Bloqueio de internet no Irã atinge Starlink, intensifica censura digital iraniana e tenta conter protestos.
O bloqueio de internet no Irã entrou em vigor na última quinta-feira (8), determinado pelo regime iraniano como resposta direta aos protestos no Irã que se espalham pelo país desde 28 de dezembro.
A medida foi aplicada em todo o território nacional, reduziu drasticamente a conectividade, atingiu serviços convencionais e até a Starlink no Irã, e reforçou a política de censura digital iraniana para conter a circulação de informações e imagens das manifestações.
Segundo o site NetBlocks, que monitora o funcionamento da internet globalmente, a conectividade iraniana caiu para cerca de 1% do nível normal.
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O impacto afeta diretamente uma população de aproximadamente 85 milhões de pessoas, que passou a enfrentar dificuldades até para realizar comunicações básicas com o exterior.
Queda histórica da conectividade e isolamento do país
Além da interrupção quase total do acesso à internet, o bloqueio provocou um isolamento internacional temporário.
As ligações telefônicas internacionais também chegaram a ser suspensas, embora tenham sido parcialmente restabelecidas na terça-feira (13), de acordo com a agência Associated Press.
“Apesar de algumas chamadas telefônicas já estarem sendo completadas, não existe uma forma segura de comunicação, e o público em geral continua isolado do mundo exterior”, afirmou o NetBlocks.
Ainda assim, a navegação online segue severamente limitada, o que amplia o clima de incerteza dentro do país.
Starlink no Irã também sofre interferência inédita
Um dos pontos que mais chamou atenção neste episódio de bloqueio de internet no Irã foi o impacto sobre a Starlink no Irã, serviço de internet via satélite que costuma funcionar mesmo em cenários de censura extrema.
De acordo com Amir Rashidi, diretor do Miaan Group, o regime passou a utilizar técnicas avançadas para interferir diretamente no sinal do serviço.
Para isso, o governo iraniano recorreu ao jamming de sinal satelital, utilizando jammers bloqueadores instalados próximos às antenas dos usuários.
Segundo Rashidi, nem mesmo o uso de VPNs tem sido suficiente para contornar a situação.
A Proton VPN informou que as sessões originadas no Irã estão diminuindo porque o regime desligou completamente a internet.
Como funciona o jamming de sinal satelital
Especialistas explicam que bloquear a internet via satélite é tecnicamente mais complexo do que interromper redes tradicionais.
Diferentemente das operadoras locais, empresas de satélite não precisam manter infraestrutura física dentro do país que emite a ordem de bloqueio.
O diretor de tecnologia da Sage Networks, Thiago Ayub, explica que a navegação enviada aos satélites retorna a bases terrestres que podem estar localizadas em outros países.
“Essa infraestrutura não pode estar longe do usuário.
Mas, como o Irã não é um país continental como o Brasil, empresas de satélite conseguem prover o acesso à internet sem bases terrestres no território iraniano”, afirma.
Diante disso, a alternativa adotada foi o jamming de sinal satelital
Técnica que consiste em gerar interferência nas mesmas frequências utilizadas por satélites e antenas dos usuários para embaralhar o sinal.
“Isso exige o emprego de muitas antenas de alta potência espalhadas pelo território”, explica Ayub. Segundo ele, o sucesso da estratégia indica investimento significativo em pesquisa e desenvolvimento por parte do governo iraniano.
Histórico da censura digital iraniana
Este é o terceiro grande bloqueio de internet no Irã registrado nos últimos anos.
O primeiro ocorreu em 2019, durante protestos contra o aumento do preço da gasolina.
O segundo foi em 2022, após a morte de Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade por supostamente não usar o véu islâmico de forma adequada.
Naquele momento, a Starlink no Irã se tornou uma das principais alternativas para manter a comunicação entre manifestantes e o exterior.
Desde então, a população passou a usar o serviço com mais frequência, mesmo sem autorização oficial no país, o que levou o governo iraniano a considerar ilegais as antenas da empresa de Elon Musk em seu território.
Uso da Starlink cresce e intensifica repressão
Estimativas indicam que dezenas de milhares de antenas da Starlink estejam atualmente no Irã.
Parte significativa delas vinha sendo utilizada para divulgar vídeos e fotos dos protestos no Irã, o que aumentou a pressão do regime para ampliar a censura digital iraniana.
Desde quinta-feira, houve uma perda média de 30% dos pacotes de dados transmitidos por dispositivos da Starlink, segundo Amir Rashidi.
Em algumas regiões, essa perda chega a 80%, evidenciando a eficácia do jamming de sinal satelital empregado.
Reação internacional ao bloqueio
A União Internacional de Telecomunicações, vinculada à Organização das Nações Unidas, solicitou formalmente que o Irã interrompa a interferência no sinal de internet via satélite.
Até o momento, o governo iraniano não sinalizou que pretende recuar.
Enquanto isso, o bloqueio reforça um padrão já conhecido. Em 2025, o regime acusou o WhatsApp de espionar usuários iranianos e colaborar com Israel.
A Meta negou as acusações e afirmou que apenas o remetente e o destinatário conseguem acessar as mensagens, que são protegidas por criptografia.
Impactos para a população e para os protestos no Irã
Com o bloqueio de internet no Irã, o acesso à informação tornou-se ainda mais restrito, dificultando a organização dos protestos no Irã e a divulgação internacional da repressão.
Por outro lado, a medida também intensifica a insatisfação popular, ao evidenciar o controle estatal sobre a comunicação digital.
Assim, o episódio atual não apenas expõe o alcance da censura digital iraniana
como também marca uma nova fase de confronto tecnológico entre o regime e as ferramentas digitais usadas pela população para romper o isolamento imposto pelo Estado.
