O avanço da cigarrinha-do-milho no Grande Oeste catarinense, medido pelo programa Monitora Milho SC com média de 16 insetos por armadilha, traz de volta o enfezamento às lavouras e liga o alerta para a próxima safra de milho em Santa Catarina e já preocupa produtores no Extremo-Oeste, Vale e Sul.
Entre 24 de novembro e 1º de dezembro de 2025, levantamento do programa Monitora Milho SC em 55 lavouras distribuídas pelo Estado registrou aumento expressivo da população de cigarrinha-do-milho, inseto vetor de patógenos associados ao enfezamento-vermelho e ao enfezamento-pálido. A média de 16 cigarrinhas por armadilha no período recoloca a praga no centro das preocupações da pesquisa e dos produtores de milho em Santa Catarina.
Os dados, divulgados em 10 de dezembro de 2025, mostram que o Grande Oeste segue como região mais crítica, com maior concentração de insetos e recorrência de infecções ao longo de diferentes safras. Ao mesmo tempo, o avanço da cigarrinha-do-milho em áreas do Vale do Itajaí e do Sul do Estado acende um alerta mais amplo, com potencial impacto sobre a próxima safra de milho em praticamente todo o território catarinense.
Grande Oeste concentra maiores índices de cigarrinha-do-milho

O levantamento indica que a maior incidência de cigarrinha-do-milho foi registrada nos municípios de Ipira, Tigrinhos, Saudades e Guatambu, todos localizados no Grande Oeste catarinense.
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Nessas áreas, a combinação de temperatura, regime de chuvas e sucessão de plantios de milho favorece a manutenção de populações elevadas da praga ao longo do ano.
A preocupação, porém, não se limita ao Oeste.
O monitoramento aponta crescimento da presença de cigarrinha-do-milho em Benedito Novo, no Vale do Itajaí, e em Braço do Norte, no Sul do Estado, regiões que reforçam a característica de alta mobilidade do inseto, capaz de migrar rapidamente entre lavouras e ambientes vizinhos.
Para pesquisadores e técnicos, esse espalhamento amplia o risco de enfezamento em áreas que historicamente registravam menor pressão da praga.
Enfezamento-vermelho e enfezamento-pálido voltam ao radar
As análises laboratoriais realizadas com amostras coletadas no Extremo-Oeste confirmaram a presença das bactérias responsáveis pelo fitoplasma do enfezamento-vermelho e pelo espiroplasma do enfezamento-pálido, além de vírus associados à transmissão das doenças.
Na prática, isso significa que a cigarrinha-do-milho está circulando com os principais agentes que derrubam a produtividade do milho, deformam plantas e comprometem a formação de espigas.
O Extremo-Oeste permanece como o epicentro da preocupação justamente pela recorrência de infecções em diferentes safras.
Em cenários anteriores, a combinação de alta população de cigarrinha-do-milho com presença de patógenos resultou em perdas significativas de produtividade, redução do número de espigas por planta e aumento da variabilidade dentro da mesma lavoura, com impactos diretos na rentabilidade do produtor.
Lavouras em V10 a R4 e risco residual na fase vegetativa
De acordo com a pesquisadora Maria Cristina Canale, da Epagri Cepaf, responsável pelo monitoramento, grande parte das lavouras catarinenses já se encontra em estágios avançados de desenvolvimento, entre V10 e R4.
Esse quadro indica que o período de maior suscetibilidade inicial à infecção já foi superado em boa parte das áreas.
Ainda assim, a especialista destaca que há lavouras que permanecem na fase vegetativa e, portanto, seguem expostas ao ataque da cigarrinha-do-milho em condições mais críticas.
Nesses casos, o risco de infecção pelo complexo de enfezamentos permanece elevado e pode comprometer a produtividade final, especialmente em propriedades que semearam mais tardiamente ou que mantêm escalonamento de plantio.
Manejo recomendado contra cigarrinha-do-milho em áreas vegetativas
Para os agricultores que ainda possuem plantios de milho na fase vegetativa, a orientação técnica é intensificar o manejo da cigarrinha-do-milho com o uso combinado de diferentes ferramentas.
A recomendação inclui aplicação de inseticidas de contato e sistêmicos, associados a produtos biológicos sempre que possível, com foco no controle dos insetos que estão migrando para as lavouras.
Outro ponto enfatizado pelos especialistas é o monitoramento constante.
A contagem de cigarrinhas em armadilhas e plantas serve como termômetro para ajustar a intensidade das aplicações e decidir sobre a necessidade de intervenções adicionais.
Em regiões onde a pressão da praga é historicamente maior, como o Extremo-Oeste, o acompanhamento semanal é considerado indispensável para evitar que populações elevadas passem despercebidas.
Colheita, plantas voluntárias e fonte permanente de inóculo
A atenção também se volta aos produtores que iniciam a colheita da safra atual.
A recomendação é regular cuidadosamente o maquinário, a fim de minimizar perdas de grãos e espigas durante o processo.
Grãos que caem ao solo podem germinar e originar plantas voluntárias de milho entre as safras, funcionando como hospedeiros permanentes para a cigarrinha-do-milho e mantendo os patógenos ativos no ambiente.
Se não forem controladas, essas plantas voluntárias criam uma ponte verde entre uma safra e outra, permitindo que a cigarrinha-do-milho encontre alimento e abrigo contínuos.
Isso aumenta a probabilidade de que insetos infectados sobrevivam até o próximo ciclo de plantio, elevando o risco de novo surto de enfezamento logo nas primeiras lavouras semeadas.
Manejo integrado regional e coordenação entre vizinhos
Maria Cristina Canale reforça que, a partir de agora, será necessária uma convivência permanente do setor produtivo com o problema da cigarrinha-do-milho em Santa Catarina.
Na avaliação da pesquisadora, o manejo isolado em uma única propriedade tem eficácia limitada, já que o inseto possui alta mobilidade e migra facilmente entre lavouras vizinhas.
Por isso, a orientação é investir em manejo integrado regionalizado, com alinhamento de estratégias entre produtores de uma mesma micro-região.
Isso inclui sincronização de épocas de semeadura sempre que possível, controle conjunto de plantas voluntárias, monitoramento coordenado e troca de informações sobre níveis de infestação da cigarrinha-do-milho e ocorrência de sintomas de enfezamento nas áreas de milho.
Monitora Milho SC se consolida como referência nacional
Criado em 2021, o programa Monitora Milho SC se consolidou como uma das principais ferramentas científicas da Epagri para acompanhamento da cigarrinha-do-milho no Estado.
O sistema realiza coletas semanais em 55 lavouras distribuídas por diferentes regiões, gerando dados que permitem antecipar cenários, planejar o manejo e adaptar recomendações às condições de cada safra.
A metodologia adotada pelo Monitora Milho SC já vem sendo replicada por instituições de pesquisa de outros estados e até de países vizinhos, o que reforça o papel de Santa Catarina como referência no monitoramento da cigarrinha-do-milho.
Integram o comitê responsável pelo programa entidades como Epagri, Udesc, Cidasc, Ocesc, Fetaesc, Faesc, CropLife Brasil e a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária.
Diante desse cenário, na sua opinião, os produtores e as instituições de pesquisa em Santa Catarina estão reagindo rápido o suficiente para conter a cigarrinha-do-milho ou a próxima safra de milho ainda corre risco elevado de perdas pelo enfezamento?


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