Enxurradas podem elevar rapidamente a turbidez e levar sedimentos, resíduos, nutrientes e matéria orgânica aos mananciais utilizados por indústrias
As primeiras chuvas registradas depois de períodos prolongados de seca podem provocar mudanças rápidas na qualidade da água captada por indústrias. O risco está relacionado ao escoamento superficial, que arrasta materiais acumulados no solo, em ruas, áreas agrícolas e terrenos expostos até rios, lagos e reservatórios.
Durante a estiagem, poeira, partículas de solo, folhas, resíduos, fertilizantes, óleos e outros contaminantes podem se concentrar nas superfícies. Quando a chuva retorna, parte desse material é transportada pelas enxurradas. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos aponta que o escoamento pluvial pode carregar sedimentos, resíduos, substâncias químicas, nutrientes e microrganismos para os corpos d’água.
Áreas sem vegetação ficam mais vulneráveis
O impacto tende a ser maior em regiões com solo exposto, margens degradadas, obras, atividade agropecuária intensa ou pouca cobertura vegetal. Sem raízes e vegetação para reduzir a velocidade da água e favorecer sua infiltração, as chuvas podem remover uma quantidade maior de terra e materiais depositados sobre o terreno.
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Esse processo contribui para o aumento da turbidez, indicador relacionado à presença de partículas suspensas na água. A mudança pode ocorrer em poucas horas, especialmente durante chuvas intensas ou depois de uma sequência prolongada de dias secos.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico mantém redes e sistemas com informações sobre chuva, vazão, qualidade da água e sedimentos. Já a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo monitora parâmetros como turbidez, temperatura, pH, condutividade elétrica e oxigênio dissolvido em rios e reservatórios.
Depois de uma estiagem, não é recomendável pressupor que a água bruta continuará apresentando as mesmas características observadas nos dias anteriores. A primeira enxurrada pode alterar a carga de sólidos e de matéria orgânica, exigindo ajustes rápidos na operação.
Mudanças afetam diferentes etapas do tratamento
O aumento de partículas suspensas pode elevar a demanda das etapas de coagulação, floculação, decantação e filtração. Além da turbidez visível, a entrada de matéria orgânica dissolvida ou particulada também precisa ser acompanhada, pois pode interferir na eficiência do processo e nas características finais da água.
Estudo sobre os efeitos de eventos de precipitação intensa em mananciais identificou variações temporais e elevações na turbidez e no carbono orgânico dissolvido da água bruta. Pesquisas sobre secas também mostram que alterações no regime hidrológico podem afetar parâmetros como nutrientes, sólidos suspensos, oxigênio dissolvido, condutividade e carbono orgânico.
Nesse cenário, produtos utilizados na coagulação, como o policloreto de alumínio 10, devem ser aplicados de acordo com análises da água, testes de tratabilidade, especificações técnicas e controle operacional. A dosagem não deve ser definida somente com base no histórico, pois as condições do manancial podem mudar rapidamente após a chuva.
O ponto central é acompanhar a água que efetivamente está chegando à captação. Uma dosagem que funcionava durante a seca pode não produzir o mesmo resultado depois de uma enxurrada. O monitoramento frequente reduz o risco de perda de eficiência, consumo excessivo de insumos e instabilidade na qualidade.
Monitoramento deve começar antes da chuva
A preparação pode incluir o acompanhamento da previsão meteorológica, a inspeção das áreas próximas ao ponto de captação e a definição de procedimentos para aumentar a frequência das análises durante os primeiros eventos de chuva.
Parâmetros como turbidez, pH, cor, alcalinidade, condutividade e matéria orgânica ajudam a identificar mudanças na água bruta. Dependendo da atividade industrial e das características do manancial, outros indicadores também podem ser necessários.
O cuidado deve continuar mesmo após a redução da chuva. Sedimentos e contaminantes transportados para reservatórios podem permanecer em suspensão ou ser novamente movimentados por alterações na vazão. Por isso, a estabilização visual do tempo não significa necessariamente que a qualidade da água já retornou ao padrão anterior.
