Uma busca por emprego revelou um registro trabalhista incomum na Carteira Digital de Aldenize Ferreira da Silva, com vínculo antigo ligado à Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes e cargo incompatível com sua trajetória profissional.
A técnica de enfermagem Aldenize Ferreira da Silva, de 46 anos, descobriu ao procurar emprego que aparecia em registros trabalhistas como ocupante do cargo de “presidente da República” havia 24 anos e dois meses.
O vínculo estava associado à Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e constava como ativo desde 14 de março de 2002, segundo dados exibidos na Carteira de Trabalho Digital.
A informação apareceu durante uma consulta de CPF em uma Agência do Trabalhador do município.
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No atendimento, o sistema indicou que Aldenize mantinha vínculo antigo com a prefeitura em uma função incompatível com sua trajetória profissional.
Ela afirma ter trabalhado como merendeira em uma escola da rede municipal no início dos anos 2000.
O cadastro apontava remuneração inicial de R$ 201,60 e classificava a ocupação como “presidente da República”.
Em reportagem sobre o caso, a Folha de S.Paulo informou que o registro também aparecia ligado à RAIS e ao Caged, bases usadas para informações trabalhistas.
Registro como presidente da República apareceu em busca por emprego
Aldenize relatou que o problema foi identificado quando buscava uma oportunidade de emprego.
Ao verificar os dados dela no sistema, o atendente estranhou o vínculo aberto havia mais de duas décadas e questionou a função registrada.
“Como é que a senhora trabalha há 24 anos e 2 meses e a senhora tem o cargo de presidente da República desde o dia 14 de março de 2002?”, contou a trabalhadora, ao relatar a reação do funcionário durante a consulta.
Segundo Aldenize, ela usava a carteira de trabalho física e não tinha consultado a versão digital antes do atendimento.
Após o alerta, acessou o aplicativo e confirmou que a informação aparecia no documento eletrônico.
O atendente também informou, de acordo com o relato da técnica de enfermagem, que um vínculo aberto por tanto tempo poderia gerar dificuldades em situações futuras, inclusive em processos ligados à aposentadoria.
A trabalhadora disse que passou a considerar a possibilidade de o cadastro incorreto ter interferido em tentativas de contratação, mas não há confirmação oficial de que o erro tenha impedido sua admissão em alguma vaga.
A trajetória profissional informada por Aldenize não corresponde ao cargo exibido no sistema.
Ela disse ter trabalhado para a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes como merendeira, em contrato temporário, e afirmou que esse foi seu único vínculo com a administração municipal.
Carteira de Trabalho Digital mostrou falha semelhante em outras mulheres
Depois da divulgação do caso, outras duas mulheres da mesma região informaram ter encontrado registros parecidos na Carteira de Trabalho Digital.
Claudia da Silva, de 53 anos, e Suelane Fonseca, de 49, também aparecem em reportagens sobre a falha e têm em comum vínculos com a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes no início dos anos 2000.
Claudia trabalhou como educadora infantil em escolas do município, segundo informações publicadas pelo Terra.
Suelane atua como auxiliar de serviços gerais vinculada à prefeitura, conforme o mesmo relato jornalístico.
As três mulheres tiveram o cargo de “presidente da República” associado ao histórico trabalhista em registros digitais.
As reportagens não indicam que elas tenham recebido remuneração vinculada ao cargo registrado de forma incorreta.
No caso de Aldenize, o documento apontava salário inicial de R$ 201,60 e última remuneração de R$ 15,42 em dezembro de 2002, segundo reportagem do Terra.
Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes atribui erro à migração de dados
A Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes informou que a origem do problema estaria relacionada à transição de dados do antigo sistema Sefip para o eSocial.
De acordo com a gestão municipal, a falha teria alterado algumas bases e levado servidores classificados como ocupantes de “cargo comissionado genérico” a aparecerem como “presidente da República”.
A administração municipal afirmou, segundo a Folha, que não consegue precisar quantas pessoas podem ter sido afetadas pela inconsistência.
A justificativa apresentada foi a de que o sistema envolvido não está sob gestão direta da prefeitura.
A orientação divulgada para ex-servidores que encontrem divergências é procurar a Unidade de Gestão de Pessoas do município para solicitar esclarecimentos e eventual correção cadastral.
Essa medida se aplica a pessoas que tiveram vínculo com a prefeitura e identificaram informações incompatíveis em documentos trabalhistas digitais.
Como dados antigos entram na Carteira de Trabalho Digital
A Carteira de Trabalho Digital passou a reunir informações vinculadas ao CPF do trabalhador e a bases oficiais.
De acordo com o governo federal, desde 24 de setembro de 2019 a carteira em meio físico deixou de ser necessária para a contratação na maior parte dos casos, e as informações prestadas pelo empregador no eSocial passaram a substituir anotações feitas antes no documento de papel.
O CNIS, Cadastro Nacional de Informações Sociais, reúne vínculos, remunerações e contribuições previdenciárias encontrados nos registros do trabalhador.
Por esse motivo, divergências antigas podem aparecer quando o cidadão consulta documentos digitais ou apresenta o CPF em processos de contratação.
No caso de Aldenize, o vínculo exibido na carteira digital remete a 2002, período anterior à implantação da carteira digital como principal meio de registro trabalhista.
A inconsistência, segundo a versão apresentada pela prefeitura, teria surgido na migração de dados entre sistemas usados para informações trabalhistas e previdenciárias.
Correção de vínculos no CNIS e no Meu INSS
O INSS informa que o segurado pode acessar o extrato do CNIS pelo site ou aplicativo Meu INSS e pela Central 135.
Pelos mesmos canais, é possível solicitar inclusão, exclusão, confirmação ou correção de informações, mediante apresentação de documentos que comprovem os dados.
Para acerto de vínculos ou remunerações divergentes, o trabalhador pode apresentar documentos como carteira profissional, carnês de contribuição e outros comprovantes relacionados ao período trabalhado.
O próprio INSS afirma que a atualização de tempo de contribuição permite corrigir informações diferentes das que constam na carteira de trabalho.
A consulta ao CNIS é uma das formas de verificar se vínculos antigos aparecem de maneira correta no histórico previdenciário.
O extrato informa relações de trabalho, remunerações e contribuições, dados que podem ser considerados em análises futuras de benefícios.
No caso de Aldenize, a divergência só foi identificada porque uma consulta de rotina foi feita durante a busca por emprego.
Situações semelhantes, segundo as reportagens publicadas após a divulgação do caso, também foram relatadas por outras mulheres que trabalharam para a mesma prefeitura no início dos anos 2000.
A falha chamou atenção pelo cargo exibido no registro, mas o caso envolve uma questão administrativa: a compatibilidade entre dados antigos, sistemas digitais e documentos usados por trabalhadores em contratações e pedidos previdenciários.

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