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Santa Catarina recebe primeiro registro de usina que armazena energia bombeando água

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Escrito por Carla Teles Publicado em 23/10/2026 às 17:48 Atualizado em 23/10/2026 às 17:51
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Representação ilustrativa de uma hidrelétrica reversível, tecnologia prevista para projeto de armazenamento de energia de 5,2 MW em Timbé do Sul (SC). Imagem ilustrativa
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Projeto de 5,2 MW em Timbé do Sul inaugura aplicação de regra federal para hidrelétricas reversíveis, mas ainda depende de licenças e autorização definitiva.

Uma usina hidrelétrica capaz de armazenar energia elétrica por meio do bombeamento de água entrou no processo regulatório federal em Timbé do Sul, no extremo sul de Santa Catarina. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) registrou, em 21 de outubro de 2026, o primeiro requerimento para uma hidrelétrica reversível de ciclo fechado enquadrada como sistema de armazenamento. O empreendimento, denominado UHR Salto Timbé do Sul, prevê potência instalada de 5,2 megawatts (MW).

A decisão consta do Despacho nº 3.960/2026 e foi divulgada pela Aneel e pelo portal pv magazine Brasil, em 21 de outubro. O projeto pertence à AMUR Ltda. e representa a primeira aplicação do procedimento específico para hidrelétricas reversíveis previsto na Resolução Normativa nº 1.161/2026. O registro, entretanto, ainda não autoriza sua construção ou operação.

Usina de 5,2 MW em Timbé do Sul será capaz de armazenar energia usando reservatórios

Reservatório de usina hidrelétrica reversível em Rönkhausen, na Alemanha. O sistema armazena energia por meio do bombeamento de água. Foto: Dr.G.Schmitz, edição de Nyks/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.
Reservatório de usina hidrelétrica reversível em Rönkhausen, na Alemanha. O sistema armazena energia por meio do bombeamento de água. Foto: Dr.G.Schmitz, edição de Nyks/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.

O projeto Salto Timbé do Sul prevê uma configuração diferente daquela utilizada pelas hidrelétricas convencionais, que aproveitam o fluxo de água para movimentar turbinas e gerar eletricidade.

Na tecnologia reversível, a água circula entre reservatórios instalados em alturas diferentes. Quando há eletricidade disponível para armazenamento, bombas transportam a água do reservatório inferior para o superior, acumulando energia potencial gravitacional.

Quando o sistema elétrico precisa receber energia, a água armazenada no nível mais alto desce pelas tubulações e movimenta turbinas conectadas a geradores.

Depois da geração, a água permanece no reservatório inferior e pode ser bombeada novamente, repetindo o processo.

É esse funcionamento que permite comparar uma usina reversível a uma bateria de grandes dimensões. A diferença é que a energia fica armazenada principalmente na forma de água elevada, e não em componentes químicos.

O projeto catarinense foi registrado com potência instalada de 5,2 MW. Esse número representa sua capacidade prevista de fornecimento de potência elétrica, mas não informa por quantas horas a usina conseguirá operar.

Para calcular a energia total armazenável, expressa em megawatts-hora (MWh), ainda seria necessário conhecer a capacidade dos reservatórios, a diferença de altura entre eles e os parâmetros operacionais do sistema.

Essas características não foram detalhadas no comunicado divulgado pela Aneel.

Hidrelétrica de ciclo fechado não depende do fluxo contínuo de um rio

Reservatório de armazenamento por bombeamento em Geesthacht, na Alemanha. Foto: Quartl/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.
Reservatório de armazenamento por bombeamento em Geesthacht, na Alemanha. Foto: Quartl/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.

Uma das características do empreendimento é sua configuração em ciclo fechado, prevista na regulamentação federal de armazenamento.

Nesse modelo, a movimentação da água ocorre entre dois ou mais reservatórios que não mantêm ligação operacional contínua com o fluxo natural de um rio.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos explica que essa característica distingue os sistemas fechados das hidrelétricas reversíveis de ciclo aberto, nas quais existe uma conexão hidrológica permanente com um corpo de água natural.

Em termos operacionais, a separação permite que o armazenamento seja planejado principalmente conforme as necessidades da rede elétrica, sem depender diretamente da vazão contínua de um curso de água.

Isso não elimina a necessidade de estudos ambientais. A implantação dos reservatórios, a captação inicial de água, eventuais reposições e as obras de infraestrutura continuam sujeitas à avaliação dos órgãos competentes.

O enquadramento regulatório também é diferente daquele aplicado à exploração convencional do potencial hidráulico dos rios.

A Aneel classifica o projeto de Timbé do Sul como Sistema de Armazenamento de Energia (SAE), porque sua finalidade é absorver eletricidade, armazená-la e devolvê-la ao sistema quando necessário.

Registro da Aneel tem validade de quatro anos, mas não libera início das obras

Reservatório inferior da usina reversível de Tianhuangping, na China. Foto: 猫猫的日记本/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0.
Reservatório inferior da usina reversível de Tianhuangping, na China. Foto: 猫猫的日记本/Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0.

O procedimento concedido à AMUR Ltda. é denominado Despacho de Registro de Outorga de Sistema de Armazenamento de Energia, conhecido pela sigla DRO-SAE.

Conforme a Resolução Normativa nº 1.161/2026, trata-se de uma etapa facultativa que antecede a autorização definitiva.

O registro permite ao empreendedor avançar nos procedimentos necessários à viabilização do projeto, incluindo licenciamento ambiental, documentação técnica e exigências relacionadas ao financiamento.

A validade é de quatro anos, contados da publicação do despacho em 21 de outubro de 2026, sem possibilidade de prorrogação desse registro.

Durante esse período, a empresa poderá preparar os documentos necessários para solicitar a outorga de autorização, embora também exista a possibilidade de requerer diretamente essa autorização sem passar pelo registro preliminar.

A norma exige informações sobre os reservatórios, tubulações, casa de força, conexão elétrica e características técnicas da usina.

Também devem ser apresentados estudos relacionados à capacidade de armazenamento, à potência de bombeamento e geração, à eficiência global e ao perfil de funcionamento previsto.

O requerimento de autorização ainda precisa atender às exigências ambientais e às condições de acesso às redes de transmissão ou distribuição.

O registro inicial não assegura exclusividade sobre o empreendimento nem garante que a autorização definitiva será concedida.

Até a publicação das informações oficiais consultadas, não haviam sido divulgados o investimento previsto, o cronograma de construção ou uma data estimada para o início das operações da UHR Salto Timbé do Sul.

Armazenamento de energia por bombeamento pode ajudar a aproveitar geração solar e eólica

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A tecnologia reversível integra as alternativas estudadas para aumentar a flexibilidade do sistema elétrico brasileiro.

Usinas solares e eólicas apresentam produção variável ao longo do dia, influenciada pelas condições meteorológicas e pela disponibilidade de seus recursos naturais.

Em determinados períodos, a geração pode superar a capacidade de consumo ou de escoamento disponível em partes da rede. Em outros, principalmente nos horários de maior demanda, o sistema precisa contar com fontes capazes de entregar eletricidade rapidamente.

Uma hidrelétrica reversível pode consumir energia durante períodos favoráveis ao bombeamento e devolvê-la em outro momento, quando o despacho de geração for necessário.

O processo possui perdas energéticas, porque parte da eletricidade utilizada no bombeamento não é recuperada durante a geração. Portanto, a tecnologia não cria energia adicional: ela desloca seu uso para outro horário.

A aplicação prática depende das condições de operação e das regras de remuneração dos serviços prestados ao setor elétrico.

Em abril de 2026, o Ministério de Minas e Energia anunciou uma decisão do Conselho Nacional de Política Energética para retomar estudos voltados à identificação de projetos hidrelétricos com capacidade de armazenamento.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ficou responsável por desenvolver trabalhos relacionados ao aproveitamento desses recursos no planejamento nacional.

O assunto já havia aparecido no CPG em reportagem sobre os leilões de hidrelétricas reversíveis, publicada em setembro de 2026, quando o governo apresentou perspectivas para a contratação de novas tecnologias de armazenamento.

Nova regulamentação abre caminho para projetos que ainda dependem de viabilidade econômica

A Resolução Normativa nº 1.161, aprovada pela Aneel em junho de 2026, estabeleceu procedimentos para a obtenção de outorgas de sistemas de armazenamento autônomos.

A regulamentação contempla tecnologias como baterias eletroquímicas e usinas hidrelétricas reversíveis em ciclo fechado, definindo os requisitos necessários para que os empreendedores solicitem autorização.

O tema também aparece no planejamento de armazenamento de energia no Brasil, especialmente diante da expansão das fontes renováveis e da necessidade de serviços que ajudem a equilibrar a oferta e a demanda.

A Empresa de Pesquisa Energética publicou um estudo específico sobre usinas reversíveis, abordando questões técnicas, econômicas, regulatórias e socioambientais relacionadas à sua inserção no país.

O documento também discute modelos de remuneração e mecanismos capazes de viabilizar economicamente empreendimentos dessa natureza.

No caso catarinense, o registro da Salto Timbé do Sul é uma etapa inicial desse processo. A documentação disponível permite identificar o titular, a localização e a potência prevista, mas ainda não apresenta informações suficientes para avaliar o custo final, a capacidade de armazenamento ou a viabilidade econômica da instalação.

A próxima fase dependerá das providências adotadas pela AMUR Ltda. para reunir os estudos e solicitar a autorização definitiva à Aneel. Somente depois do atendimento às exigências legais e regulatórias o empreendimento poderá avançar para sua implantação.

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Carla Teles

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