A descoberta arqueológica em Creta surgiu no ponto reservado ao radar do aeroporto de Kastelli e criou um impasse entre a preservação de uma estrutura minoica de 4 mil anos e a instalação de um equipamento essencial para um terminal projetado para receber até 18 milhões de passageiros por ano.
Vista do alto, a construção lembra uma enorme roda de pedra desenhada sobre uma colina. O local, porém, havia sido escolhido para receber o radar do novo aeroporto de Kastelli, uma instalação necessária para acompanhar as aeronaves que chegarem ou partirem do terminal.
As escavações revelaram uma estrutura minoica de aproximadamente 4 mil anos, com cerca de 1.800 metros quadrados, quase 50 metros de diâmetro e oito paredes circulares. Alguns trechos preservados alcançam 1,7 metro de altura.
A informação foi publicada pela Associated Press, agência internacional de notícias com cobertura jornalística global. A descoberta, divulgada em 11 de junho de 2024, obrigou as autoridades gregas a procurar outro ponto para instalar o radar sem destruir o sítio arqueológico.
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Novo aeroporto de Kastelli foi projetado para receber até 18 milhões de passageiros
O novo aeroporto está localizado perto da cidade de Kastelli, na ilha grega de Creta. Quando a construção minoica foi apresentada ao público, o terminal estava em obras e tinha abertura prevista para 2027.
O empreendimento foi planejado para substituir o aeroporto de Heraclião, apontado como o segundo maior da Grécia. A capacidade projetada chega a 18 milhões de passageiros por ano, o que coloca o terminal em uma escala comparável à de grandes aeroportos brasileiros.
Para entender o tamanho, não se trata de um aeroporto regional com poucas operações diárias. O projeto foi dimensionado para receber um fluxo anual próximo ao movimento de terminais importantes, como os aeroportos de Brasília e Congonhas.
A capacidade máxima, entretanto, não significa que 18 milhões de pessoas utilizarão o local logo após a abertura. O número representa o volume de passageiros que a estrutura foi planejada para atender ao longo de um ano.
Escavação no ponto reservado ao radar revelou enorme círculo de pedra
Os arqueólogos trabalhavam no terreno destinado à estação de radar quando identificaram as paredes enterradas. Conforme a retirada da terra avançou, surgiu uma construção circular muito maior e mais complexa do que os primeiros vestígios indicavam.
O conjunto possui oito paredes concêntricas, nome dado aos círculos que compartilham aproximadamente o mesmo centro. Essas paredes criam corredores e espaços menores ligados entre si, formando uma disposição que lembra um labirinto.

A parte interna foi dividida em diferentes ambientes. Também existe a possibilidade de que o centro tivesse uma cobertura baixa em formato de cone, mas essa interpretação ainda depende do avanço das pesquisas.
A construção cuidadosa indica que o trabalho exigiu muita mão de obra, conhecimento especializado e organização coletiva. Não seria uma estrutura levantada rapidamente ou destinada ao uso de apenas uma família.
Construção minoica foi utilizada entre 2000 e 1700 a.C.
O complexo foi usado principalmente entre 2000 e 1700 a.C., período ligado à formação dos primeiros grandes palácios de Creta. Entre eles estavam os centros de Cnossos e Festo, importantes para a história da civilização minoica.
Os minoicos viveram em Creta durante a Idade do Bronze e ficaram conhecidos por seus palácios, pinturas e sistemas de escrita. A nova construção, porém, não corresponde exatamente a nenhum outro edifício minoico identificado anteriormente.
Essa ausência de uma comparação direta impede que os arqueólogos afirmem qual era sua finalidade. O tamanho e a organização dos espaços indicam um uso coletivo, mas ainda não permitem classificar o local como templo, túmulo ou centro de reuniões.
A função permanece desconhecida, e as escavações continuam sendo fundamentais para entender como as pessoas circulavam dentro do complexo e quais atividades eram realizadas entre as paredes de pedra.
Ossos de animais levantaram hipótese de reuniões e rituais
Uma grande quantidade de ossos de animais foi encontrada dentro da construção. Esse material levantou a possibilidade de que o local recebesse refeições coletivas, consumo de vinho, oferendas ou cerimônias religiosas.
A hipótese não transforma o complexo automaticamente em um templo. Os ossos podem indicar encontros de muitas pessoas, mas ainda é necessário analisar a distribuição dos materiais e a relação deles com os ambientes internos.
A Associated Press, agência internacional de notícias com cobertura jornalística global, registrou que a estrutura não aparentava ter funcionado como moradia. Seu tamanho e sua divisão interna reforçam a possibilidade de um edifício comunitário.
Alguns elementos arquitetônicos lembram antigas sepulturas minoicas cobertas por estruturas cônicas e túmulos encontrados em outras regiões gregas. A semelhança, contudo, ainda não comprova que o local tivesse função funerária.
Radar precisa de altura e caminho livre para alcançar as aeronaves
Um radar aeroportuário envia sinais e recebe o retorno produzido pelas aeronaves. Com essas informações, as equipes responsáveis pelo controle aéreo conseguem acompanhar a posição e o deslocamento dos aviões.
Montanhas, construções e outros obstáculos podem interromper ou prejudicar esses sinais. Por isso, pontos elevados e com boa visibilidade costumam ser considerados na escolha do terreno destinado ao equipamento.
A colina onde apareceu a construção minoica oferecia justamente essa vantagem. Transferir o radar exige encontrar outro local com condições adequadas para manter a cobertura do espaço aéreo e a segurança das operações.
A mudança, portanto, não consiste apenas em levar a antena para qualquer terreno vazio. O novo ponto precisa atender às necessidades técnicas do aeroporto sem ameaçar outras áreas com vestígios arqueológicos.
Grécia decidiu preservar a estrutura e procurar outro local para o radar
Lina Mendoni, ministra da Cultura da Grécia e arqueóloga, afirmou que o complexo seria preservado. A solução anunciada foi procurar outra localização para a estação de radar e permitir que as escavações continuassem.

A decisão tenta conciliar dois interesses importantes. De um lado está o novo aeroporto de Kastelli, construído para ampliar a capacidade aérea de Creta. Do outro está uma estrutura de 4 mil anos, cuja finalidade ainda pode revelar novas informações sobre a civilização minoica.
O problema não se limita ao círculo encontrado na colina. Pelo menos 35 sítios arqueológicos apareceram durante as obras do aeroporto e das estradas de acesso, mostrando como grandes projetos na Grécia podem atravessar regiões ocupadas há milhares de anos.
A descoberta mudou o planejamento de um equipamento essencial, mas evitou que uma construção sem paralelo conhecido fosse removida antes de ser completamente estudada. O radar deverá ocupar outro ponto, enquanto o complexo de 1.800 metros quadrados e oito paredes circulares permanece protegido.
O episódio mostra que uma obra moderna pode encontrar obstáculos que não aparecem em mapas ou projetos. Neste caso, o terreno escolhido para ajudar aviões a navegar guardava uma construção levantada milhares de anos antes do surgimento da aviação.
Se fosse necessário escolher entre manter o radar no local planejado ou preservar uma construção de 4 mil anos, qual decisão você tomaria? Compartilhe sua opinião nos comentários.

