Mais de um milhão de satélites e 50 mil espelhos orbitais poderão formar faixas brilhantes ao redor da Terra, alterar o céu noturno e reduzir a eficiência de telescópios usados em pesquisas de importância global
Planos de empresas para lançar mais de um milhão de satélites destinados a data centers espaciais, além de 50 mil espelhos orbitais, podem formar um anel de satélites visível mundialmente. Pesquisadores alertam que a faixa luminosa poderia superar estrelas e planetas, alterar o céu noturno e prejudicar observações astronômicas.
Anel de satélites seria resultado da corrida por data centers espaciais
O cenário está relacionado ao avanço de projetos que pretendem levar grandes estruturas de processamento de dados para o espaço. Somadas, as constelações apresentadas por empresas ultrapassam um milhão de satélites.
SpaceX, Starcloud, Cowboy Space, Orbital e Blue Origin estão entre as companhias que solicitaram à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, a FCC, autorização para desenvolver ou lançar grandes constelações orbitais.
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A China também pretende criar uma rede própria de data centers espaciais nos próximos cinco anos.
Paralelamente, a empresa californiana Reflect Orbital planeja colocar em órbita 50 mil espelhos para refletir luz solar em usinas terrestres durante a noite.
Em 10 de julho, a Reflect Orbital recebeu autorização da FCC para operar o Eärendil-1, seu primeiro espelho orbital demonstrador. O satélite terá 18 metros por 18 metros e lançamento previsto até o fim deste ano.

Equipamentos dependeriam de uma órbita com iluminação solar contínua
Segundo Hugh Lewis, professor de astronáutica da Universidade de Birmingham, data centers orbitais e espelhos espaciais precisam permanecer continuamente iluminados pelo Sol para cumprir as funções previstas pelos operadores.
Para obter as chamadas 24 horas de luz solar no espaço, os equipamentos teriam de ocupar uma órbita que acompanha a linha do terminador, fronteira entre as regiões iluminadas e escuras da Terra.
Essa trajetória passaria sobre os polos Norte e Sul. Diferentemente da Starlink, distribuída ao redor do planeta, as novas constelações ficariam concentradas em um mesmo plano orbital, próximas umas das outras e seguindo a mesma direção.
Vista da superfície, essa concentração apareceria como uma faixa luminosa atravessando o céu. Lewis afirma que acomodar tantas constelações exigiria empilhá-las nessa órbita específica, criando um impacto que classificou como “absolutamente catastrófico” para o céu noturno.
Simulações mostram faixas luminosas cruzando o céu diariamente
A astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina, participou de simulações computacionais envolvendo projetos como Starmind, da SpaceX, Project Sunrise, da Blue Origin, e Stampede, da Cowboy Space.
Os modelos indicam que os satélites visíveis poderiam superar as estrelas em quantidade, além de esconder parte delas. Conforme a Terra girasse sob a órbita, o anel de satélites cruzaria o céu duas vezes diariamente.
A primeira passagem ocorreria entre o fim e o início da noite. A segunda seria observada pouco antes do amanhecer, aproximadamente nos mesmos horários todos os dias, com efeito potencialmente mais intenso durante o inverno.
Algumas constelações teriam inclinações diferentes. O Project Sunrise, por exemplo, poderia formar um desenho semelhante à letra X sobre o anel principal.
Perto do equador, o observador enxergaria o formato completo. Em áreas mais ao norte, seriam vistas duas faixas separadas, uma aparecendo pela manhã e outra após o pôr do sol.
Brilho poderia comprometer telescópios e pesquisas sobre asteroides
Lawler ressalta que as simulações utilizam informações públicas e ainda não passaram por revisão por pares. Mesmo assim, os modelos apontam que a luz espalhada permaneceria no céu por até duas horas depois que os satélites desaparecessem no horizonte.
Esse brilho residual reduziria o período útil de funcionamento dos telescópios. Segundo a pesquisadora, instalações financiadas pelos contribuintes poderiam produzir menos ciência pelo mesmo custo, afetando inclusive a busca por asteroides perigosos próximos à Terra.
A intensidade final dependerá da quantidade de equipamentos efetivamente lançados. Cada espelho da Reflect Orbital, porém, deverá apresentar brilho comparável ao de Vênus, o objeto mais brilhante do céu noturno depois da Lua.
Um estudo anterior do Observatório Europeu do Sul apontou que uma constelação de 50 mil espelhos poderia aumentar em até 300% o brilho do céu noturno, tornando alguns dos telescópios mais sofisticados praticamente inutilizáveis.
Para John Barentine, defensor do céu escuro, os novos projetos transformariam os atuais anéis quase invisíveis de satélites e detritos em faixas reflexivas permanentes, posicionadas justamente nas janelas crepusculares mais importantes para a astronomia mundial.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do Space.com e em dados, simulações e declarações de pesquisadores citados no material fornecido, com números e informações preservados conforme o conteúdo consultado.

