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Com 98 tubos de papelão de 60 cm reforçados com poliuretano impermeável e retardante de fogo, arquiteto japonês Shigeru Ban constrói Catedral de Papelão em Christchurch por NZ$ 5,9 milhões e cria um dos edifícios mais seguros contra terremotos da Nova Zelândia

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 03/03/2026 às 14:38
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Imagem retirada do site oficial do arquiteto japonês Shigeru Ban
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Com 98 tubos de papelão reforçados, Shigeru Ban ergue a Catedral de Papelão em Christchurch por NZ$ 5,9 milhões — um dos edifícios mais seguros contra terremotos da Nova Zelândia.

Em 22 de fevereiro de 2011 às 12h51, Christchurch experimentou um terremoto de magnitude 6.3 que devastou cidade de Nova Zelândia matando 185 pessoas e destruindo inúmeros edifícios, incluindo a emblemática catedral anglicana ChristChurch Cathedral construída em 1864. A catedral gótica revival, réplica de uma em Oxford na Inglaterra, havia sido um dos marcos mais famosos de Christchurch aparecendo em cartões postais, souvenirs e toalhas de chá por mais de 147 anos.

O primeiro terremoto magnitude 7.1 em 4 de setembro de 2010 já havia rachado e quebrado janelas do edifício, mas foi o segundo tremor de fevereiro 2011 que causou danos irreparáveis na estrutura que era centro espiritual e social da cidade por gerações. A Diocese Anglicana enfrentava um dilema urgente: a população precisava de um local para cultos e eventos cívicos enquanto a cidade ainda sofria com réplicas sísmicas, totalizando 11.000 terremotos de magnitude 2 ou superior desde setembro de 2010.

Reverendo Craig Dixon convida arquiteto japonês especializado em desastres para projetar catedral temporária que também serve como centro de eventos

O reverendo Craig Dixon, gerente de marketing e desenvolvimento da catedral, leu um artigo sobre o “arquiteto de emergência” japonês Shigeru Ban, que havia projetado uma igreja de papelão após o terremoto em Kobe, no Japão. Dixon convidou Ban para ir a Christchurch discutir a construção de uma catedral temporária que também pudesse hospedar concertos e eventos cívicos, conceito desenvolvido durante a visita.

Com 98 tubos de papelão de 60 cm reforçados com poliuretano impermeável e retardante de fogo, arquiteto japonês Shigeru Ban constrói Catedral de Papelão em Christchurch por NZ$ 5,9 milhões e cria um dos edifícios mais seguros contra terremotos da Nova Zelândia
Imagem retirada do site oficial do arquiteto japonês Shigeru Ban

Ban, caracterizado como “arquiteto de desastres”, projetou o edifício pro bono, em colaboração com a firma de arquitetura local Warren and Mahoney, levando apenas seis semanas para criar o design inicial. Inicialmente, esperava-se ter a catedral aberta em fevereiro de 2012, para o primeiro aniversário do terremoto, mas obstáculos regulatórios e jurídicos atrasaram o cronograma.

A decisão da Diocese de demolir a catedral original gerou controvérsia, com o Great Christchurch Building Trust levando a igreja ao Tribunal Superior, questionando a legalidade de usar o seguro para construir a catedral temporária, tendo o juiz confirmado a ilegalidade em abril de 2013.

Estrutura em formato A eleva-se a 24 metros, usando 98 tubos de papelão com 60 cm de diâmetro, pesando até 120kg cada e com até 20 metros de comprimento

A catedral adota o estilo A-frame, elevando-se 24 metros acima do altar, com 98 tubos de papelão igualmente dimensionados, de 60 centímetros de diâmetro, pesando até 120 quilogramas cada e medindo até 20 metros de comprimento.

O arquiteto inicialmente queria que os tubos de papelão fossem os elementos estruturais exclusivos, mas os fabricantes locais não conseguiam produzir tubos grossos o suficiente, e a importação do material foi rejeitada. A solução encontrada reforçou 96 tubos com vigas de madeira laminada, formando 12 pórticos principais de 21 metros de altura, que definem os planos inclinados do telhado.

Imagem retirada do site oficial do arquiteto japonês Shigeru Ban

Dois enormes quadros de tubos de aço, colocados em ambas as extremidades, rigidificam a estrutura principal, enquanto a repetição dos pórticos cria a sucessão de arcos triangulares característicos. A pressão lateral é compensada pela massa de 8 contêineres marítimos de 6 metros, posicionados na base do edifício, quatro de cada lado, sobre uma laje de concreto.

Cada tubo recebe revestimento de poliuretano impermeável e retardantes de fogo desenvolvidos por Shigeru Ban desde 1986, antes de a sustentabilidade virar chavão

Os tubos são revestidos com poliuretano à prova d’água e retardantes de fogo que Ban desenvolve desde 1986, anos antes de a sustentabilidade se tornar palavra-chave na arquitetura. O revestimento protege o interior, enquanto os espaços de 5 centímetros entre os tubos permitem que a luz filtre para dentro da catedral, criando uma atmosfera única.

Testes empíricos conduzidos por Ban confirmaram resistência à compressão dos tubos em aproximadamente 10 MPa, comparável à madeira laminada quando reforçados com adesivos e revestimentos, mantendo uma fração do peso de elementos equivalentes em aço. O tratamento químico permite durabilidade de décadas, mitigando a degradação ambiental e os riscos de incêndio.

Foto: Jocelyn Kinghorn/wikipedia

O telhado de policarbonato semitransparente protege a estrutura enquanto permite a passagem de luz natural, substituindo a tradicional rosácea gótica por peças triangulares de vitral colorido, desenhadas pela colaboradora de longa data Yoshie Narimatsu, com 49 painéis triangulares de 2,1 metros de altura cada.

Fundação que resiste à liquefação do solo aluvial típico de Christchurch durante terremotos

A fundação enfrenta os desafios dos solos aluviais de Christchurch, propensos à liquefação durante terremotos, por meio de uma laje de concreto flutuante de 900 milímetros de profundidade, com aproximadamente 40 quilômetros de aço embutido, projetada para manter o edifício estável mesmo que o terreno abaixo fique comprometido durante um tremor.

A laje distribui as cargas de forma eficaz, enquanto 8 contêineres marítimos de aço, posicionados sobre a placa, ancoram a estrutura, elevando os tubos de papelão acima de um possível assentamento do solo e aumentando a resiliência geral contra riscos sísmicos e relacionados ao terreno. Localizada na área aberta e exposta de Latimer Square, a construção incorpora resistência ao vento por meio da estrutura laminada dos tubos, capaz de suportar cargas ambientais, com quadros rígidos de aço nas extremidades para maior rigidez estrutural.

A pegada triangular compacta minimiza a perturbação no local, preservando os espaços verdes adjacentes para uso público e apoiando a ênfase pós-terremoto da cidade em manter os parques urbanos acessíveis durante os esforços de recuperação.

A construção iniciou em 24 de julho de 2012, após a bênção do local em abril, e o edifício abriu ao público em 6 de agosto de 2013, tornando-se a primeira estrutura significativa da reconstrução

O local foi abençoado em abril de 2012, e a construção começou em 24 de julho de 2012, inicialmente prevista para conclusão no Natal de 2012, mas adiada várias vezes para julho e, finalmente, agosto de 2013. O papelão exposto que ficou molhado antes de o edifício ser totalmente fechado teve que ser removido e substituído, atrasando o cronograma.

A catedral abriu ao público em 6 de agosto de 2013, com o serviço de dedicação realizado em 15 de agosto, tornando-se o primeiro edifício significativo inaugurado como parte da reconstrução de Christchurch. Em fevereiro de 2013, o orçamento original de NZ$ 5 milhões havia aumentado para NZ$ 5,3 milhões devido à escalada de custos, chegando finalmente a aproximadamente NZ$ 5,9 milhões ao término.

Mais de 17 fornecedores e empreiteiros doaram aproximadamente NZ$ 1 milhão adicionais em tempo, trabalho e materiais para a construção. Ban doou sua expertise arquitetônica, e o uso de materiais de construção simples permitiu uma conclusão muito mais rápida e acessível do que a de uma igreja tradicional.

O edifício atende a 130% do código sísmico da Nova Zelândia, tornando-se uma das construções mais seguras contra terremotos em Christchurch

A catedral foi construída atendendo a 130% dos padrões sísmicos vigentes na Nova Zelândia, tornando-se uma das estruturas mais seguras contra terremotos em Christchurch, conforme declarado pelas autoridades.

Ban, que desenvolve tubos reciclados como material de construção para auxílio emergencial desde 1986, declarou que “edifícios feitos de concreto são facilmente destruídos por terremotos, mas edifícios de tubos de papel podem sobreviver sem danos”. A estrutura tem capacidade para 700 pessoas e serve não apenas como local de culto, mas também como espaço para conferências, concertos e desfiles de moda.

A geometria foi definida a partir da planta e das elevações da catedral original, havendo uma mudança gradual em cada ângulo dos tubos de papel, criando uma forma icônica. O mobiliário, incluindo cadeiras, púlpito e pia batismal, foi desenhado por Shigeru Ban, utilizando madeira e tubos de papel, mantendo a atmosfera geral da catedral.

Projetada para uma vida útil de 50 anos como estrutura temporária, a catedral rapidamente se tornou um dos edifícios mais icônicos da Nova Zelândia

A catedral foi explicitamente projetada como uma solução provisória, com vida útil estimada em 50 anos, mas rapidamente se tornou um dos edifícios mais icônicos da Nova Zelândia, oferecendo aos cidadãos um símbolo de resiliência e esperança. Ban declarou anteriormente que “se um edifício é amado, então ele se torna permanente”, previsão que se mostrou verdadeira.

Mesmo antes de sua conclusão, a nova estrutura já começava a substituir a antiga catedral neogótica como símbolo da cidade, aparecendo em propagandas de televisão nacional entre cenas icônicas de cidades ao redor do país.

Oficialmente chamada de Catedral Transitória, a estrutura — concebida como temporária — atualmente representa a peça central da identidade de Christchurch e tudo indica que permanecerá como catedral anglicana no futuro previsível. Inicialmente controversa, com alguns moradores defendendo que a igreja deveria economizar recursos para uma futura catedral permanente, desde a abertura ela se tornou um sucesso absoluto.

Lonely Planet nomeia Christchurch entre top 10 cidades para viajar em 2013, citando a catedral de papelão como razão que torna a cidade empolgante

Em outubro de 2012, a Lonely Planet nomeou Christchurch uma das “top 10 cidades para viajar em 2013”, citando a construção da Catedral de Papelão como uma das razões que tornavam a cidade um lugar empolgante. A conclusão rápida da obra contrastava fortemente com o restante de Christchurch, onde, três anos após o segundo tremor, lotes de cascalho varrido eram a característica dominante do centro da cidade — lembretes fantasmagóricos de edifícios perdidos para sempre, mas ainda não substituídos.

Embora o centro fosse uma sinfonia de equipes de trabalho martelando durante o dia, as noites rapidamente davam lugar ao silêncio assustador de ruas desertas, quebrado apenas pelo bater de lonas soltas em inúmeros edifícios abandonados.

A catedral serviu como o primeiro grande sinal de nova vida, capturando a imaginação coletiva e ajudando a cidade a se reerguer, ao oferecer um espaço onde a comunidade pudesse se reunir novamente, enquanto a reconstrução lentamente ganhava ritmo, à medida que reivindicações de seguros eram resolvidas e novos projetos aprovados.

Projeto ganha Display Architecture Award no World Architecture Festival 2013, e Dezeen nomeia edifício como o mais significativo de 2013 na arquitetura do século 21

A catedral conquistou o prêmio na categoria Display Architecture no World Architecture Festival 2013, reconhecendo sua engenhosidade estrutural. Em retrospectiva publicada em janeiro de 2025, a Dezeen designou a catedral como o edifício mais significativo de 2013 na arquitetura do século 21, elogiando sua rápida implantação como resposta pro bono ao terremoto de 2011 e a incorporação de princípios de design resiliente e temporário.

Entre as inovações-chave estão o uso de 98 tubos de papelão de resistência industrial, formando um A-frame triangular apoiado por contêineres marítimos de aço e fundações de concreto. Essa configuração atinge 24 metros de altura e cumpre integralmente os códigos sísmicos da Nova Zelândia, fornecendo validação empírica da capacidade de suporte de carga do papelão em zonas sujeitas a eventos de até magnitude 6.3. A modularidade do design permite desmontagem e realocação, marcando-a como a maior estrutura de tubos de papel de Shigeru Ban à época.

Ban doou o design pro bono, e o projeto serve como lembrete de como Japão e Nova Zelândia estavam unidos na perda e no potencial de reconstrução

Para alguns, o fator mais marcante na escolha do papelão por Ban é que a nova catedral substitui uma estrutura da era do revivalismo gótico, em uma cidade apelidada de “cidade-jardim” por sua arquitetura tradicional, que guarda semelhanças com cidades da Inglaterra.

O crítico arquitetônico Thomas Barrie escreveu que “a construção inovadora do edifício e seu impacto como primeiro grande sinal de nova vida parecem ter capturado a imaginação coletiva, e a estrutura agora permanente parece destinada a tornar-se símbolo duradouro do renascimento de Christchurch”.

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Barrie acrescentou que “o projeto de Ban serve como lembrete não apenas da maneira como Japão e Nova Zelândia estavam unidos na perda, mas também do potencial que ainda pode ser desbloqueado na tarefa comum de reconstrução”. O Wizard of New Zealand, um dos críticos mais ferrenhos da Diocese por querer demolir a ChristChurch Cathedral e que havia sido palestrante diário na Cathedral Square, chamou o design de “kitsch”, mas a opinião não impediu que o edifício se tornasse um símbolo querido pela comunidade.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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