Projeto lançado em 2023 previa US$ 150 milhões em investimentos e 100 mil empregos até 2026, mas reação das fábricas brasileiras e entraves estruturais reduziram o ritmo de expansão
Um ambicioso movimento estratégico colocou o Brasil no centro da expansão industrial da Shein em março de 2023. Naquele momento, a varejista chinesa anunciou US$ 150 milhões em investimentos e prometeu gerar 100 mil empregos até 2026. No entanto, ao longo de 2024, o plano começou a perder força diante de resistências internas do setor têxtil nacional.
Segundo levantamento publicado pela Reuters no fim de 2023, a meta inicial previa parcerias com 2 mil fábricas brasileiras. Entretanto, apenas 336 unidades firmaram acordos no primeiro ano. Assim, o número ficou muito abaixo do projetado, e o cronograma original passou a ser reavaliado.
Desde então, o projeto revelou as dificuldades de replicar no Brasil o modelo produtivo consolidado na China. Além disso, expôs o choque entre a estratégia de ultrabaixo custo e as condições estruturais da indústria brasileira.
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Investigação sobre produção local expõe entraves estruturais
Inicialmente, a proposta era transformar o Brasil em polo de produção para abastecer a América Latina. Contudo, em comunicado posterior à imprensa, a própria Shein admitiu que o plano “não ocorreu conforme o esperado”.
De acordo com a empresa, a produção nacional precisou de tempo para amadurecer. Além disso, diferenças na infraestrutura industrial tornaram o avanço mais lento e desafiador. Consequentemente, custos logísticos e prazos impactaram o ritmo de expansão.
Enquanto isso, na província chinesa de Guangdong, cerca de 7 mil fábricas integradas operam próximas a fornecedores de tecidos e aviamentos. Dessa forma, o sistema garante agilidade e preços competitivos. No Brasil, porém, a dispersão geográfica das fábricas, a carga tributária e a legislação trabalhista criaram um cenário distinto.

Indústria têxtil brasileira reage às exigências comerciais
Paralelamente, empresários nacionais passaram a questionar as condições impostas. Conforme relatos à Reuters em 2024, a varejista solicitava reduções de até 30% nos preços, além de prazos de entrega considerados incompatíveis com a estrutura local.
Fernando Pimentel, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), afirmou que trabalhar no Brasil é diferente de trabalhar na China. Segundo ele, o país possui marcos regulatórios e normas específicas, que impactam custos e operações. Assim, ele lamentou que o projeto não tenha avançado conforme planejado.
Enquanto isso, empresários do Nordeste relataram que, para atender às metas da Shein, seria necessário substituir tecidos e reduzir margens a níveis considerados insustentáveis. Portanto, diversos contratos foram encerrados poucos meses após o início das produções.
Brasil segue estratégico apesar do recuo produtivo
Ainda assim, apesar da desaceleração industrial, o Brasil permanece relevante para a companhia. Atualmente, o país é o segundo maior mercado da Shein, atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, o marketplace brasileiro reúne mais de 45 mil vendedores ativos.
Assim, embora o plano de produção local tenha sido redimensionado, a presença comercial continua robusta. Ao mesmo tempo, o episódio evidencia as limitações do modelo de ultrabaixo custo fora da China e reforça a importância da adaptação às condições regulatórias e estruturais brasileiras.
Diante desse cenário, a questão central permanece: a Shein deve insistir na replicação do modelo chinês ou adaptar sua estratégia à realidade industrial do Brasil para garantir expansão sustentável?

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