. A insegurança tributária e a lentidão do licenciamento são problemas conhecidos de qualquer setor produtivo brasileiro, mas as incertezas geológicas e a falta de instrumentos financeiros adequados são particularidades que pesam especialmente na mineração.
Um dado que ilustra a carência de mecanismos de financiamento é revelador: o Brasil tem dez vezes mais mineradoras listadas na bolsa de Toronto do que na B3, a bolsa brasileira. Isso significa que empresas de mineração que operam no território nacional preferem captar recursos no Canadá porque encontram lá investidores que entendem o setor e instrumentos financeiros adaptados às etapas de exploração e desenvolvimento de projetos minerais. O BNDES lançou em 2025 um fundo de R$ 1 bilhão para atender pequenas e médias mineradoras, mas o valor é modesto frente à escala do desafio.
As vantagens que o Brasil já tem e que poucos países podem igualar
Apesar dos entraves, o Brasil possui trunfos que o posicionam acima da maioria dos competidores globais em mineração. A indústria é forte e madura, com empresas que figuram entre as maiores do mundo, regulações relativamente estáveis e, o mais importante, as reservas estão aqui. O país está fora de zonas de conflito, o que elimina riscos geopolíticos que afetam concorrentes como Congo e Ucrânia, e seus minerais preenchem lacunas globais que a transição energética amplia a cada ano.
O potencial de industrialização é outro ponto que o estudo destaca. O Brasil exporta minério de ferro, ouro e cobre majoritariamente em estado bruto, agregando menos valor do que Canadá, Austrália, Estados Unidos e China fazem com seus próprios recursos. Cada etapa de processamento adicionada dentro do país gera mais receita e margens maiores, transformando uma commodity de baixo valor unitário em produto industrial competitivo. O desafio é criar as condições para que essa agregação de valor aconteça aqui, não no exterior.
Os US$ 76 bilhões em investimentos planejados e o que falta para executá-los
O setor de mineração no Brasil tem planejados US$ 76 bilhões em investimentos até 2030, o maior valor da série histórica que começou a ser contabilizada em 2014. Quase US$ 20 bilhões estão concentrados em Minas Gerais, reflexo da concentração em minério de ferro e ouro, mas o estudo aponta potencial de diversificação para lítio, terras raras e cobre que pode ampliar a participação de outros estados como Pará, Bahia e Goiás.
O problema é transformar plano em execução. Para que os US$ 76 bilhões saiam do papel, o Brasil precisa de licenciamento ambiental mais ágil, estabilidade regulatória para atrair capital estrangeiro e competência técnica em engenharia e sustentabilidade, segundo Sartori. O mapeamento geológico do território é a fundação de tudo: sem ter mapeado o que existe debaixo da terra, o país não consegue atrair os investimentos que precisa para competir com as jurisdições que já fizeram esse dever de casa.
Você acha que o Brasil deveria investir mais em mapeamento geológico para descobrir suas reservas de terras raras, ou o dinheiro seria melhor aplicado em outra área? Conte nos comentários o que pensa sobre o potencial mineral inexplorado do país e se acredita que conseguimos competir com Canadá e Austrália nesse mercado.

