O Banco Central mostra que o rotativo do cartão de crédito nunca foi tão usado desde 2012. Veja a conta mês a mês, o teto de juros da lei e as linhas que custam menos.
O rotativo do cartão de crédito movimentou R$ 311,5 bilhões em novas operações de janeiro a agosto de 2026, a maior soma para esses oito meses desde o início da série, em 2012. O número sai das Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central, cujas séries foram consultadas em 8 de outubro.
No mesmo período de 2025, as concessões tinham somado R$ 266,1 bilhões. A alta foi de 17,1%, e o dinheiro novo que entrou no rotativo em oito meses já supera o ano inteiro de qualquer exercício entre 2012 e 2021.
Agosto sozinho teve R$ 41,1 bilhões em concessões, o maior valor mensal da série. A notícia do recorde circulou no G1 em 2 de outubro e foi reproduzida pelo Jornal O Sul nesta quarta.
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Quanto o rotativo do cartão de crédito cobra hoje?
A taxa média dos juros do rotativo para pessoas físicas ficou em 444,89% ao ano em agosto, ou 15,18% ao mês, segundo o Banco Central. O pico da série foi em dezembro de 2016, com 497,73% ao ano.

O estoque do rotativo do cartão de crédito também cresceu. O saldo devedor chegou a R$ 96,1 bilhões em agosto, o maior valor desde 2012, contra R$ 79,5 bilhões um ano antes, alta de 21%.
E muita gente não consegue sair do rotativo do cartão de crédito. A inadimplência do rotativo, que mede a parte da carteira com atraso acima de 90 dias, chegou a 66,15% em agosto, ante 60,49% em agosto de 2025.
Os juros do rotativo variam por banco, e o número de 444,89% é uma média. A taxa divulgada pelo Banco Central também não inclui IOF nem tarifas, então a conta real na fatura tende a ser um pouco maior.
Quanto uma fatura de R$ 1.000 vira no rotativo em 1, 3 e 12 meses?
Fiz a conta com os juros do rotativo de agosto, 15,18% ao mês na média, sobre uma fatura de R$ 1.000 que fica sem pagar. Os juros são compostos, ou seja, a cada mês incidem sobre o saldo já corrigido.
| Prazo | Sem o teto de juros (R$) | Com o teto de juros da lei (R$) |
|---|---|---|
| 1 mês | 1.151,80 | 1.151,80 |
| 3 meses | 1.528,03 | 1.528,03 |
| 5 meses | 2.027,15 | 2.000,00 |
| 12 meses | 5.451,61 | 2.000,00 |
Conta própria com a taxa média do rotativo de agosto de 2026 divulgada pelo Banco Central, sem IOF e sem tarifas. A fórmula é 1.000 multiplicado por 1,1518 elevado ao número de meses.
No primeiro mês, a dívida vai de R$ 1.000 para R$ 1.151,80. Em três meses, chega a R$ 1.528,03. No quinto mês, a conta passaria de R$ 2.000, e é aí que entra o teto.
O teto de juros veio da Lei 14.690, de 2023, a mesma que criou o Desenrola Brasil. O artigo 28 diz que juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar do valor original da dívida.
Na prática, quem deve R$ 1.000 pode ser cobrado em no máximo R$ 1.000 de juros e encargos. Sem a regra, a fatura chegaria a R$ 5.451,61 em um ano, quase o triplo do que a lei permite.
O rotativo não dura um ano inteiro
Tem um detalhe que pouca gente conhece. Pela Resolução 4.549 do Conselho Monetário Nacional, o rotativo só pode ser usado até o vencimento da fatura seguinte. Depois disso, o banco tem que oferecer o parcelamento da fatura em condições mais vantajosas que as do rotativo.
Por isso, as linhas de 3 e 12 meses da tabela acima são uma simulação para mostrar o tamanho do juro, não o caminho normal do rotativo do cartão de crédito. O caminho mais comum é um mês de rotativo e, depois, o parcelamento da fatura.
Refiz a conta nesse cenário. Os R$ 1.151,80 do primeiro mês viram 12 parcelas de R$ 163,62 na taxa média do cartão parcelado, de 9,34% ao mês.
No fim, a fatura de R$ 1.000 custa R$ 1.963,38 no total. Fica logo abaixo do teto de juros, porque a regra vale também para o parcelamento da fatura, como explica o Banco Central na página que anunciou o limite.
O diretor de Regulação do Banco Central na época, Otávio Damaso, disse que a norma do CMN “padronizou a regra e os conceitos para aplicação do limite dos juros”. A regra vale desde 3 de janeiro de 2024.
O que sai mais barato que o rotativo
Se a fatura não fecha, trocar de dívida costuma pesar menos no bolso até que o parcelamento da fatura. Simulei R$ 1.000 em 12 parcelas fixas, pela tabela Price, nas taxas médias de agosto do Banco Central.
| Linha de crédito (taxa ao mês) | Parcela (R$) | Total pago (R$) | Juros pagos (R$) |
|---|---|---|---|
| Cartão parcelado (9,34%) | 142,05 | 1.704,62 | 704,62 |
| Crédito pessoal sem consignação (6,39%) | 121,84 | 1.462,09 | 462,09 |
| Consignado de trabalhador do setor privado (3,79%) | 105,26 | 1.263,09 | 263,09 |
| Consignado do INSS (1,82%) | 93,52 | 1.122,21 | 122,21 |
Conta própria com as taxas médias de pessoas físicas de agosto de 2026 do Banco Central, sem IOF, seguro e tarifas. Os juros do rotativo, para comparação, levariam a mesma dívida ao teto de R$ 2.000.
A diferença é grande. Trocar o rotativo do cartão de crédito pelo consignado do INSS economiza até R$ 877,79 em relação ao teto, para quem tem acesso a essa linha.
O crédito pessoal sem consignação custa 110,22% ao ano, menos de um quarto do rotativo. O consignado privado sai por 56,34% ao ano, e vale olhar as regras do consignado para trabalhadores com carteira assinada antes de assinar qualquer contrato.
Quem já está com várias dívidas atrasadas também pode acompanhar os programas de renegociação de dívidas do governo, que costumam incluir cartão e cheque especial.
Por que o uso do rotativo cresceu tanto?
Os dados do Banco Central mostram juros em alta para as famílias. A taxa média do crédito livre para pessoas físicas subiu para 61,74% ao ano em agosto, segundo as mesmas estatísticas.
A Agência Brasil informou, com base no Banco Central, que o comprometimento da renda das famílias com dívidas ficou em 28,7% no dado mais recente. Com a renda mais apertada, pagar só o mínimo da fatura e aceitar os juros do rotativo vira saída de curto prazo.
O assunto também chegou ao governo. Segundo o G1, o presidente Lula falou em limitar o número de cartões de crédito por pessoa, mas não há proposta formal publicada até agora.
E você, já precisou entrar no rotativo do cartão de crédito ou trocou a dívida por outra linha mais barata? Conte nos comentários como foi a sua experiência com os juros do rotativo.
