Uma startup quer usar um mineral presente na casca dos ovos para criar partículas capazes de refletir parte da luz solar, numa proposta bilionária que promete resfriar o planeta, mas ainda enfrenta dúvidas científicas e políticas.
A ideia parece começar em um lugar improvável para uma tecnologia climática: a casca de um ovo.
O material que a deixa dura, o carbonato de cálcio, está entre os ingredientes estudados por uma startup que pretende produzir partículas microscópicas, levá-las à estratosfera e refletir parte da luz solar antes que ela aqueça a superfície da Terra.
A proposta da Stardust Solutions ganhou novos detalhes em 2026 e chama atenção pelo tamanho da ambição.
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A empresa israelense-americana calcula que espalhar cerca de 1 milhão de toneladas de partículas poderia reduzir temporariamente a temperatura média global em aproximadamente 0,5°C, a um custo estimado em US$ 10 bilhões por operação anual, cerca de R$ 51 bilhões na conversão usada pela reportagem brasileira que repercutiu o projeto.
O que a casca de ovo tem a ver com a proposta
Apesar da associação curiosa com ovos, a empresa não pretende triturar cascas e lançá-las no céu.
O que interessa é o carbonato de cálcio, mineral que constitui grande parte da casca e que também existe em materiais como o calcário.
A substância poderia ser produzida industrialmente e formar o núcleo de uma das partículas desenvolvidas pela Stardust, envolvido por uma camada de sílica amorfa.
A outra alternativa estudada utiliza apenas sílica.
A composição foi detalhada pela empresa em trabalhos divulgados em maio de 2026.

Um vulcão já mostrou que partículas podem resfriar o planeta
O princípio por trás da ideia, por mais incomum que pareça, não surgiu agora.
A própria natureza já demonstrou que partículas suspensas na estratosfera podem alterar temporariamente a temperatura do planeta.
Um dos exemplos mais conhecidos aconteceu em junho de 1991, quando o Monte Pinatubo entrou em erupção nas Filipinas.
Gases lançados pelo vulcão deram origem a aerossóis de sulfato que se espalharam pela atmosfera e refletiram parte da radiação solar.
Segundo a NASA, a temperatura média global caiu cerca de 0,5°C após a erupção, e os efeitos permaneceram perceptíveis por mais de um ano.
A Stardust tenta reproduzir parte desse mecanismo de forma artificial, mas utilizando materiais diferentes daqueles produzidos pelo vulcão.

Como funciona a geoengenharia solar
É aí que entra a chamada geoengenharia solar, também conhecida como modificação da radiação solar.
Em vez de remover o dióxido de carbono já acumulado na atmosfera, a técnica tenta reduzir temporariamente a quantidade de energia solar que chega à superfície, refletindo uma pequena parcela de volta para o espaço.
A Stardust trabalha especificamente com a injeção de aerossóis na estratosfera.
Na prática, partículas extremamente pequenas seriam transportadas a grandes altitudes por aeronaves especializadas ou outros sistemas capazes de alcançar aproximadamente 18 quilômetros acima da superfície.
Operação custaria cerca de US$ 10 bilhões por ano
O CEO da empresa, Yanai Yedvab, afirmou à CNN que a estimativa interna é de aproximadamente US$ 10 bilhões para cada milhão de toneladas de partículas dispersadas.
Segundo ele, essa quantidade poderia produzir algo próximo de meio grau Celsius de resfriamento.
A cifra, porém, é uma projeção da própria Stardust e não o resultado de uma operação climática já realizada em escala mundial.
Há outra característica importante: o efeito não seria permanente.
As partículas permaneceriam na estratosfera por cerca de um ano antes de gradualmente deixarem aquela região da atmosfera.
Caso governos decidissem manter o resfriamento, novas quantidades precisariam ser lançadas regularmente, criando uma operação contínua.
Isso diferencia a proposta de medidas que tentam atacar a origem do aquecimento global.
A geoengenharia solar não faria desaparecer o excesso de gases de efeito estufa.
Ela funcionaria como uma espécie de camada temporária de proteção contra parte da radiação que chega ao planeta.
Stardust diz que tecnologia não substituiria corte de emissões
A própria Stardust afirma que sua tecnologia não deveria substituir a redução das emissões.
Em seu site, a companhia apresenta o método como uma ferramenta complementar que poderia dar mais tempo para que países reduzissem emissões e adaptassem suas economias.
A empresa também diz que qualquer implantação em grande escala deveria ser decidida por governos e organismos autorizados, e não pela própria companhia.
Até setembro de 2026, nenhuma dessas partículas havia sido utilizada para resfriar o planeta.
Os experimentos da Stardust permaneciam limitados ao laboratório.
A empresa chegou a avaliar testes externos, mas passou a afirmar que qualquer experimento fora de ambientes controlados só ocorrerá sob supervisão e orientação direta de governos.
No próprio FAQ, a Stardust confirma que sua tecnologia ainda não foi implantada.
Startup já levantou US$ 75 milhões
Enquanto isso, o projeto já acumulou um volume de investimento incomum para essa área de pesquisa.
A companhia, criada em 2023 por Yanai Yedvab e Amyad Spector, dois físicos nucleares que trabalharam anteriormente para o governo de Israel, levantou US$ 75 milhões de investidores privados.
Um levantamento atualizado em 9 de setembro de 2026 pelo SRM360 aponta que a Stardust já concentra uma parcela significativa de todo o financiamento conhecido destinado à pesquisa e ao desenvolvimento de modificação da radiação solar.
O dinheiro e a participação de investidores privados também estão no centro das críticas.

Cientistas questionam segurança e transparência
Raymond Pierrehumbert, professor de Física Planetária da Universidade de Oxford, afirmou à CNN que decisões capazes de afetar o planeta inteiro não deveriam ser guiadas pela necessidade de retorno financeiro de fundos de investimento.
Para ele, experimentos pequenos também não conseguem reproduzir todas as respostas possíveis de um sistema climático global.
David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago e um dos pesquisadores mais conhecidos da área, também questionou a confiança demonstrada pela Stardust sobre a segurança de suas partículas.
Segundo ele, a companhia estaria indo além do que as evidências disponíveis permitem ao afirmar que os riscos seriam menores do que os associados ao enxofre.
Por que a Stardust tenta evitar compostos de enxofre
O enxofre aparece frequentemente nessas comparações porque é o material mais estudado para reproduzir artificialmente o efeito de grandes erupções vulcânicas.
O problema é que compostos de enxofre também podem interferir na química da estratosfera e afetar a camada de ozônio.
Por isso, a Stardust aposta na sílica amorfa e no carbonato de cálcio.
A empresa sustenta que esses materiais poderiam oferecer maior controle e reduzir determinados impactos químicos.
Essa vantagem, no entanto, ainda precisa ser demonstrada em condições atmosféricas reais e em escalas muito maiores do que as testadas até agora.
Pesquisadores da Universidade de Leeds também estão trabalhando com a Stardust em modelos destinados a avaliar como diferentes partículas e estratégias de injeção poderiam alterar a química da estratosfera, a circulação atmosférica e a resposta climática.
A universidade ressalta que a modificação da radiação solar envolve incertezas significativas e não substitui a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Resfriar o planeta poderia alterar chuvas e monções
Outra dúvida vai muito além da composição química das partículas.
Uma intervenção capaz de reduzir a temperatura média da Terra também poderia produzir efeitos diferentes de uma região para outra.
Cientistas investigam possíveis alterações nos regimes de chuva, monções e disponibilidade de água, com consequências potenciais para agricultura e populações que dependem de padrões sazonais muito específicos.
Há ainda uma questão política difícil de separar da ciência: quem teria autoridade para decidir qual deveria ser a temperatura do planeta?
Chukwumerije Okereke, professor de Governança Global e Políticas Públicas da Universidade de Bristol, disse à CNN temer que decisões desse tipo acabem concentradas em países ricos e investidores privados, apesar de seus efeitos ultrapassarem fronteiras.
Interromper a tecnologia também poderia criar riscos
Também existe o risco conhecido como “choque de terminação”.
Se a humanidade utilizasse a geoengenharia solar por muitos anos enquanto os gases de efeito estufa continuassem se acumulando e, de repente, interrompesse a aplicação, a temperatura poderia subir rapidamente.
A Stardust argumenta que suas partículas permaneceriam por tempo relativamente curto na atmosfera e que a quantidade aplicada poderia ser reduzida gradualmente.
Críticos respondem que o comportamento de uma intervenção planetária prolongada continua cercado de incertezas.
